Milton Rondó

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Diplomata aposentado, foi secretário socioeconômico do Instituto Ítalo-Latino Americano; vice-presidente do Comitê Consultivo do Fundo Central de Emergências da ONU e representante, alterno, do Itamaraty no extinto Consea

Opinião

A violação da democracia contra Renato Freitas

Qual o crime de se entrar em uma igreja em que não há culto no momento?

O ex-vereador Renato Freitas (PT). 

Foto: Eduardo Matysiak
O ex-vereador Renato Freitas (PT). Foto: Eduardo Matysiak
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“Todos nós temos apenas um objetivo: encontrar a perfeição na bondade. Portanto, o único conhecimento necessário é o que nos leva a isso.” – Leon Tolstoi

A cassação do vereador Renato Freitas, pela Câmara Municipal de Curitiba, é mais uma violação da democracia no País; importante que fique registrada para a História.

O suposto crime que levou à medida arbitrária por parte daquele colegiado – deslegitimado após o ato antidemocrático, racista e aporofóbico – não existiu.

A exemplo do impedimento da presidenta Dilma, igualmente ilegal, uma vez que não previsto na Constituição, a suposta infração que teria sido cometida por Renato tampouco estava predita, inexistente, de todo.

Com efeito, não houve qualquer interrupção da missa na Igreja de Nossa Senhora do Rosário dos Pretos, simplesmente porque a missa já terminara quando os manifestantes ingressaram.

Qual o crime de se entrar em uma igreja em que não há culto no momento?

Na verdade, os vereadores que o cassaram sequer podem aceitar que pessoas se manifestem pela morte de um inocente, ainda por cima negro, pobre e estrangeiro. Não têm os caçadores a grandeza de se emocionar pela morte de um jovem, refugiado que foi torturado e morto ao reivindicar seu direito, o próprio salário?

Provavelmente, porque compartem com os assassinos e torturadores sentimentos contíguos.

Não estão legitimados? Não o faz também o miliciano mor, em Brasília?

Triste é quem passa atestado de ser desunamo, desalmado, amante de Mamon, não de Cristo, que sempre esteve ao lado da justiça, jamais do deus dinheiro.

Demonstram os edis serem, eles sim, pobre gente colonizada pelo que há de pior: a falta de compaixão, de solidariedade, de caridade.

Aparentemente, jamais se indignaram com uma injustiça. Com isso, dão prova de as aceitarem, normalizarem, banalizarem.

E o que é o mau se não a banalização do crime?

Não foi assim que milhões de judeus foram mortos pelos nazistas em campos de concentração, como percebera Hannah Arendt ao desvendar a “banalidade do mal”?

Perguntemos a esses senhores se sabem qual é o pecado maior em suas religiões supostamente cristãs. Não sabem que é a injustiça? Que é a falta de caridade?

Com certeza, desconhecem, do contrário não teriam matado Moise Kabagambe pela segunda vez, com iguais requintes de crueldade simbólica dos assassinos materiais.

Conseguem essas pessoas avaliar o quanto a humanidade perde com uma vida que se transforma em morte? Têm ideia do quanto uma pessoa encerra de cultura, de conhecimento, de vivência? Conhecem a África, o Congo? Sua História, genocídio e riquezas?

Quantas dessas pessoas possuem passaportes? Além de Miami, Orlando e a Disneyworld conhecem outras localidades e países? Algum deles já pisou solo africano? Leu um autor ou autora africanos?

Temo que as respostas nos conduzam a homens e mulheres que se creem brancos, cristãos e democratas (todos os três conceitos erroneamente compreendidos), sem qualquer interesse pela cultura de mais da metade deste País, composta de afrodescendentes.

Com efeito, não foi Renato apenas que visaram, mas a todo ato político mais alto, mais desprendido, pois só chafurdam nas barganhas, nos cabides de emprego, no toma lá da cá. Como iriam essas pobres almas entender o gesto de quem se emociona e se mobiliza contra uma injustiça onde quer que ela ocorra?

Mas não é esse o traço distintivo entre seres humanos e animais? Vivem esses subseres ou apenas vegetam?

Sequer podemos dizer que vegetam, uma vez que ao vegetarmos não fazemos o mal, ao contrário desses senhores, que defendem o ódio, a morte, o que há de mais abjeto no ser humano.

Em vez de se revoltarem contra uma intrusão imaginária, por que não levantam suas vozes contra o massacre de indígenas guarani kaiowa perpetrado por latifundiários e seus agentes armados, inclusive militares, nestes mesmos dias, em Amambaí, no Mato Grosso do Sul? Lá, ocorreram um assassinato, de um jovem indígena de 25 anos, três desaparecimentos, sendo duas mulheres e uma criança de 7 anos e muitos feridos, que, uma vez conduzidos ao hospital, foram imediatamente presos.

Renato teve a grandeza de protestar por alguém que jamais encontrara, de um país que não visitara, de outro continente, distante todo um oceano Atlântico.

Essas almas apequenadas, que não o entenderam, mas feroz e iniquamente o julgaram , nada sentem por pessoas de seu próprio país? Das populações de quem roubaram as terras, as águas e até o ar? Podem seres assim representar uma comunidade, sem sequer saberem o que uma comunidade é?

Como entendem a raiz da palavra? Comum como corriqueiro, banal? Não pararam para refletir que comum implica união, destino comum?

Ante tanta desumanidade, palavras escasseiam, com o ar.

Resta o recurso a uma inteligência maior: aquela do uruguaio Eduardo Galeano.

Em “Os filhos dos dias” (editora L&PM), lemos: “Carlos e Gudrum Lenkersdorf nasceram e viveram na Alemanha. No ano de 1973, esses ilustres professores chegaram ao México. E entraram no mundo maia, numa comunidade tojolabal, e se apresentaram dizendo: – Nós viemos para aprender. Os indígenas ficaram em silêncio. Depois de um tempinho, alguém explicou o silêncio: – É a primeira vez que alguém diz isso para a gente. E aprendendo Gudrum e Carlos ficaram por lá, durante anos e anos. Da língua maia aprenderam que não há hierarquia que separe o sujeito do objeto, porque eu bebo a água que me bebe e sou visto por tudo que vejo, e aprenderam a cumprimentar assim: – Eu sou outro você. Você é outro eu.”

Este texto não representa, necessariamente, a opinião de CartaCapital.

Milton Rondó

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