Camilo Aggio

Professor e pesquisador da Universidade Federal de Minas Gerais, PhD em Comunicação e Cultura Contemporâneas

Opinião

A subestimação continua a ser a maior aliada de Jair Bolsonaro

Essa turma só está à beira de um grand finale golpista graças ao negacionismo da opinião pública sobre as ameaças

Foto: EVARISTO SA/AFP
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Em quase todo o intervalo que separou janeiro e outubro de 2018 (talvez até antes disso), onze em cada dez analistas de política e comentaristas da imprensa diziam que as chances de Jair Bolsonaro se eleger presidente eram algo próximo de zero. A própria elite política, mais notadamente os grandes partidos e os principais candidatos, não fizeram diferente: Bolsonaro era o candidato ideal a ser abatido por qualquer um num eventual segundo turno.

Bem, sei bem do que falo. Para tantos desses especialistas, quem acertou na análise e na previsão, inclusive argumentando que o cenário era praticamente certo com Lula devidamente encarcerado por ousar disputar outra eleição presidencial, deu sorte. Ou seja, os que apostaram na vulnerabilidade de Bolsonaro acertaram. O problema é que deram azar.

Após a posse do presidente, em janeiro de 2019 (ou até antes disso, mais uma vez), as mesmíssimas figuras vaticinaram: Jair Bolsonaro, com sua desinteligência e sua retumbante incompetência, será um mero presidente decorativo. Ficaria brincando de guerra cultural enquanto seus superministros governariam. Superministros esses que, assim como as nossas virtuosas e republicanas Forças Armadas, conteriam os ímpetos autoritários do chefe palaciano. Dois expedientes retóricos, falaciosos e irresponsáveis, usados tão e somente para legitimar e naturalizar o presidente eleito, inclusive igualando-o a um político qualquer. Abundou nos grandes veículos de imprensa.

Eis a realidade nua e crua. Acertou quem foi na contramão e avisou que um sujeito com tal perfil político-ideológico (e psíquico) jamais entraria nessa para ficar brincando de figurante  enquanto outros governariam em seu nome. O tamanho de seu apetite pelo exercício autoritário do poder e pela destruição de quaisquer demarcações liberais e civilizatórias era, nitidamente, incompatível com previsões do tipo, assim como a estupidez que ensejou (e para alguns ainda enseja) a ideia estapafúrdia de que os militares brasileiros seriam e desejariam algo diferente do que Bolsonaro é e continua querendo ser. Mas, claro… Para todos os efeitos, quem acertou, mais uma vez, só deu sorte.

E cá estamos, em julho de 2022. Quase quatros anos estão nos separando de outubro de 2018, mas a mentalidade pouco ou nada mudou. Bolsonaro já foi o candidato praticamente derrotado antes de disputar. Já foi também o presidente que não governaria. Agora é o presidente que nem golpe deve tentar. E se tentar, não vai rolar. Os militares? Imagina. Nunca embarcariam num empreitada golpista capitaneada pelo capitão reformado do Exército brasileiro.

Assim chegamos até aqui e já não há muito espaço para denegações plausíveis sobre esse fato gritante: Jair Bolsonaro e seus militares converteram todas as subestimações de suas capacidades, propósitos e competências na arma política mais poderosa que já empunharam. Essa turma só chegou até aqui e está à beira de um grand finale golpista graças aos sucessivos negacionismos da opinião pública sobre todos os perigos e ameaças que sempre fizeram questão de não esconder.

Algumas poucas coisas mudaram. Como cheguei a sugerir e desejar aqui, uma parte do jornalismo investigativo tem tentado prestar o serviço que deve prestar neste momento: não se trata de discutir se vai ter golpe ou não, mas de descobrir quais são os planos. E eles existem. Elio Gaspari conversou com “pessoas que já viram muita coisa e elas não gostaram do que ouviram”.

Ouviram dois planos para o mesmo fim: adiar as eleições e prorrogar mandatos (a) por meio da geração de caos e violência política que permitiriam alegar instabilidade social e comprometimento do pleito e/ou (b) através de apagões elétricos em cidades-chave prejudicando a contagem dos votos.

Vera Magalhães, por seu turno, foi a Brasília ouvir figuras centrais dessa crise e voltou com as seguintes informações: os ministros de Bolsonaro estão fechadíssimos com o plano de golpe do chefe e os ministros do STF e do TSE, que deveriam ser nossos anteparos constitucionais, estão se sentindo isolados. Segundo Mônica Bergamo, para reforçar a apuração de Magalhães, o clima no STF é de decepção total com a ala das Forças Armadas pró-Bolsonaro (que não dever ser ala, mas a expressiva maioria que importa).

Na quinta-feira, enquanto escrevia esta coluna, Reinaldo Azevedo conclamava os defensores da democracia brasileira a irem às ruas, inclusive mencionando representantes de órgãos da imprensa e entidades empresariais, coisa que já fiz por aqui mais de uma vez.

Revista Veja, por sua vez, estampa foto dos olhos de Jair Bolsonaro em sua capa semanal com o título “Perigo à Vista”, em referência à decisão dos militares de auditar o resultado das eleições com ou sem o aval do TSE, enquanto o ministro da Defesa propõe votação paralela com cédula de papel – o tão sonhado voto impresso de Bolsonaro.

Mas há quem diga que não vai ter golpe ou que nem plano para tal deve realmente existir. Perdemos muito tempo e estou para lá de pessimista com os efeitos de reações tão tardias diante de uma realidade que tanto insistiu para ser percebida. A subestimação continua sendo a maior aliada de Jair Bolsonaro.

Este texto não representa, necessariamente, a opinião de CartaCapital.

Camilo Aggio

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