Ana Lúcia Martins: uma vereadora ameaçada pela violência racista

'É preciso que os organismos de Justiça e toda sociedade ajam para que outras trajetórias não sejam interrompidas, silenciadas'

A vereadora de Joinville (SC), Ana Lúcia Martins. Créditos: Divulgação

A vereadora de Joinville (SC), Ana Lúcia Martins. Créditos: Divulgação

Opinião

Neste ano tão duro e desafiador, a eleição de vereadoras negras comprometidas com a luta antirracista e com a justiça social foi uma das minhas maiores alegrias. Vi na vitória das candidatas que romperam as barreiras do silêncio e da invisibilidade um fio de esperança em meio a esse contexto de ódio e destruição no qual estamos imersos.

 

 

Entre as que a partir do dia 1º. de janeiro ocuparão uma cadeira nas Câmaras Municipais espalhadas pelo Brasil afora, tenho um carinho muito especial pela Ana Lúcia Martins, primeira vereadora negra eleita em Joinville, que fica a 146 km da capital catarinense. Nós nos conhecemos em 2016, quando estive na cidade para participar de um evento em comemoração ao mês da Consciência Negra.

Na ocasião, falei sobre os desafios de ser mulher negra num país em que, segundo dados do Mapa da Violência, 75% das vítimas de feminicídio são afro-brasileiras. Ana estava na primeira fila. De longe, percebi seu olhar atento. Um olhar diferente, como se já nos conhecêssemos há séculos. Tive a mesma sensação quando a abracei. Parecia um reencontro ancestral.

Ali nasceu uma amizade que nem o tempo, nem a distância foram capazes de destruir. Não faz muito tempo, passamos horas conversando sobre a libertação que foi assumir nossos cabelos crespos. Mesmo de longe, segui acompanhando a atuação da Ana no Coletivo de Mulheres Negras Ashanti, a presença dela nas manifestações em favor da democracia, a militância na educação. Ana é professora aposentada, tendo dedicado parte da vida ao magistério.

Recebi com alegria a notícia de que minha amiga concorreria à vereança. Além da trajetória de luta, Ana cercou-se de uma equipe que a ajudou a construir uma campanha belíssima. Algo me dizia que a vitória estava próxima. Minha intuição não falhou. Ana Lúcia Martins foi eleita com 3.126 votos.

Ainda comemorávamos quando os primeiros ataques racistas vieram. “Agora só falta a gente matar ela e entrar o suplente que é branco” e “os fascistas mandaram avisar que ela que se cuide” foram duas das mensagens que Ana recebeu em suas redes sociais logo após o término da apuração dos votos. De acordo com Ana, as injúrias e as tentativas de intimidação começaram antes mesmo da divulgação do resultado das eleições. Uma semana depois, novas ameaças de morte. Dessa vez, por e-mail. Ana registrou um boletim de ocorrência. As denúncias estão sendo investigadas pela Polícia Civil de Joinville por meio da Delegacia de Proteção à Criança, ao Adolescente, à Mulher e ao Idoso.

O caso ganhou repercussão nacional. Ana não está só. No dia 20 de novembro, mais de 300 pessoas participaram de um ato no centro de Joinville em defesa de sua integridade física e pela punição dos criminosos. Darci Frigo, presidente da Comissão Nacional dos Direitos Humanos, esteve na cidade na quarta-feira passada para acompanhar o caso. Em Brasília, a deputada federal Talíria Petrone, que desde 2016, quando foi eleita vereadora em Niterói, tem sido ameaçada de morte, apresentou no último dia 27 um Projeto de Lei que cria mecanismos de enfrentamento ao assédio e à violência política contra mulheres candidatas e no exercício da política.

Os ataques dos quais Ana foi vítima, infelizmente, foram recorrentes em 2020. De acordo com estudo realizado pelo Instituto Marielle Franco, 80% das candidatas negras que disputaram as eleições neste ano foram alvos de violência virtual, dentre elas a então candidata a prefeita do Rio de Janeiro Benedita da Silva. Em Curralinho, no Pará, Leila Arruda, candidata a prefeita pelo Partido dos Trabalhadores, foi morta a facadas e a pauladas pelo ex-marido na porta de casa.

 

 

As ameaças e insultos a Ana vieram à tona num momento em que os impactos das políticas de combate ao racismo, sobretudo no campo da educação, podem ser percebidos com a maior presença de mulheres negras no meio universitário e em posições de destaque. Vieram à tona em um momento de afirmação e insurgência do Movimento Feminista Negro. Vieram à tona num período em que as pessoas, incentivadas pela institucionalização da barbárie, se sentem autorizadas a proferir discursos racistas e de ódio. Vieram à tona em meio a declarações de negação do racismo por parte de autoridades públicas.

A violência racista que cerca Ana ceifou a vida de Marielle Franco, que não teve qualquer chance de defesa. É preciso que os organismos de Justiça e toda sociedade ajam para que outras trajetórias não sejam interrompidas, silenciadas.

Defender a vida e o mandato de Ana Lúcia Martins é defender a democracia. E defender a construção de um outro modelo de sociedade, capaz de romper com o imaginário de que, enquanto mulheres negras, estamos nesse mundo apenas para servir e limpar a sujeira dos outros.

 

Este texto não reflete necessariamente a opinião de CartaCapital.

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Mestra em Educação pela UFOP. Atuou como professora de História em escolas públicas da periferia de Belo Horizonte e da região metropolitana. Atualmente tem se dedicado à Formação Inicial e Continuada de Professores. É autora do livro Outra educação é possível: feminismo, antirracismo e inclusão em sala de aula, lançado em 2018 pela Mazza Edições.

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