A narrativa dos robôs implacáveis e a agenda antitrabalhador

O procurador do trabalho Renan Kalil comenta dois importantes estudos que contrariam as certezas de um apocalipse robótico sobre os empregos

A narrativa dos robôs implacáveis e a agenda antitrabalhador

Opinião

O espírito do tempo anuncia que a automação levará inevitavelmente à redução de empregos. O melhor retrato disso foi estampado na capa da edição de 23 de outubro de 2017 da revista The New Yorker. O cartum Tech Support, de R. Kikuo Johnson, traz robôs caminhando em uma rua movimentada, mexendo em seus celulares, segurando os seus cafés, carregando as suas pastas e levando os seus cachorros-robôs para passear. Ao fundo, um deles lança moedas no copo de um mendigo – o único ser humano na cena – que está sentado no chão junto ao seu cachorro de carne e osso.

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O grande problema de pautar o debate nesses termos é consolidar a ideia de que a tecnologia é determinista. Ou seja, há pouco o que fazer diante dessa força inexorável, não existindo margem para intervenção, muito menos por meio de políticas públicas.

Apesar de grande parte da opinião pública abraçar essa narrativa, há pesquisas nas ciências sociais e na economia que apontam caminhos diferentes. Recentemente, dois importantes estudos  trouxeram evidências relevantes contra esse espírito do tempo.

Um deles é o artigo The adjustment of labor markets to robots, com foco no mercado de trabalho alemão. Na década de 1990 houve um boom na introdução de robôs na indústria manufatureira da Alemanha. Os autores descobriram, contudo, que os trabalhadores que tiveram as suas tarefas repassadas aos robôs não foram demitidos, mas sim treinados e alocados em trabalhos mais complexos. O fenômeno foi mais acentuado nas regiões com maior número de trabalhadores sindicalizados.

Abrandar a narrativa dos robôs implacáveis é fundamental evitar o domínio de uma agenda antitrabalhador sobre esse debate

O principal desafio do futuro do trabalho não é a quantidade de empregos que serão perdidos com a automação. Mas sim se essas inovações, além de extinguir postos de trabalho, também reduzirão a criação de novos empregos, aumentando o contigente de pessoas permanentemente desempregadas.

No livro Automation and the future of work, o pesquisador Aaron Benanav aponta que esse fenômeno será mais intenso de economia estagnada, que reduz a demanda por trabalho, e de desindustrialização, com uma constante queda da oferta de postos de trabalho no setor.

Os países líderes em robotização, destaca Benavav, não são os campeões em desindustrialização. Alemanha, Coreia do Sul e Japão, por exemplo, possuem taxas de robotização mais altas que Estados Unidos e Reino Unido, mas também mais empregos no setor manufatureiro. Em um cenário de excesso de capacidade fabril e alta competição global, a robotização traz vantagens.

Desde a década de 1970, nenhum setor substituiu a indústria como o principal motor da economia. O dinamismo do setor industrial permite a realocação de trabalhadores de empregos de baixa produtividade para outros de alta produtividade, o que permite a melhoria de suas condições de trabalho e de vida. Já a desindustrialização gera postos de trabalho de baixa produtividade.

Uma das grandes contribuições dessas pesquisas é aplacar o frenesi da iminência de um apocalipse robótico distópico. Abrandar a narrativa dos robôs implacáveis que acabarão com os empregos é fundamental para evitar que esse debate seja dominado por uma agenda antitrabalhador.

Desde a década de 1970, nenhum setor substituiu a indústria como o principal motor da economia

Por exemplo, em 2019, um relatório do Banco Mundial apontou que a tecnologia põe em xeque a relevância do direito do trabalho, e recomendou reformas que reduzem proteções garantidas aos trabalhadores e transferem ao Estado responsabilidades que deveriam ser dos empregadores.

Trazer vozes que destoam das visões convencionais sobre o futuro do trabalho é importante para que o debate brasileiro coloque em evidência a diminuição da parcela do setor industrial na economia nacional, perceba a necessidade de envolver os trabalhadores na discussão e não incorra novamente na falácia do enfraquecimento do direito do trabalho como meio de gerar empregos.

Afinal, a redução da proteção dos trabalhadores não estimula a criação de postos de trabalho e não contribui para a redução do desemprego, como já alertado pela OIT e demonstrado pelos pífios efeitos da reforma trabalhista no Brasil.

Este texto não reflete necessariamente a opinião de CartaCapital.

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Doutor em Direito pela Universidade de São Paulo e Procurador do Trabalho

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