Rita von Hunty

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Drag queen intepretada pelo professor Guilherme Terreri

Opinião

A era da razão cínica

Enquanto Simone Tebet prega uma prática que não executa, Tabata Amaral executa uma prática que não prega

Foto: Reprodução/Redes Sociais
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Em Introdução à Sociologia, Theodor Adorno, um dos principais filósofos do século XX, pontua: “Hoje, a sociedade, injustamente censurada por sua complexidade, transformou-se em algo demasiadamente transparente”.

Podemos entender a frase como uma tentativa de insistir que, em sociedades “pós-ideológicas”, não haveria mais um apelo por narrativas complexas que pudessem explicar o funcionamento truncado de nossos tempos. Em seu lugar, surgiria um apelo por uma “transparência” que, aos poucos, se torna o que há de mais opaco em nossa realidade.

Existe algo de profundamente cínico quando pensamos na substituição da complexidade dos debates sociais e políticos por uma aparente transparência que não pretende revelar nada, e sim transformar conteúdos nefastos em conteúdos ideologicamente desconhecidos.

No Brasil, um dos principais nomes da filosofia contemporânea, Vladimir ­Safatle, aponta em Cinismo e Falência da Crítica que “o cínico seria aquele que distorceria procedimentos de justificação ao tentar conformá-los a interesses que não podem ser revelados (…) lei e transgressão são enunciadas, ao mesmo tempo, como imperativos”.

De forma sucinta e brilhante, Safatle nos coloca frente a frente com um tempo histórico no qual “o poder aprendeu a rir de si mesmo” e a crítica, ao apontar a contradição entre a intenção do que é dito e a concretização do que se pretende com aquilo que é dito, não surte mais efeito.

Buscarei apontar três momentos recentes de acontecimentos da política no Brasil que revelam nosso soterramento em uma era de razão cínica.

Cronologicamente, o primeiro deles ocorre quando Simone Tebet (MDB), senadora pelo Mato Grosso do Sul e pré-candidata à Presidência da República, discursa dizendo que “mulher vota em mulher” após ter votado a favor do ­impeachment de Dilma Rousseff, sob a pretensa alegação de crimes de responsabilidade fiscal hoje sabidamente inexistentes.

No ano seguinte ao impeachment, ­Tebet foi também favorável à manutenção do mandato de Aécio Neves como senador. Neste momento, especula-se, inclusive, que, com a saída de João Doria da corrida eleitoral, Aécio poderia figurar como vice em uma chapa Tebet-Neves. Este exemplo explicita que a “sororidade” latente no discurso da senadora não encontra eco em episódios recentes.

O segundo momento que descreverei gerou alguma repercussão e é revelador do cinismo do nosso tempo. Atual deputada federal por São Paulo, Tabata Amaral (PSB) publicou, no dia 2 de junho, em suas redes sociais, um vídeo no qual dizia ter “votado errado” no PL 4188, projeto que autoriza instituições financeiras a promover a penhora de imóveis de famílias inadimplentes ainda que estes sejam a única moradia dessas famílias.

O voto “errado” está em completo alinhamento com seu histórico de atuação e votação no Congresso. Tabata foi favorável a outras pautas neoliberais, como a reforma da Previdência, a privatização dos Correios e a PEC da reforma administrativa e do arrocho fiscal. É difícil entender como “erro” algo que condiz com uma linha de atuação. Enquanto Tebet prega uma prática que não executa, Amaral executa uma prática que não prega.

O terceiro e mais absurdo dos exemplos foi dado à população brasileira pelas Forças Armadas. Em nota oficial, o Ministério da Defesa, junto do Exército brasileiro e do Comando Militar da Amazônia, afirmou que as buscas pelo indigenista Bruno Araújo e pelo jornalista inglês Dom Phillips, dependiam de ordem e acionamento superiores.

A declaração, que enfureceu diversos segmentos sociais, se soma a outras estapafúrdias sobre verbas faraônicas para a compra de Botox, Viagra e próteses penianas. Neste caso, o agente público diz que pode agir e que age mediante sua avaliação e interesses, que servem apenas a si próprios.

É desanimador constatar que, como diz Safatle, em meio a este cenário de naturalização de uma razão cínica, a crítica, como a conhecíamos, pareça perder seu lugar. Apontar as contradições e os absurdos e desmontar falácias argumentativas e simulacros éticos resultam em muito pouco neste momento em que os podres poderes se pensam irrefreáveis e passam por cima de nós.

Que aqueles dobrados e massacrados pelo poder não se rendam e que possamos pautar debate e organizar a ação no sentido contrário daquele da máquina de moer gente. •

PUBLICADO NA EDIÇÃO Nº 1213 DE CARTACAPITAL, EM 22 DE JUNHO DE 2022.

Este texto aparece na edição impressa de CartaCapital sob o título “A era da razão cínica”

Este texto não representa, necessariamente, a opinião de CartaCapital.

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