A vacinação contra Covid acelera no Brasil. Apesar de Bolsonaro, o SUS resiste

Isso é evidência de que os governos estaduais e municipais têm conseguido se organizar para disponibilizar vacinas nos postos de saúde

Vacina para todos 
é um lema mundial. (Foto: Cristine Rochol/Prefeitura de Porto Alegre)

Vacina para todos é um lema mundial. (Foto: Cristine Rochol/Prefeitura de Porto Alegre)

Opinião,Saúde

Há alguns dias, escrevi sobre a decepção em relação ao desempenho geral do Brasil no enfrentamento da pandemia. A expectativa era positiva — por ser o SUS o maior sistema de saúde pública universal do mundo. Mas, como sabemos, o governo Bolsonaro boicota o máximo as políticas públicas e estava mais preocupado em organizar a divisão dos esquemas entre os militares e o centrão no ministério da Saúde do que em coordenar ações contra a Covid-19.

Apesar disso, a campanha de vacinação acelerou nas últimas semanas. Isso mostra a resiliência do SUS. E permite até que alimentemos certo otimismo neste momento tão duro, sem descuidar dos próximos passos fundamentais.

Afinal, a vacinação no Brasil está indo bem ou mal?

O Brasil entra na segunda quinzena de agosto com cerca de 25% da população imunizada. Esse patamar é quase o mesmo da média mundial

Se olharmos o panorama prévio, o cenário vinha bastante ruim. As coberturas vacinais vêm caindo significativamente nos últimos cinco anos, ao ponto de não ter sido atingida nenhuma meta do calendário de imunização em 2019 e 2020. A vacinação contra a Covid parecia ir pelo mesmo caminho. O Brasil ficou no fim da fila, foi dos últimos países de renda média a comprar imunizantes e a começar vacinar a população. Os motivos para isso são bastante conhecidos, alguns deles vêm sendo mostrados pela CPI do Senado.

Por isso, considerando a cobertura vacinal completa – pessoas que receberam as duas doses –, a situação ainda está muito distante do objetivo. O Brasil entra na segunda quinzena de agosto com cerca de 25% da população imunizada. Esse patamar é quase o mesmo da média mundial, também alcançada por outros países de renda média, como México e Rússia, e menos da metade da cobertura atingida pelos países ricos.

 

No entanto, o ritmo de vacinação vem ganhando força. Desde meados de junho, a velocidade da imunização em relação à população alvo no Brasil é maior do que a dos outros países – e equivalente à do Japão, que fez um esforço concentrado para a realização dos Jogos Olímpicos. Ultrapassando a média de 1,5 milhões de doses aplicadas por dia, o Brasil se aproxima de 60% da população já tendo recebido pelo menos uma dose da vacina, percentual semelhante ao de países ricos que largaram muito na frente, como os EUA.

Isso é evidência de que os governos estaduais e municipais têm conseguido se organizar para disponibilizar vacinas nos postos de saúde, apesar de toda a dificuldade criada pelo governo federal na comunicação, interrupções na distribuição e falta de doses. Graças à capilaridade do SUS e a capacidade acumulada durante décadas, as vacinas estão chegando aos braços dos cidadãos brasileiros.

Na falta de uma comunicação do Ministério da Saúde, cabe às secretarias estaduais e municipais informar a população

Outro ponto que conta a favor é a cultura da população, majoritariamente receptiva e com uma boa relação com a ideia de vacinação. Enquanto países europeus e EUA enfrentam muita dificuldade para ultrapassar a barreira de 60 a 70% de cobertura por causa da resistência de parte das populações a se vacinar, tudo indica que isso não será um obstáculo no Brasil.

E aqui vale lembrar que as metas de cobertura para controlar com segurança a Covid devem ser superiores a 80% de pessoas totalmente imunizadas, sobretudo desde o surgimento da variante Delta do vírus.

Portanto, é essencial ter muita atenção nas etapas seguintes.

Na falta de uma estratégia de comunicação eficiente do Ministério da Saúde, cabe às secretarias estaduais e municipais informar a população sobre a necessidade de todos receberem a segunda dose da vacina e de implementar busca ativa para completar o esquema vacinal de quem já recebeu a primeira dose. Isso é crucial.

Além disso, precisa ficar claro que criar ilhas de imunizados não resolve a epidemia. Enquanto não for atingida cobertura vacinal em todas as regiões, estados e municípios terão que manter as medidas de saúde pública para evitar novos surtos. Ou seja, distanciamento e uso de máscaras (obrigatório, sim) devem continuar por algum tempo.

Ainda falta um tanto, mas a Covid vai passar. Bolsonaro e sua turma também vão.

Este texto não reflete necessariamente a opinião de CartaCapital.

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Médico e advogado sanitarista, pesquisador do Centro de Pesquisa em Direito Sanitário da USP e do Institut Droit et Santé da Universidade de Paris.

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