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À liberdade, portanto!

Não podemos recriar um lindo mundo com as palavras? Espalhando significações, compreensões e amor?

À liberdade, portanto!
À liberdade, portanto!
Foto: José Cruz/Agência Brasil
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“Quando a dor de não estar vivendo for maior que o medo da mudança, a pessoa muda” – Sigmund Freud.

Como o médico vienense descobrira, os sonhos são nossa chave de cura, por isso é tão importante o esforço de os entendermos, para nos compreendermos.

Podem também ser premonitórios, como o médico suíço Carl Gustav Jung também percebera.

Entretanto, trabalhando exaustivamente, quem consegue atribuir valor à vida onírica?

Numa escala 6×1, isso fica muito difícil, se não impossível.

Por outro lado, o artigo 6o da Constituição Federal prevê o direito ao lazer como direito humano.

Porém, como garanti-lo com um único dia de folga, em que se tem de lavar roupa, ir ao mercado e atender a outros afazeres que garantam cumprir a rotina dos demais dias de trabalho?

Por evidente, resulta que a escala 6×1 é claramente inconstitucional. Isso deveria ser arguido junto ao Supremo Tribunal Federal, por meio de ação direta de inconstitucionalidade.

Somos seres tão sofisticados e munidos de ferramentas de auto-cura que muitas vezes somos visitados por lembranças do passado e desejos de corrigir os erros cometidos lá atrás.

Ora, muitas das vezes, essas certezas, enfim atingidas por nós, parecem inúteis, pois o passado não pode ser modificado, infelizmente.

Entretanto, o presente pode e deve ser objeto de reflexão, razão pela qual as recordações retornam, com força, para que não repitamos as sendas erroneamente trilhadas, por não termos tido a maturidade que os acertos exigentemente requerem.

Somos confrontados com obstáculos todo o tempo, mas convém notar que não é o rio que escolhe suas curvas: são as margens que o estreitam e obrigam desviar, contornar e seguir seu destino, rumo ao mar.

Essas associações polissêmicas (de múltiplos sentidos) estendem-se às próprias palavras e podem proporcionar-nos vínculos de sentido, sinônimos preciosos.

Por exemplo, no esforço de libertação, os grilões não são, muitas vezes, verdadeiros grilhões que devem ser rompidos para que a liberdade desperte?

Em inglês, notemos as semelhanças gráficas entre word (palavra), world (mundo) e worth (valor), todas as três com sons bastante similares.

Nosso valor não vem muitas vezes do reconhecimento que recebemos pelas palavras? Mas não transcendemos, ao mesmo tempo, essa condicionalidade, que pode se tornar um grilhão?

Não podemos, por outro lado, recriar um lindo mundo com as palavras? Espalhando significações, compreensões e amor?

Não somos todos dignos de valor, sejamos empobrecidos, imigrantes ou LGBTQIAPN+?

As mensagens que os jogadores negros estão nos passando nesta Copa não vão nesse sentido?

Não são palavras, valores e mundos que se encontram num lindo espetáculo de libertação, jogo e brincadeira?

Não foi à associação livre que Freud, pai da psicanálise, e Jung, da psicologia analítica, nos chamaram? À liberdade, portanto!

Em São Jorge – o santo do povo e o povo do santo (editora Planeta), Luiz Antonio Simas traz informação importante para aqueles que culpam os estrangeiros pelas mazelas internas:

“…Nero atribuiu aos cristãos a ocorrência do grande incêndio de Roma. Versões mais populares dizem que o próprio Nero teria mandado incendiá-la. Para alguns, o imperador destruiu parte de Roma indignado porque o senado vetara seu projeto de desapropriação de parte da cidade para a construção de um complexo palaciano…”

A semelhança com um imperador atual que destruiu parte da Casa Branca para erigir um milionário salão de baile não parece ser mera coincidência…

No belo livro de Luiz Antonio uma belíssima recordação: “O contrário da vida, afinal, não é a morte: é o desencanto. O contrário da morte não é a vida: é o encantamento”.

O autor também dá significado profundo à festa, que se encaixa perfeitamente nesta Copa do Mundo:

“É na festa que o corpo dribla a morte, como um Garrincha à sorrelfa para afirmar entre nós uma cultura da celebração; não porque a vida é boa, mas pela razão inversa. Neste sentido, a celebração de São Jorge, a procissão do padroeiro, o caruru dos erês, os doces de São Cosme e São Damião, as rodas de capoeira, os bailes, blocos, rodas de pernada, ranchos, cordões, escolas de samba são espaços de invenção no precário e subversão da morte cotidiana. A vida não é boa, e a festa, cravando as lanças do encanto no bucho do dragão da maldade, é a viração do mundo em artes de alegria”.

São Jorge, que enfrenta o dragão, faz-se íntimo de nós, que sabemos ser possível vencer o demônio, externo, assim como os aliados internos, os grilões que lhe permitem a entrada em nós, munido de grilhões que nos atarão à sua vontade de subjugar, dominar e matar, em última instância.

Mas o povo pode mais, em sua sabedoria, feita de luta diária, diuturna.

Nesse sentido, o autor traz essa linda, singela e poética conclusão daquela obra:

“Certa feita, um velho suburbano carioca, ao ser entrevistado por um canal de televisão durante a festa do santo, em Quintino Bocaiuva, descreveu a fé no guerreiro como se São Jorge fosse aquele vizinho de rua que ajuda todo mundo na hora do aperto. Na concisão dessa resposta mora, talvez, o maior milagre do santo do povo e do povo do santo: aquele que se manifesta, divinamente, como expressão de humanidade”.

Como exortou a presidenta do México, Claudia Sheinbaum, sejamos humanistas!

A opinião de colunistas e articulistas não representa, necessariamente, a opinião de CartaCapital.

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