Alter do Chão em chamas: paraíso não ficou de fora das queimadas amazônicas

O povo Borari chora por suas terras e pela situação de risco, mas não chora sentado. Estamos de pé, combatendo o fogo, e pedindo apoio

Foto: Eugenio Scanavinno

Foto: Eugenio Scanavinno

Opinião

O povo Borari chora por suas terras, suas florestas, e por toda riqueza que vem sendo transformada em cinzas em decorrência da ganância de muitos e do descaso governamental.

A Vila de Alter do Chão – que esse ano ficou mais conhecida em outras regiões do país por meio de reportagens na televisão ressaltando suas belezas naturais – fica localizada no oeste do Pará, à margem direita do Rio Tapajós, e é território do povo Borari. 

As queimadas desenfreadas que avançam sobre a Amazônia chegaram na vila na noite do último sábado 14. O início do foco de incêndio foi identificado em uma área no entorno do Lago Verde, onde existe um loteamento ilegal e uma invasão de terras que, há pelo menos três anos, vem transformando essa parte do paraíso que é Alter do Chão em uma zona de conflito agrário.

After do Chão em chamas. Foto: reprodução

Alter do Chão é uma vila paradisíaca que atrai muitos turistas, possui praias de água doce com belezas inigualáveis, e por esse motivo cada centímetro de terra está sendo muito valorizado pelo setor imobiliário. As mais disputadas são as próximas ao rio, lago e nascentes de igarapé.

Foi na invasão de terra denominada Capadócia onde começou o incêndio que até o momento já se alastrou até a Comunidade de Ponta de Pedras, a 26 km de Alter. Acredita-se em incêndio criminoso e sabemos que o governador do Estado do Pará, Helder Barbalho, solicitou a Polícia Civil que investigue o caso.

O fogo vem destruindo uma grande área de um tipo de vegetação rara na Amazônia, a Savana Amazônica. O INPA, Instituto Nacional de Pesquisa da Amazônia, pesquisa e monitora a região há mais de 30 anos e já foram catalogadas espécies de animais endêmicos, ou seja, animais que só vivem nessa área que no momento está em chamas.

Todos os anos, nesse período, há presença do fogo na região, mas que fique claro: não dessa proporção. E nas savanas, o combate ao fogo é muito mais complicado pois a vegetação está seca e qualquer faísca representa perigo.

A queimada está acontecendo dentro de uma APA – Area de Proteção Ambiental. Criada em 2003, essa área até hoje não possui um Plano de Manejo, o que, com as crescentes e invasões de terra, construções irregulares, entre outros problemas relacionados ao ordenamento territorial, é de grande necessidade.

A população de Alter, por conta própria, tem se articulado para proteger a região. Há dois anos foi instituída a Brigada de Incêndio Florestal de Alter do Chão, um grupo independente composto por homens e mulheres que trabalham de forma voluntária para proteger a floresta e as pessoas. Com treinamento do corpo de bombeiros, esse grupo que, na semana passada formou mais 30 voluntários com ajuda de doações para os custos mínimos do curso, está atuando com força desde sábado.

Conseguiram, além de atuar na linha de frente do fogo, fazer a mobilização dos órgãos governamentais, organizações comunitárias e ONGs. Porém, é necessário mais equipamentos e pessoas capacitadas para atuar na ação do combate ao incêndio (para conhecer mais o trabalho da Brigada e colaborar acesse aqui).

Ao pôr do sol as equipes se retiram do local, e da orla de Alter do Chão, dá para ver as enormes chamas avançarem, um cenário devastador. 

Queimadas em After do Chão. Foto: Eugenio Scanavinno

O povo Borari chora por suas terras e pela situação de risco, mas não chora sentado. Estamos de pé, combatendo o fogo, e pedindo apoio. Por mais suporte do governo no combate ao fogo; por um plano de manejo urgente para a APA de Alter do Chão; por mais rigor com as ocupações de terra irregulares. 

Este texto não reflete necessariamente a opinião de CartaCapital.

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É turismóloga e militante pelo coletivo de mulheres indígenas Suraras do Tapajós

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