Opinião

A falácia do novo e a sua plateia cativa

A forma muda, trocam-se termos e estratégias, mas mantém-se os arcaísmos: o mais impiedoso é o fosso entre ricos e pobres

Medidas “populescas” propostas por Amoêdo na retórica moralista do ‘estou dando o exemplo’ acabam por desviar a atenção de privilégios estruturais
Medidas “populescas” propostas por Amoêdo na retórica moralista do ‘estou dando o exemplo’ acabam por desviar a atenção de privilégios estruturais

Gosto de refletir como algumas estruturas mentais se desenrolam ao longo do tempo, tal é o caso dos pares UDN (União Democrática Nacional), partido anti-getulista criado em 1945, e do Partido Novo, fundado em 2011 com registro deferido pelo TSE em 2015, na esteira do processo de contestação da vitória de Dilma Rousseff em uma eleição para lá de acirrada e polarizada.

Não quero com isso dizer que o jovem é simplesmente réplica do velho, mas que certos discursos e atitudes podem manter representações coletivas acerca da política em seu significado mais amplo: sobre os acordos que estabelecemos para vivermos juntos.

Politicamente conservadores, os udenistas eram a expressão de uma mentalidade que tinha o moralismo como sustentação de sua prática política expressa na frase: “de nada valem as formas de governo se é má a qualidade dos homens que nos governam”. Apregoavam assim uma postura individual de retidão.

Ideologicamente liberais do ponto de vista econômico, eram avessos ao populismo varguista e ao desenvolvimentismo de viés nacionalista, e defendiam os interesses dos proprietários de terra e de setores industriais voltados para o mercado externo.

Essas duas orientações ressoavam fortemente em fatias das classes médias urbanas na metade do século XX e voltam com tudo agora na figura de João Amoêdo, candidato a presidente pelo Partido Novo, que tem como slogan a máxima “Mais oportunidades. Menos privilégios”. Vamos às propostas.

Para combater os privilégios, Amoêdo elege o orçamento da Presidência da República como um de seus alvos, dizendo que ela gasta mais do que a Coroa Britânica, o que de fato está correto, já que em 2017 a família real gastou 56,8 milhões de libras esterlinas, o equivalente a aproximadamente 300 milhões reais, enquanto o orçamento da presidência brasileira foi de 1,13 bilhão no mesmo ano, segundo o Portal da Transparência.

Olhando mais detidamente para o Brasil, temos logo de saída uma diferença na natureza do exercício político, já que o presidente acumula as funções de chefe de governo e de chefe de Estado – aquele que representa publicamente o poder soberano do povo de uma determinada nação.

Esse é o caso da rainha Elizabeth II, que por força da hereditariedade, exerce um papel diplomático e simbólico, sem que tenha obrigações político-partidárias. E veja que o papel simbólico garante a sua existência na “pegada” vida e casamentos midiaticamente espetacularizados, igual a investimentos no turismo do circuito real.

Mas não precisamos necessariamente concordar com essa gastança! E uma das boas coisas que as leis de Transparência/2009 e de Acesso à Informação/2012 nos dá é poder esmiuçar esses gastos. E ainda que alguns possam por vivência dizer que são passíveis serem fraudados, fato é que o conjunto de informações sobre receitas, despesas e fornecedores divulgados na internet pelo poder público é um forte aliado no controle, fiscalização e questionamento por parte das cidadãs e cidadãos.

E a solução encontrada por Amoêdo para reduzir esse gasto é deixar de morar no Palácio da Alvorada e abrir mão do cartão corporativo – vale a pena lembrar, como já dizia Max Weber, que viver para a política sem demandar remuneração financeira pelo trabalho exercido, poderia nos levar a uma plutocracia, ou um governo dos mais ricos.

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Essas medidas “populescas” propostas por Amoêdo na retórica moralista do ‘estou dando o exemplo’ acabam por desviar a atenção de privilégios estruturais que o candidato vê como oportunidades (de negócio???).

Para o partido, os dois grandes problemas do Brasil seriam a alta carga tributária e ineficiência do Estado. Sobre o primeiro infortúnio, dizem publicamente que mais vale a simplificação dos impostos do que necessariamente a sua redução. A pauta também não é reestruturar a taxação em bases menos regressivas, de modo que incida menos no consumo e mais no patrimônio e na renda. Amoêdo se diz reticente a essa medida, que poderia ter o sentido inverso, acabando por expulsar os geradores de riqueza do nosso país.

Simplificam o problema na frase “nós sabemos – melhor do que ninguém – o que fazer com as nossas vidas e com o nosso dinheiro”, e como é sabido que pagamos muito imposto, isso soa como música aos ouvidos das classes médias, como outrora fizeram os udenistas.

O outro privilégio/oportunidade que surge no programa de governo do Novo vem do fato de serem contrários a “um Estado que dá auxílios para quem menos precisa, benefícios para quem menos merece e tributa quem mais trabalha”.

Para Amoêdo e sua trupe, o problema não está na desigualdade, mas na pobreza, que deve ser combatida não com a distribuição, mas com a geração de renda, valorizando o sucesso e não o vitimismo, a despeito dos estudos que mostram o Brasil como um dos 5 países mais desiguais do mundo segundo dados da Organização das Nações Unidas (ONU), com baixo índice de desenvolvimento humano e com uma violência avassaladora.

Oh, e agora, quem poderá nos defender? Não será o Chapolin Colorado, não serão políticas públicas redistributivas e focalizadas, pois “não precisamos do Estado para ajudar o próximo. Só depende de nós mesmos fazer algo de importante por aqueles que mais necessitam”. Para tanto, temos que empreender!!

A forma muda, trocam-se termos e estratégias com toques do que há de mais moderno na gestão empresarial, mas mantém-se arcaísmos, e o mais impiedoso é o fosso entre ricos e pobres. A velha política ronda o Novo e, solidariedade coletiva que nada, se sou pobre é porque não me esforcei o suficiente como empreendedor de mim mesmo.

Tathiana Chicarino

Tathiana Chicarino
Doutoranda em Ciências Sociais pela PUC-SP; professora da Fesp-SP; Pesquisadora do Núcleo de Estudo em Arte, Mídia e Política da PUC-SP e do Grupo de Pesquisa "Comunicação e Sociedade do Espetáculo" da Cásper Líbero; e editora da Revista Aurora.

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