Aldo Fornazieri

Doutor em Ciência Política pela USP. Foi Diretor Acadêmico da Fundação Escola de Sociologia e Política de São Paulo (FESPSP), onde é professor. Autor de 'Liderança e Poder'

Opinião

A esquerda é branca e masculina

Nunca existiu um governo operário ou algo do gênero, e sim gestões de partidos que reservaram um papel passivo aos movimentos sociais e populares

Marcha das Mulheres Negras, na orla de Copacabana, zona sul do Rio de Janeiro, em 2019. Foto: Fernando Frazão/Agência Brasil
Marcha das Mulheres Negras, na orla de Copacabana, zona sul do Rio de Janeiro, em 2019. Foto: Fernando Frazão/Agência Brasil
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Esta coluna foi inspirada em conversas com o líder indígena ­Márcio Wera Mirim, do ­Jaraguá, e com os ativistas Tadeu ­Kaçula ­(Uniafro) e Danilo Pássaro (­Periferia Sem Fronteiras) na Fundação Escola de Sociologia e Política de São ­Paulo. Mas acabou reforçada pelo excelente artigo de Antônio Isuperio na Folha de S.Paulo. Tanto o Isuperio quanto os jovens ativistas são unânimes: a esquerda partidária brasileira é branca e masculina. Não é novidade. Mas o pior é não haver indícios de mudança.

A política de cotas nos partidos é quase só formal. Houve uma melhora aqui e acolá, mas não mudou efetivamente a rea­lidade interna do poder e da representação político-partidária. A essência da relação que os partidos têm para com os movimentos sociais periféricos é de instrumentalização e de manipulação para fins retóricos e eleitorais.

Do alerta que Mano Brown emitiu em 2018 para cá, quando fez duras críticas ao PT, pouco mudou. O problema não é só dos petistas. O problema também ocorre no PCdoB e no PSOL, embora neste haja maior, mas insuficiente, esforço de integração dos movimentos periféricos às instâncias de poder. O problema não é só de comunicação. A forma e os conteúdos revelam problemas de afetos. Com algumas exceções, a indignação das lideranças de esquerda é racional, e não emotiva. Não vem da alma. Há um claro distanciamento entre o líder branco masculino com a vida comunitária das pessoas que vivem nas periferias e/ou fazem parte de algum movimento social – negros, mulheres, indígenas, LGBTQIA+ etc.

O discurso da esquerda branca e masculina não se conecta afetivamente com os sentimentos, as dores, os sofrimentos das vivências singulares dos periféricos. Os partidos pouco ou nada fazem em relação aos assassinatos de jovens negros das periferias. Nem sequer há indignação. O mesmo ocorre com a destruição ambiental. Pouco se fala dessas pautas.

Mais que isso: a esquerda branca e masculina está ausente das periferias. Não há sequer uma presença territorial. As lideranças periféricas é que vão até os partidos, como se fossem apenas suportadas naqueles ambientes. O tipo de relação que os partidos de esquerda mantêm com as periferias e com os movimentos periféricos, particularmente os negros, revela também uma estratégia: esses partidos não confiam no povo. Os líderes e os partidos julgam que eles vão resolver os problemas do Brasil, dos negros, das mulheres, dos jovens, pela via da atuação institucional.

Sabemos todos que os partidos são necessários. Mas, se olharmos a história, veremos que, quando as legendas de esquerda chegaram ao poder, o usurparam em nome dos representados. Nunca existiu em lugar nenhum um governo operário ou algo do gênero. O que existiu foram governos de partidos que reservaram papel passivo aos movimentos sociais e populares.

Veja-se o caso dos governos petistas. Nunca houve uma aposta na organização popular. Ocorreram débeis tentativas de integração institucional de movimentos sociais em Conselhos Consultivos. A opção da não organização popular cobrou um alto custo no impeachment. O povo não saiu às ruas para defender Dilma Rousseff. O povo só é leal aos líderes que cumprem os pactos firmados na campanha, atendendo às suas necessidades. Os partidos só mobilizam militantes e ativistas, não o povo.

Os partidos de esquerda não estão aptos a mudar o Brasil, apenas a melhorá-lo. O País não mudará, não haverá uma nova ordem sem que sejam removidas as instituições da iniquidade que mantêm a pobreza, as desigualdades, a exclusão, o racismo e o machismo. Não haverá nova ordem se as periferias não conquistarem uma vida boa e o bem-estar.

Isto significa conquistar direitos no sentido amplo da palavra. Não é só poder comer um bife com ovo. Isto, certamente, é importante para quem passa fome e mora na rua. Mas o só comer um bife com ovo hoje pode implicar não poder comer amanhã, porque os governos conservadores tiram essa comida com uma canetada. Políticas sociais compensatórias são necessárias, mas reformas estruturais são ainda mais necessárias.

Para os movimentos periféricos, o que resta é a sua auto-organização. Somente ela e a força organizada serão capazes de garantir a autonomia de suas lutas e a potência para conquistar direitos. Hoje, há uma efervescência organizativa nas periferias. Mas será preciso ir além da organização de grupos e lutas específicos. Será necessário construir uma unidade ampla em torno de um programa comum, de natureza política, dos movimentos sociais. A este papel os partidos de esquerda renunciaram. •

PUBLICADO NA EDIÇÃO Nº 1204 DE CARTACAPITAL, EM 20 DE ABRIL DE 2022.

Este texto aparece na edição impressa de CartaCapital sob o título “A esquerda é branca e masculina”

 

Este texto não representa, necessariamente, a opinião de CartaCapital.

Aldo Fornazieri

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