Rita von Hunty

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Drag queen intepretada pelo professor Guilherme Terreri

Opinião

Negar aos oprimidos o direito de odiar seus algozes é deslegitimar tentativas de resistência

É fundamental ter isso em mente para que possamos discutir, de forma honesta, a morte de Olavo de Carvalho, infame autodeclarado filósofo e charlatão

Rita Von Hunty (Foto: Reprodução/Redes sociais)
Rita Von Hunty (Foto: Reprodução/Redes sociais)
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“Quando a Thatcher morrer, nós vamos festejar.” Antes de a Dama de Ferro morrer, em 2013, esta frase era bradada por hordas de pessoas em estádios de futebol, e fora deles, no Reino Unido.

A gestão neoliberal da primeira-ministra inglesa foi marcada por austeridade, arrochos salariais, perda substancial na qualidade de vida das maiores parcelas da população, ofensivas contra sindicatos de trabalhadores, desemprego e retrocesso em pautas progressistas. Quando Thatcher morreu, o povo festejou.

Frantz Fanon, médico, psicanalista e intelectual francês da Martinica, então colônia francesa, é enfático ao nos ensinar, em Os Condenados da Terra, que não devemos cair na falsa simetria entre os horrores da violência impetrados pelo opressor e a reação dos oprimidos.

É fundamental ter isso em mente para que possamos discutir, de forma honesta, a morte de Olavo de Carvalho. O infame autodeclarado filósofo e charlatão, que ganhou a alcunha de “guru” de uma virulenta e odiosa “nova” direita no País, morreu na terça-feira 25.

Cabe, de saída, lembrar que o falecido foi responsável pela indicação de três pífios ex-ministros da gestão bolsonarista: Ernesto Araújo, Ricardo Vélez ­Rodríguez e Abraham Weintraub. Esteve, portanto, ligado à ineficiência desastrosa à qual o País tem sido submetido e que virou motivo até mesmo de chacota – por vezes, internacional.

Essa figura tornou-se também expoente do negacionismo científico que se instaurou no Brasil. Ele foi autor de declarações bizarras que minimizavam a gravidade da pandemia e insinuavam a inexistência do vírus que já ceifou a vida de mais de 600 mil pessoas por aqui. Coincidentemente ou não – a causa da morte não havia sido divulgada até o fechamento desta coluna –, Carvalho fora diagnosticado com Covid-19 dez dias antes da morte.

Desde a nota pública de óbito, uma série de reações movimentou os meios digitais. Interesso-me por uma que, a despeito do semblante de doçura e civilidade, realiza a operação cruel de negar aos oprimidos o direito legítimo de odiarem seus algozes. Ficar satisfeito com a morte de um perverso nos torna perversos? Não. E compactuar com tal lógica é deslegitimar a tentativa do oprimido de pôr fim à opressão na qual está inserido.

É possível vislumbrar uma cultura sem ódio, exclusivamente da paz, do amor e da fraternidade? Embora soe desejável, esse cenário seria um ideal mutilador. O ódio, como todos os afetos, é parte do humano. E é, além de tudo, um instrumento para mudança social em contextos de brutal exploração e desumanidade.

Para a psicanálise, todos os afetos e emoções têm uma razão de ser e um lugar para existir. Há dois textos fundamentais da teoria sobre o sentimento de ódio: A Pulsão e Seus Destinos, de Freud, e O Seminário Livro 8 – A Transferência, retorno de Lacan ao escrito freudiano. Freud sustenta, em última instância, que, perdida a nossa capacidade de odiar, perderíamos também a capacidade de amar. Do ponto de vista psicanalítico, o ódio é um componente fundamental do processo de separação entre o “eu” e o “outro”.

É fundamental ressaltar que não me refiro ao ódio gratuito, ou àquele que mobiliza um grupo para subjugar ou subalternizar outro. Refiro-me, sim, à resposta legítima aos monumentais desequilíbrios da sociedade de classes dada por aqueles que vivem em condições precárias.

O ódio pode ser uma ofensiva contra as mortes decorrentes da fome e da pobreza; contra a violência policial e dos aparelhos repressores dos estados; contra as condições ou locais de trabalho insalubres; contra a coerção econômica e ideológica. Até mesmo os lobbies e a corrupção nos poderes Legislativo, Executivo e Judiciário são exemplos da violência que, embora nada tenha a ver com a reação dos oprimidos, certamente a dispara.

Volto aqui à Thatcher e às revoltas em Londres contra a implementação dos poll-taxes, impostos que alteravam uma ordem social estabelecida desde o século XVII e que, na prática, levavam as pessoas pobres a, comparativamente, pagar mais impostos do que as ricas. O que o partido conservador de Thatcher organizou era uma violência. O que a classe trabalhadora fez foi responder com resistência e reação.

Impedir, constranger ou fazer um raso juízo moral do alívio e satisfação que sentimos, no Brasil, com a morte de um de nossos inimigos, é negar, a parte da nossa sociedade, o direito à reação – sendo ela ainda muito pequena diante do que deveríamos estar exigindo e organizando. Que os oprimidos se regozijem e que os opressores tremam. Celebraremos a morte de cada um deles. •

PUBLICADO NA EDIÇÃO Nº 1193 DE CARTACAPITAL, EM 2 DE FEVEREIRO DE 2022.

Este texto aparece na edição impressa de CartaCapital sob o título “A morte de um inimigo”

Este texto não representa, necessariamente, a opinião de CartaCapital.

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