Opinião

A Guerra na Ucrânia e o cinismo de quem viu demais

A experiência histórica recente nos mostra o fracasso das soluções políticas baseadas apenas na força e na dominação militar

Refugiados ucranianos na fronteira com a Polônia.

Foto: Angelos Tzortzinis / AFP
Refugiados ucranianos na fronteira com a Polônia. Foto: Angelos Tzortzinis / AFP
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O tom belicoso dos artigos não deixa dúvidas. A guerra da Ucrânia não é uma tragédia, mas uma oportunidade. Uma oportunidade de esclarecimento e de alinhamento: nós contra os outros.  Uma oportunidade de regressar ao mundo seguro de dois blocos inimigos. 

Incomoda-me o entusiasmo quase infantil com o qual os analistas ocidentais celebram nos jornais os “guerreiros da Guerra Fria” e a sua herança política.Esses esquecidos da globalização, que passaram anos a profetizar desgraças geoestratégicas, ameaças e desconfianças, estão agora de regresso triunfante. Peço desculpas por não acompanhá-los.

Incomoda-me o contentamento que por aí vejo com o fim da globalização. Que a visão cosmopolita  – um só mundo, um só planeta, uma agenda global – seja agora apresentada como uma perigosa ilusão. Agora sim, dizem, regressamos à lucidez estratégica que nunca devíamos ter abandonado.

O poder moderador e arbitral da Europa, para quem muita gente recorria em tempos de aflição, deixou de se ouvir. Incomoda-me a desvalorização do tradicional papel da Europa. O projeto de integração europeu construiu uma reputação global sustentada na defesa dos valores da paz, da cultura humanista e de uma ordem mundial subordinada ao direito internacional. Após muitos anos, esta parecia ser a Europa em que se podia confiar. De repente, esse capital político foi jogado fora.

Quando é que tudo isto começou? Sim, a crise econômica ajudou (mais exatamente, a austeridade como resposta à crise) mas na verdade a mudança já vinha de antes, num outro momento anterior – o da chegada da Alemanha à liderança europeia. A guerra do Iraque representou talvez a ultima batalha que uma certa ideia de Europa travou para tentar impedir uma guerra ilegal e sem “casus belli”. 

Agora, os articulistas enxergam – com a condescendência que sempre manifestam contra os “ingênuos políticos” – que o poder vem da força, não do Direito. Eis o que resta do cinismo muito próprio de quem viu demais e compreendeu muito pouco

O que a experiência histórica recente nos mostra, porém, é justamente o contrário: a instabilidade e o fracasso das soluções políticas baseadas apenas na força e na dominação militar.

 

Este texto não representa, necessariamente, a opinião de CartaCapital.

José Sócrates

José Sócrates
Ex-primeiro ministro de Portugal (2005 a 2011)

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