Opinião

Desfile do Cabelo Crespo e Cacheado: uma prática pedagógica de combate ao racismo

Sonho que na volta às aulas presenciais, as escolas deste país insiram eventos como esses no planejamento anual, escreve Luana Tolentino

Foto: iStock Foto: iStock
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Como colunista de CartaCapital, tenho liberdade para escrever sobre qualquer assunto. Acontece que, pela terceira semana seguida, me vejo dissertando sobre questões relacionadas ao racismo. As manifestações racistas, infelizmente tão presentes no cotidiano do país, têm ganhado ares cada vez mais violentos, que conforme nos ensina a filósofa Sueli Carneiro, advêm de uma reação da branquitude, ao se considerar ameaçada pelos avanços e conquistas da comunidade negra. Como bem enfatiza uma das fundadoras da ONG Geledés, mais do que nunca, os negros sabem o seu lugar.

No início desta semana, quando ainda nos recuperávamos das “bofetadas” que levamos no Dia da Consciência Negra, marcado pelo assassinato brutal de João Alberto Freitas e pela declaração do vice-presidente da República, Hamilton Mourão, de que não existe racismo no Brasil, veio à tona o caso envolvendo a mineira Sara Policarpo. Ao tirar pela segunda vez uma foto para emissão de um novo documento de identidade, após sua primeira 3×4 ser recusada em uma unidade de atendimento por supostamente “estar fora do enquadramento padrão”, ela teve o cabelo apagado pelo fotógrafo, com uso de photoshop em sua imagem. O episódio ocorreu em Divinópolis/MG, também no 20 de Novembro. Em seu perfil do Instagram, Sara escreveu: “Chorei tanto, mas tanto de ver uma criança [também] passar por isso e ver que todas as mulheres negras estavam com o cabelo escondido, e as pessoas [de] cabelo liso tudo solto”.

O racismo sofrido por Sara, que evidencia mais uma tentativa de desqualificar e apagar os traços da identidade negra, me fez lembrar do Desfile do Cabelo Crespo e Cacheado, atividade que realizei com o apoio de colegas no ano de 2017, em uma escola na qual trabalhei. O objetivo do evento era combater o preconceito e a discriminação, como também incutir entre estudantes negros e negras o orgulho da pertença racial.

Silvia, grande companheira de sonhos e lutas, lançou a ideia. Fiquei reticente, pois teríamos apenas uma semana para organizar tudo. Mas logo me entusiasmei com a proposta. De repente, toda a escola estava mobilizada para o desfile, algo que não víamos havia muito tempo. Ao contrário do que estávamos acostumadas a presenciar, a atividade envolveu estudantes do Ensino Infantil até os anos finais do Fundamental. Pelos corredores, principalmente entre as meninas negras, conversas sobre qual roupa usar, qual penteado fazer no dia do desfile. Era a primeira vez que a escola promovia algo nesse sentido.

No dia tão esperado, a escola pulsava. As alunas negras, que jamais haviam tido a experiência de participar de uma atividade pensada para ressaltar e valorizar a beleza que elas carregam, tinham todos os holofotes à disposição. Na arquibancada, pais, avós, tios, tias, mães… todos comovidos com a cena. Uma delas relatou de maneira emocionada: “Na minha época, não tinha essas coisas” – como se a escola estivesse reparando tudo o que lhe foi negado quando ainda era uma estudante negra.

A emoção que presenciei em minha escola, também vi em novembro do ano passado no Centro de Educação Municipal Antonio Francisco Machado, na cidade de São José, em Santa Catarina. Inspirado em um relato presente no “Outra educação é possível: feminismo, antirracismo e inclusão em sala de aula”, livro que lancei em 2018, o Forquilhão, nome pelo qual a escola é conhecida, também realizou o Desfile do Cabelo Crespo e Cacheado. Lá a atividade ganhou novos contornos, uma vez que se trata de um município em que mais de 80% da população é branca. Em conversa recente com a Joelma, mãe de dois alunos do colégio, ela me disse que ainda se emociona ao lembrar do evento, que dada a repercussão, contou com a presença da equipe de jornalismo da TV Record e de representantes da Secretaria Municipal de Educação.

Conforme nos ensina a pensadora Nilma Lino Gomes, o cabelo é um componente importante no processo de construção da identidade negra, muitas vezes marcada pela violência e pela negação da pertença racial. Ao cabelo crespo ainda são destinadas atribuições como “feio”, “duro”, “palha de aço”, “Bombril” e “pixaim”, adjetivos que ouvi até bem pouco tempo atrás. Tais atribuições impactam de maneira negativa na autoestima e nos processos de aprendizagem dos estudantes negros

Para mudar essa situação é necessário cumprir verdadeiramente as diretrizes da Lei 10.639/03, que tornou obrigatório o ensino da História e da Cultura Africana e Afro-brasileira em escolas públicas e privadas. É necessário fazer frente ao racismo que permeia os espaços escolares, promovendo pedagogias que exaltem as características físicas da população negra, ao invés de menosprezá-las, tal qual ocorreu com Sara Policarpo na semana passada.

Mesmo com as aulas remotas, a Escola Municipal Florestan Fernandes, que fica na periferia de Belo Horizonte e é reconhecida nacionalmente pela institucionalização de práticas pedagógicas antirracistas, realizou um Desfile do Cabelo Crespo e Cacheado, mostrando que a educação antirracista deve ser uma constante em qualquer forma de ensino.

Sonho que na volta às aulas presenciais, as escolas deste país insiram desfiles como esses no planejamento anual. Para empoderar as crianças e jovens negros. Para educar toda a sociedade no que diz respeito ao reconhecimento e à valorização da diversidade.

Luana Tolentino

Luana Tolentino
Mestra em Educação pela UFOP. Atuou como professora de História em escolas públicas da periferia de Belo Horizonte e da região metropolitana. Atualmente tem se dedicado à Formação Inicial e Continuada de Professores. É autora do livro Outra educação é possível: feminismo, antirracismo e inclusão em sala de aula, lançado em 2018 pela Mazza Edições.

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