Fora da Faria
Uma coluna de negócios focada na economia real.
Fora da Faria
O dinheiro explica as dificuldades do futebol brasileiro
O caixa do dia a dia ainda não fecha sem venda de jogador
Divulgado em maio, o Relatório Convocados, produzido pela Convocados Gestão e Futebol em parceria com a Outfield e com o apoio da Galapagos Capital, mostra que o problema central do futebol brasileiro hoje não é falta de dinheiro, mas o modo como ele entra e, sobretudo, como sai dos clubes.
Em 2025, a Série A faturou 14,3 bilhões de reais em receitas totais, o maior valor da história, impulsionada por 3,9 bilhões de reais em transferências de atletas e pelas receitas da Copa do Mundo de Clubes. Mas, quando se tira a venda de jogadores da conta, a chamada receita recorrente foi de 9,5 bilhões de reais. Mesmo assim, o EBITDA recorrente da Série A ficou negativo em 0,5 bilhão de reais. Ou seja: o caixa do dia a dia ainda não fecha sem venda de jogador.
O relatório mostra que o modelo está montado para negociar atletas, não para sustentar times competitivos de forma contínua. Em 2025, as receitas recorrentes bateram recorde, mas o próprio estudo alerta que o ano teve receitas comerciais maiores, impulsionadas pelas bets, além de valores elevados e não recorrentes ligados à Copa do Mundo de Clubes. Ao mesmo tempo, os custos e as despesas aumentaram. Segundo o relatório, a Série A nunca gerou tanto caixa em termos gerais, mas também nunca teve resultado tão ruim em termos recorrentes.
Na prática, isso empurra os clubes para um modelo viciado: poucos têm receitas suficientes para brigar sempre pelas primeiras posições, faixa em que se concentram as maiores cotas de TV, prêmios e exposição comercial. Para o resto, o negócio é formar promessas, dar vitrine e vender rápido. Em 2025, a Série A registrou 3,9 bilhões de reais em receitas com transferências, com forte peso de clubes como Flamengo, Palmeiras, Botafogo, Fluminense, Corinthians e São Paulo. Esses recursos, em vez de servirem apenas para reduzir dívidas ou fortalecer elenco de forma planejada, muitas vezes sustentam a operação corrente e alimentam mais gastos. O resultado é conhecido: quando o time engrena, as principais peças são negociadas. Quando vende, perde elenco, e sem elenco não disputa as primeiras posições, recomeçando o processo com a próxima safra.
O Relatório Convocados também destrincha o perfil das receitas. Os direitos de transmissão seguem relevantes, com 3,1 bilhões de reais em 2025. O crescimento veio também das receitas comerciais, que chegaram a 3,1 bilhões de reais —fortemente impulsionadas pelas casas de aposta —, e do matchday (bilheteria e sócio-torcedor), que alcançou 1,7 bilhão de reais. Mesmo assim, o peso da venda de atletas é decisivo: em vários clubes, a diferença entre um EBITDA recorrente negativo e um resultado aceitável vem da linha de transferências.
Em muitos balanços, a operação do futebol, que inclui salários, encargos e custos de jogo, não se paga sozinha; o lucro aparece só quando o clube realiza ativo, isto é, vende parte de seu elenco. É mais ou menos fazer com que uma empresa de bens de consumo emplaque um produto e, em vez de mantê-lo em seu portfólio para construir ativo de marca e receitas, vende para outra empresa. A longevidade do negócio está em risco e seu foco desaparece.
Ao mesmo tempo, as despesas e o endividamento disparam. Os salários da Série A chegaram a 6,5 bilhões de reais em 2025, enquanto os investimentos em contratações de atletas somaram 4,4 bilhões de reais. A dívida dos clubes da elite fechou o ano em 17,3 bilhões de reais, com aumento especialmente forte nas dívidas operacionais, puxadas por valores a pagar a clubes por contratações de atletas. A alavancagem total, medida pela relação entre dívida total e receitas recorrentes, ficou em 1,88 vez. Ou seja: os clubes devem, em média, quase duas vezes o que arrecadam de forma recorrente em um ano. Em alguns casos, o relatório calcula que seriam necessários mais de dez anos para quitar o passivo, considerando o uso de 20% das receitas anuais para amortização das dívidas.
Nesse contexto, a “indústria do jogador” vira o coração financeiro do sistema. Em diversos clubes, a venda de atletas não é um plus, mas condição de sobrevivência: quando o mercado não responde, sobram atrasos, mais parcelamentos, juros altos e novas negociações.
O efeito sobre o jogo é direto. Sem projetos esportivos estáveis, o que se vê é uma lógica mais próxima da administração de shopping ou de marketplace. Os atletas são tratados como produtos em exposição, com as redes sociais funcionando como vitrines para impulsionar a visibilidade das joias da base e dos destaques do elenco. Lances virais ajudam a compor o dossiê do ativo que será monetizado na próxima janela. A pergunta central deixa de ser “como esse elenco pode competir melhor por três anos?” e passa a ser “quanto esse elenco consegue render em vendas na próxima temporada?”.
O Relatório Convocados conclui que sem um choque de gestão — com fair play financeiro efetivo, controle de custos, diversificação de receitas e uso racional das transferências —, o futebol brasileiro segue preso a um modelo que fragiliza tanto as finanças quanto o desempenho esportivo. Em números, o País já é uma indústria bilionária. Em estrutura, ainda se comporta como um grande marketplace de talentos, onde a bola entra, mas o caixa só fecha quando alguém vai embora.
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