A terceira onda vem e os empresários do ensino querem nos afogar

Não há retorno seguro às salas de aula sem vacinação de condições sanitárias reais, escreve Gilson Reis

Foto: USGirl/iStockphotos

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Opinião

O Boletim do Observatório Covid-19 Fiocruz, publicado no dia 28 de maio, alerta para o recrudescimento da pandemia nas próximas semanas.

“Os índices de positividade dos testes para diagnóstico realizados permanecem em altos patamares, o que demonstra a circulação intensa do vírus Sars-CoV-2, gerando novas infecções, que podem resultar em casos graves de Covid-19. Esse contexto vai gerar novas pressões sobre todo o sistema de saúde. O aumento no número de internações, demonstrado pelo crescimento das taxas de ocupação dos leitos de UTI, é resultado desse novo quadro da pandemia no Brasil”, alerta o documento.

Segundo a Fiocruz, mantidas as tendências dos atuais indicadores, existe a sinalização de uma nova elevação do número médio de óbitos para um patamar em torno de 2.200 por dia. Além disso, o boletim chama a atenção para o fato de que “o rejuvenescimento da pandemia, associado à circulação de novas variantes do vírus no país e ao relativo sucesso da campanha de vacinação entre populações mais idosas, torna mais crítico o tratamento para casos graves entre grupos mais jovens” e de que a “exposição desta faixa etária está associada a condições precárias de trabalho e transporte e ainda pela retomada de atividades econômicas e de lazer, que vêm sendo efetivadas em diversos estados e municípios, com a flexibilização das restrições vigentes em março”.

É nessa iminência de uma terceira onda, quando ainda nos afogamos na segunda, que grupos bolsonaristas e empresários da educação insistem num retorno às aulas presenciais, sem qualquer controle da pandemia dentro dos indicadores científicos que devem balizar a discussão.

 

 

De acordo com o 18° número do boletim Emprego em Pauta, também divulgado recentemente pelo Departamento Intersindical de Estatística e Estudos Socioeconômicos (Dieese), trabalhadores em atividades de educação são os mais afetados, depois de médicos e enfermeiros, pelos desligamentos por morte no emprego celetista. Só no primeiro trimestre deste ano, foram registrados 961 desligamentos por morte na educação, o que representa um crescimento de 106,7% em relação ao mesmo período do ano passado.

O levantamento tem como fonte o Cadastro Geral de Empregados e Desempregados (Novo Caged). Isso permite duas conclusões. A primeira, óbvia, é de que o aumento de óbitos de trabalhadores do ensino coincide com a flexibilização de medidas sanitárias e o retorno irresponsável às atividades escolares presenciais. E, considerando que os dados são do primeiro trimestre, mas que janeiro é período de férias e, em fevereiro, houve o carnaval, pode-se inferir que bastaram menos de dois meses de aulas presenciais para matar quase mil profissionais da educação.

A segunda conclusão é de que, como se trata de um levantamento baseado no Caged e que considera os desligamentos por morte no emprego celetista, esses números são de trabalhadores de instituições privadas de ensino, as mesmas que alegam que supostamente têm todas as condições de seguir protocolos sanitários e assegurar risco mínimo de contágio da Covid-19 para professores, auxiliares de administração escolar, estudantes, familiares, comunidade escolar, toda a cidade. Não têm.

É por isso que mantemos nossa defesa pela vacinação prioritária dos trabalhadores da educação, atrelada a condições sanitárias reais e ao cumprimento dos protocolos pedagógicos e de saúde que possibilitem um retorno seguro às aulas presenciais. Não há retorno seguro sem as duas coisas juntas. No entanto, infelizmente, isso se mostra inviável num momento em que a terceira onda se avizinha e será agravada pelo fato de que a própria fabricação de vacinas está comprometida pela ação criminosa do governo federal.

Este texto não reflete necessariamente a opinião de CartaCapital.

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Coordenador-geral da Confederação Nacional dos Trabalhadores em Estabelecimentos de Ensino — Contee

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