Milton Rondó

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Diplomata aposentado, foi secretário socioeconômico do Instituto Ítalo-Latino Americano; vice-presidente do Comitê Consultivo do Fundo Central de Emergências da ONU e representante, alterno, do Itamaraty no extinto Consea

Opinião

A volta da fome no Brasil reflete o desgoverno que vivemos

Um escândalo de desigualdade, tendo em vista que somos um dos maiores exportadores de produtos agrícolas

Créditos: Reprodução Redes Sociais Créditos: Reprodução Redes Sociais
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O conhecimento é uma ferramenta, não um objetivo.
Leon Tolstoi.

O Brasil retornou ao mapa da fome, da Organização das Nações Unidas (ONU).

Somos o único país do mundo a sair e depois retornar àquela situação de flagelo.

Segundo a Rede Brasileira de Pesquisa em Soberania e Segurança Alimentar e Nutricional, 33 milhões de pessoas passam fome no Brasil, tendo crescido 57% o índice de famintos em um único ano.

Um escândalo de desigualdade, tendo em vista que somos um dos maiores exportadores de produtos agrícolas.

O absurdo reflete o desgoverno que vivemos, em que empresas públicas que geravam emprego e renda são vendidas a preços totalmente subavaliados para pagar uma dívida pública que os próprios credores fazem crescer a cada dia, engordando os bolsos dos banqueiros, que, neste desgoverno, têm a chave da coluna do débito e do crédito dos recursos públicos. Um crime perfeito, de transferência do patrimônio público para meia dúzia de privados e privadas.

Por que desejamos as pessoas presas à fome e à pobreza? Qual nossa insegurança? De onde vem tanto medo da parte dos opressores?

Todos amamos a liberdade, teoricamente.

Na prática, porém, fica claro que a tememos, em igual proporção e mesma intensidade, pois implica confrontar limites, limitações, fantasmas, muitos dos quais impostos por nossas culturas (inclusive familiares), e medos atávicos, resultando em espectros politicamente manipuláveis.

A propósito, em “A festa no castelo” (editora L&PM), Moacyr Scliar nos recorda Jean Jaurès com apropriada citação: “A violência é um sinal de fraqueza.”

Na verdade, quando refletimos, nos damos conta de que estamos aqui para nos complementarmos, não oprimirmos ou eliminarmos.

A violência é a exceção disfuncional de uma sociedade humana claramente concebida para a cooperação.

Naquela mesma obra, Scliar cita também Thomas Mann, com fórmula social: “Todo ser humano razoável deveria ser um socialista moderado.”

De fato, nossas diferenças inatas deixam claro as diferentes vocações, que podem ou devem transformar-se em missões, no almejar do bem comum.

Mas nem sempre os chamados à razão são ouvidos, caso em que se tornam também verdadeiras as reflexões de Maximilien de Robespierre e de Peter A. Kropotkin, que, nos recorda Scliar, afirmaram respectiva e peremptoriamente: “A revolução é o despotismo da liberdade contra a tirania”; e: “Desde o seu começo, a revolução é um ato de justiça para com os maltratados e os oprimidos”.

Em “Antes de Adão” (editora L&PM), Jack London imagina um combate entre primatas oprimidos e seus opressores: “Olho-Vermelho pulou sobre ela e a agarrou. Puxando os pelos da cabeça dela com os dedos nodosos, ele se levantou e urrou em triunfo, desafiando os assustados espectadores que olhavam através das árvores. Foi então que fiquei louco. Joguei a cautela para o alto e abandonei o desejo de viver que existia em meu sangue. Enquanto Olho-Vermelho ainda urrava investi sobre ele por trás. Meu ataque foi tão inesperado que consegui derrubá-lo. Apertei meus braços e pernas em torno dele e lutei para mantê-lo no chão. Teria sido impossível consegui-lo se ele não tivesse mantido o firme aperto com uma das mãos no pelo de Ligeira. Encorajado pela minha conduta, Carantonha tornou-se um súbito aliado. Ele investiu, fincando os dentes no braço de Olho-Vermelho, cortando e arranhando seu rosto. Esse era o momento em que o resto da Tribo deveria ter entrado. Era a chance de acabar para sempre com Olho-Vermelho. Mas ficaram nas árvores, assustados.”

London descreve, metaforicamente, a dificuldade que temos os humanos em enfrentar a opressão. Delineia o nosso lado covarde, cúmplice da dominação.

Em “A paciente impaciência” (editorial Vanguardia), Tomas Borge cita o poeta, combatente salvadorenho, Roque Dalton, que, por sua vez, assim define o ser poeta com o povo: “O que reclama seu pagamento não em bajulações nem em dólares mas em perseguições, cárceres, balas. E não apenas vai carecer de libré e de fraque e de trajes de noite, senão que irá cada dia ficando com menos coisas, até ter apenas um par de camisas remendadas, mas limpas, como a única poesia”.

Borge complementa essa linda definição do ofício poético com uma tão bela definição do ser Roque Dalton, por Julio Cortázar: “Falar com Roque era como viver mais intensamente, como viver por dois. Nenhum de seus amigos esquecerá as histórias (…) do pirata Dalton (…) a recordação das prisões, da morte rondando, da fuga ao amanhecer, dos exílios, das voltas, a saga do combatente, a longa marcha do militante.”

Borge recorda que pouco antes de morrer Roque Dalton dissera: “Seja qual for sua qualidade, seu nível, sua finura, sua capacidade criadora, seu êxito, o poeta, para a burguesia, só pode ser servente, palhaço ou inimigo.” Como notou Borge, o poeta elegeu o último papel.

Também bom poeta e ótimo guerrilheiro, Tomas Borge reconta capítulo da história da Nicarágua que muito se assemelha ao momento atual brasileiro: “Quando os preços do algodão declinaram, os algodoeiros, com agilidade felina, se apoderaram das ricas terras do Pacífico. Despojaram sem piedade e sem violar a lei, com a consciência tranquila, pequenos e médios proprietários; assim puderam substituir a qualidade dos preços pela quantia da produção.”

Não é dessa forma que agem os latifundiários locais frente à deterioração dos termos de troca internacionais? Não é esse o sentido do projeto de lei que libera a grilagem de terras no Brasil?

Conquistar a liberdade também nosso dever.

 

Este texto não representa, necessariamente, a opinião de CartaCapital.

Milton Rondó

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