José Guilherme Pereira Leite

Escritor, crítico, ensaísta e professor universitário. É doutor em filosofia pela Universidade de São Paulo.

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A seleção sintética

A inflação das redes sociais tomou conta do planeta e não poupou os jogadores brasileiros, maníacos de sua própria imagem

A seleção sintética
A seleção sintética
Treino da Seleção Brasileira em 10 de junho de 2026. Foto: Mauro Pimentel/AFP
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“Fica quieto, baixa a bola e segue a vida”. Essa foi a frase “educativa” que, segundo Marcelinho Carioca, lhe foi dita pelo pai quando ele estreou no Flamengo, em abril de 1988. O menino parecia deslumbrado com o horizonte do sucesso e a velha “função paterna” arrancou-o do delírio, imediatamente. Na volta para casa, em um trem de subúrbio, o pai completou o solavanco: “Alguém nesse vagão te conhece?”. “Não”, respondeu Marcelinho. “Tá vendo? Tu ainda não fez nada, moleque. Vai treinar e estudar”, arrematou o responsável.

A fábula narrada pelo jogador, em depoimento recente, valioso, contrasta com a impostura vazia do plantel que estreia neste sábado 13 nesta Copa. As redes sociais e a máquina midiática do storytelling chuparam de vez o miolo-mole de uma geração farsante, e criaram, no escrete, um “cabeça-oquismo” que não tem precedentes. O fenômeno resulta de uma mistura cruel. De um lado, o aprisionamento profundo do futebol pelo dinheiro. De outro, a captura superficial dos garotos por um narcisismo doentio, que complica sempre mais a Generation Z. Z de zero, Z de EnZo.

Por cerca de meio século, a Seleção Brasileira de Futebol “fabricou” personagens lendários para história da cultura nacional e mundial. A importância dos “eleitos” era clara, nas ruas e nas telas do planeta, no imaginário das crianças e na fantasia dos adultos. Didi, Garrincha e Pelé, Nilton Santos, Amarildo, Tostão, Rivellino, Jair, Clodoaldo, Gilmar ou Félix, Nelinho e Dinamite, Zico, Falcão e Sócrates, Careca e Müller, Josimar, Romário e Bebeto, Dunga e Claudio Taffarel (“Sai que é sua!!!”), Cafú e Roberto Carlos, Djalminha, Ronaldo I e Rivaldo, Ronaldo II, Kaká… Entre os “mestres”, “professores”, Vicente Feola e Zagallo, Saldanha, Telê Santana, Felipão e cia.

Cada uma dessas especiais “figurinhas” mobilizou um aspecto singular na fascinante psicologia das massas, uma dimensão biográfica compartilhada, um senso profundo de identificação individual e, obviamente, coletiva. Homens sérios, gozadores, lutadores, machistas, simpáticos ou carrancudos, bad boys, feios, sujos ou malvados, penteados e limpinhos, mulherengos, arrogantes, baladeiros ou não, discretos ou não. O futebol e seus protagonistas eram muito diversos.

Ninguém poderia pensar, dada tal vitalidade, que a Seleção chegaria a essa rapa de tacho, composta, como hoje, de homens tão maiusculamente insignificantes. Começa uma Copa do Mundo marcada como nunca pela desconexão entre Seleção e “povo”, conforme tem sido apontado pelos comentaristas do esporte. Essa desconexão tem causa no futebol ruim e sem graça que o Brasil tem exibido, há algum tempo, e sobretudo na triste pasteurização do caráter dos jogadores. Jamais a Canarinho foi o nada que é hoje, jamais o jogador brasileiro esteve tão perto da água: insípido, incolor e inodoro. Mas a água é também transparente, o que não é o caso. E a água também pode ser profunda, intrigante, enigmática, o que não é o caso tampouco.

Os motivos dessa pasteurização estão articulados. O futebol foi excessivamente engolfado pela grana espúria. A camisa da seleção custa meio salário mínimo e foi sequestrada pelos almofadinhas de Free Shop. Os estádios viraram estúdios e depois shopping centers. As partidas de futebol viraram operações comerciais regidas pelo Código de Defesa do Consumidor. O Caderno de Regras é mais grosso a cada ano. O corrupto Blatter foi sucedido pelo canalha Infantino (que nome!), operador e best de Donald “Duck” Trump. O VAR – ilusão pueril de justiça mecânica – é o sinal mais pronunciado da estupidificação absoluta. O gramado sintético é a expressão metafórica de um esporte que se encontra em momento ruim, plastificado por todos os lados. A Fifa roubou o futebol das pessoas para ultraprocessá-lo e servi-lo de bandeja a uma classe média tonta, Z de zonza, Z de mercantilizada, dos pés à cabeça.

Pensava-se que a força da cultura futebolística brasileira poderia fazer frente a esse processo medíocre. Não foi o que aconteceu. A inflação das redes sociais tomou conta do planeta e não poupou os jogadores brasileiros, maníacos de sua própria imagem. A mania envolve Deus e devoção barata, esse proselitismo teológico insultante, a certeza barroca de se acharem ungidos pelo “Papai do Céu”, como se a fé fosse quantificável. O quadro geral inspira nos mais velhos um misto de saudade, desprezo e compaixão. O século XX acabou e algo de novo haverá de acontecer em breve, pois a história de toda a arte é marcada por períodos de esplendor e maneirismo.

É nesse sentido – e especialmente nele – que se pode entender os bastidores que levaram Ancelotti a convocar ou aceitar a convocação do manco Neymar: entre o mau-caratismo e a ausência de caráter, procura-se um ídolo desesperadamente, por mais amoral que ele seja. Procura-se alguém que seja algo, que tenha um nome do qual nos lembremos, que se possa reconhecer na rua –como ocorre em uma cena magistral do antigo documentário de Joaquim Pedro de Andrade sobre aquele outro manco, o manco das pernas tortas que jamais coxeou na cancha: Garrincha, alegria do povo.

O empenho da “mídia parceira” tem sido evidente no sentido de encontrar, no elenco de agora, o garoto que resolva o problema simbólico, que reate a ligação mais visceral entre TV e território, crucial para a unidade do País e o bom andamento dos negócios. Neymar ainda é a primeira opção, não apenas porque foi de fato um craque mas porque demonstrou, na carreira, uma rara capacidade de produzir ruído, irritar e gerar notícia, numa intuição espantosa de pop star, misturando egolatria e falta de educação com a exploração comercial de uma infância prolongada. “Menino Ney”, “Neymar Jr.” etc.

O produto Neymar, no entanto, esgotou-se, apesar dos esforços visíveis – risíveis? – do clown Luciano Huck, escalado pela Grande Emissora como animador milionário de uma festa que se abre com cheiro de xepa e gosto de cerveja quente. Não se esqueçam dos cartolas, essa obra também é deles. E nem todo o Guaraná da Amazônia, nem o melhor treinador do Universo podem dar sustança e peso a esse arranjo de bexigas.

Vini Jr. foi testado, nos últimos anos, e sua batalha contra o racismo mobiliza muitos jovens. Para o gosto da “mídia parceira”, no entanto, essa luta “divide” demais. O racismo é, ainda, o grande tabu do Brasil. Vini não serve. O ídolo que engrena deve sempre falar “por cima”, deve ser “universal” e “magnânimo”, além de possuir algumas características básicas. Uma história pessoal de superação é seu mais importante elemento, sem respingos de fúria ou ressentimento expresso. É preciso também que sorria muito e que dê às mães da periferia a sensação de estarem assistindo ao triunfo de seu próprio filho. Aos pais, deve dar a sensação de macheza e espírito guerreiro.

Essa combinação nunca foi fácil. Tudo aponta, no momento, para Endrick, uma espécie de última bala na agulha do espetáculo. Ele é efetivo, tem os olhos e a fofura das crianças ternas, mas metralha a torcida adversária quando marca seus belos gols. A aposta é, porém, arriscada. O primeiro de seus requisitos é torná-lo titular, pois um asset futebolístico – reserva de valor para os bancos patrocinadores – não pode estar sentado em um banco de reservas. Como disse entretanto agudamente o jornalista Arnaldo Ribeiro, é difícil promovê-lo ao time principal porque ele não é um jogador solidário. Eureka!

De um modo ou de outro, Endrick já foi engolido pelo dispositivo brazuca de moer talentos, aquele do qual Marcelinho foi “salvo”, na intervenção corretiva de seu pai terreno. Depois de anotar seu tento contra a horrível equipe do Egito, no amistoso da semana passada, o jovem correu a gabar-se, em curta entrevista de beira de campo, festejando o ter chegado “onde queria”. Onde mesmo?

A opinião de colunistas e articulistas não representa, necessariamente, a opinião de CartaCapital.

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