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A pós-verdade e a miséria do jornalismo contemporâneo

Opinião,Sociedade

Nesses tempos de pós-verdade, recentemente, viralizou uma entrevista expressa com o ator norte-americano Denzel Washington. Nele, a repórter refere-se ao fato dele ter sido vítima de notícias falsas.

Em clima amistoso e irônico, o astro responde afirmativamente para, em seguida, questionar a jornalista: “O que disseram? Que eu iria concorrer à Presidência? Não foi isso que disseram?”

No que ela esclarece: “Disseram que você tinha mudado o voto de Hillary para Trump. O que tem a dizer sobre isso”?

Mantendo a postura inicial, Denzel responde em conveniente tom professoral, sintetizando a miséria do jornalismo contemporâneo:

“Se você não lê as notícias, fica desinformado. Se lê, fica mal informado!”. Assumindo provisoriamente postura de aprendiz, insiste a entrevistadora:

“Certo, o que fazer então?

“Essa é a questão. Qual o maior objetivo da informação? Um dos maiores objetivos [da imprensa] é ser o primeiro. Já não está em jogo ser verdadeiro. Então qual é a vossa responsabilidade? É dizer a verdade e não ser somente o primeiro. Vivemos numa sociedade em que o que importa é ser o primeiro. Que se lixem, não se importam quem magoam ou destroem (…). Em tudo aquilo que praticamos ficamos bons. Fazer merda incluído.”

Além de bonito, sabe das coisas esse Denzel Washington.

Na era da pós-verdade, escolhida pelo Dicionário Oxford como a palavra do ano de 2016, vemos uma tendência quase invencível do jornalismo para povoar, em grande medida, o espectro das crenças, bisbilhotices e boatos, numa tentativa lastimável de competir com as redes sociais, a incubadora da expressão que “bombou” no ano passado e que se mantém no topo na aurora de 2017.

Segundo o dicionário britânico, uma das principais referências para a catalogação de novas palavras e expressões, o termo pós-verdade teve seu uso inflacionado em 2000% neste último ano, embora circule com certa regularidade há pelo menos uma década.

Utilizada pela primeira vez pelo dramaturgo sérvio-americano Steve Tesich em 1992, a expressão diz respeito a circunstâncias nas quais fatos objetivos têm menos importância do que crenças pessoais, onde a verdade vale menos que a opinião.

Política, o habitat natural da pós-verdade 

Como testemunhamos, a política foi o habitat natural da pós-verdade, responsável, em grande medida, pelos tresloucados resultados das eleições e referendos mundo afora, demonstrando que a democracia também tem seu quinhão de insensatez.

Boatos tão absurdos quanto inverossímeis tonificaram a campanha da excrescência chamada Donald Trump. Alguns de nós, incrédulos, assistimos ao show de mentiras absurdas de Trump durante a corrida eleitoral.

O agora presidente da maior potência mundial afirmou que Hillary Clinton criou o Estado Islâmico, que Barack Obama era muçulmano e que ia mandá-lo de volta para África, que o desemprego nos EUA atingira a marca dos 42%. Nem o papa Francisco saiu incólume da verborragia de Donald Trump, que afirmou ter o apoio do sucessor de Pedro.

Assim se deu também com o Brexit. Propagou-se aos quatro ventos que a permanência na União Europeia custava ao Reino Unido US$ 470 milhões por semana e que abertura das portas para milhares de imigrantes e refugiados seria uma realidade incontornável.

Cabe nesse mesmo padrão a vitória do “não” no referendo colombiano sobre o acordo de paz com as Farc. O ex-presidente Álvaro Uribe tocou o terror e afirmou irresponsavelmente que, se o acordo de paz fosse aceito, o próximo presidente do país seria Timochenko, atual líder das Farc.

Para tornar a situação potencialmente mais calamitosa, proclamou que a economia do país se equipararia à da Venezuela.

Absolutamente inverídicas, o que conferiu eficácia a essas informações foi o apelo à emoção e às crenças pessoais. Sob esse ponto de vista, poderíamos resguardar a imprensa de críticas ocasionais visto que as sandices que circulam por aí são fruto do protagonismo de vozes trombeteiras que tiveram eco, independente do trabalho de jornalistas.

Ainda assim, não temos como deixar de colocar na fatura do jornalismo a responsabilidade por alimentar, em muitos casos, essas vozes sem a elas contrapor informação qualificada, trabalhado apurado de investigação, checagem de fontes, chancelando assim uma prática que de jornalística não tem nada.

A máxima do ator Denzel Washington assume, assim, um tom de advertência.

Corta para o Brasil. Aqui também a pós-verdade, os fatos alternativos, no abecedário da assessoria de Trump, teve primazia na cena política.

O prefeito de São Paulo, João Doria (PSDB-SP), quando candidato prometeu aumentar a velocidade nas marginais com a infundada alegação de que a medida não aumentaria o número de vítimas de acidentes, apesar de pesquisas e dados comprovarem que a redução da velocidade máxima preservou, sim, vidas no trânsito.

A pós-verdade mostrou que pode chegar a exorbitâncias inadmissíveis com a morte de Marisa Letícia, esposa do ex-presidente Lula. Lemos aqui e ali afirmações grotescas que diziam que a morte da ex-primeira dama era uma farsa e que sua fuga para o exterior já estava planejada.

Tudo muito providencial: Marisa Letícia escaparia do julgamento e da prisão deflagrados a partir da Operação Lava Jato. Outras vozes passaram a exigir que as Forças Armadas capitaneassem um processo para a realização de teste de DNA no corpo que estava sendo velado.

Chegou-se a dizer que a doação de órgãos de Marisa era pura peça de ficção, pois ela já teria atingido a idade limite de 70 anos (detalhe: não existe limite de idade para doação de órgãos, excetuando a córnea, e Marisa Letícia tinha 66). A esse respeito, comenta o jornalista Leonardo Sakamoto:

“Não importa a foto. Não importa que políticos ligados a Lula ou adversários políticos fizeram visitas no hospital antes de ser declarado o óbito. Não importa que o Sírio-Libanês seja uma instituição com uma reputação a zelar (chegando a demitir uma de suas médicas por vazar informações confidenciais sobre a entrada de Marisa no hospital) e não toparia essa encenação. Não importa a multidão que compareceu ao velório realizado em caixão aberto em São Bernardo do Campo”

Realmente nada disso importa. E vamos, de crença em crença, construindo o mundo da forma em que o projetamos. Não informar ou mal informar, o que a imprensa vem fazendo bem nas palavras de Denzel Washington, é um desvio que favorece a proliferação de “fatos alternativos” que se impõem como a chave explicativa para compreendermos e intervirmos no mundo.

Abrir mão dessas crenças é condição essencial para a consolidação de uma opinião pública qualificada, plural e, fundamentalmente, aberta ao outro. Enquanto isso não acontece, vivemos dia sim, outro também com a sombra do perigo iminente, num mundo que se liquefaz a procura de bússolas.

Na falta destas, acreditamos que somos a solução e os outros, invariavelmente, sintetizam tudo aquilo que nos fez e faz perdedores na lógica do capitalismo financeiro. Eis a grande bravata que nos instalou a todos em estado de emergência.

Fiquemos alerta, o mundo se despedaça!

Este texto não reflete necessariamente a opinião de CartaCapital.

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Jornalista, pós-doutorada em ciências da comunicação, professora colaboradora do grupo de pesquisa Estética e Vanguarda (ECA-USP), integrante do grupo de pesquisa Teorias e práticas feministas (Unicamp/Usp), conselheira de honra do grupo Reinventando a educação. Autora de diversos livros, entre eles: Espelho infiel: o negro no jornalismo brasileiro (2004), Mídia e racismo (2012) e Esboços de um tempo presente (2016).

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