A conversa com Lilia Schwarcz não se encerra sem mútua escuta

Reflexões sobre a interlocução entre as diferenças que nos marcam

Lilia Schwarcz, no IEA-USP. Foto: IEA-USP

Lilia Schwarcz, no IEA-USP. Foto: IEA-USP

Opinião

Um texto que se tornou bastante espinhoso foi publicado na Folha de S. Paulo sobre o trabalho inédito da artista pop Beyoncé com a assinatura de uma das pesquisadoras universitárias mais reconhecidas dos descaminhos do racismo e da história afro-diaspórica no Brasil: Lilia Moritz Schwarcz. Espinhoso porque, para muitos, ela tropeçou nas palavras, acabando por se por em posição de dizer como a negritude possa ou não se auto representar, neste momento histórico de luta intensa por reconhecimento e de demanda de democracia. Assim, ela questionou, de forma pouco sensível, imperceptível para si própria, as estratégias legítimas de autoafirmação negras contemporâneas.

A questão é importante para a inconsciência da branquitude sobre o que está em jogo em suas construções algo normalizadas, tidas por neutras e universalmente válidas. Dito isso, é preciso fazer jus à autora, cuja obra é referência significativa no entendimento do racismo à brasileira e cuja ação política constante é explicitamente antirracista. Além disso, o problema crítico que ela levanta, o do uso paradoxal de formas comuns de identificação com o poder, a expressão do luxo e do brilho de uma cultura industrial e global satisfeita, visando criticar o próprio poder, é também uma questão importante, enunciada desde categorias de uma outra tradição de pensamento democrático. Como problema crítico real frente aos descaminhos do poder não há racismo nestas ideias. Ao final do quiprocó a própria autora tem se mostrado aberta ao diálogo, reconhecendo publicamente os seus erros, sem recusar a autocrítica a partir de sua própria posição reconhecida de poder.

Se Beyoncé, que é plenx sujeitx das próprias decisões, merece uma defesa de sua obra, Schwarcz também merece ser escutada, em busca de uma circulação das vozes em que cabe pensar e repensar, cabe a retratação e a reparação e cabe, fundamentalmente, o mútuo reconhecimento, o que importa rumo a uma verdadeira democracia social da qual estamos ainda muito distantes. Assim cada um de nós pensou este conflito, em linhas gerais, do seguinte modo, e reconhecemos a verdade da construção diferente de problemas, em aproximação virtual uns dos outros, no seguinte diálogo a três:

Marina Costin Fuser

Lilia Moritz Schwarcz é uma estudiosa das nossas raízes africanas há décadas, contribuindo com uma leitura da história e das nossas bases culturais em chave pós-colonial, decolonial e anti-racista. Creio que neste artigo, ela usa palavras que extrapolam seu lugar de fala, atravessando uma linha tênue, porém espinhosa, que é a autodeterminação de uma negritude. Com efeito, ela não tem autoridade para dizer com que estratégias estéticas e políticas a população afro-diaspórica vai se auto-emancipar. Mas é difícil se dedicar com tanto afinco, paixão e intensidade à causa como ela se dedica, sem poder criticar perspectivas das quais ela discorda, como a ostentação como tática de empoderamento. Como pesquisadora do cinema pós-colonial, escolhi “falar por perto”, mas não tomar para mim a tarefa de abordar diretamente as temáticas afro-diaspóricas, posto que meu lugar de fala estará sempre suscetível a me trair (provocando deslizes) e me denunciar (quanto aos meus privilégios). Escolhi ser uma leitora, uma apoiadora, mas me ater a “falar por perto” (faço questão de repetir a expressão, pois é uma postura política, ética e estética que aprendi com Trinh T. Minh-ha). Dito isso, seria uma lástima que a cultura do cancelamento mirasse logo na Lilia Schwarcz, alguém que tanto contribuiu para a causa. Quanto às críticas que seu artigo suscitou, ela respondeu com humildade:

“Respeito muito o trabalho de Beyoncé. Peço que leiam o texto todo que é muito mais elogioso que crítico. Todo texto pode ter muitas leituras. Me desculpo, porém, diante daqueles que ofendi. Não foi minha intenção. Respeito muito o diálogo e aprendo com ele”.

Tales Ab’Sáber

Muito importante a sua reflexão e contribuição. Aprendi com ela. Obrigado. Vejo também de outro modo. Não existe uma posição de experiência e fala que cancele o direito do outro falar. Em nenhuma direção. É deste lugar que todos deveríamos falar e ouvir. A posição do barramento do argumento de alguém, que não seja um fascista, não pode ser aceita. Lugar de fala não deve ser lugar de cala, mas de reconhecimento de posições e situações, e todos os lugares implicam e necessitam um lugar de escuta. Um pensamento que expõe suas razões, sua tradição e seus elementos antirracistas muito claramente e racionalmente, de modo reconhecível por todos, não pode ser considerado racista e cancelado porque não corresponde ao entendimento que alguém ou um grupo de entendimento assim o nomeia. A crítica aí precisa ser trabalhada, bem como você fez em seu texto, para não se resolver apenas como a exclusão de alguém. Há uma ordem do pensamento, no caso, que precisa ser reconhecida como crítica e, ao menos, portadora de um momento de verdade, mesmo que dissonante, em um embate a favor – como dizia sobre isso Deleuze -. São problemas compossíveis, como ele dizia, e a busca da virtualidade democrática implica em falas que não se absolutizem. E não calem, em nenhuma direção, mas mantenham o pensamento livre, em busca de uma vida livre. Também li isso sobre os múltiplos e diferentes processos de gênero na Judith Butler, que diz algo assim. Há uma razão do encontro, desejado ou não, nas razões em trabalho e há um valor na negatividade, do outro pensar algo que não gostamos, que não significa a anulação da existência do outro. Quando Lília recebe as críticas como potencialmente efetivas, verdadeiras, ela fala do reconhecimento dessa negatividade do outro como produtiva para ela. A democracia se apresenta na forma da relação com o não idêntico. Essa dinâmica tensionada do pensamento que se produz entre, circula, e possivelmente evolui, que não é imediato, me parece importante. O preço de recusá-la é nunca terminarmos de calar alguém. Uma situação paradoxal: conheço pensadores críticos negros de extração marxista que pensam exatamente como a Lília. Um deles é o próprio Douglas Rodrigues Barros, escritor negro antirracista que escreveu isso sobre o caso:

“Quando se torna mais importante quem está falando do que o que está sendo falado é porque já não há mais possibilidade de reflexão para além da superficialidade e do narcisismo espetacular. Os caminhos para a verdadeira política estão, com isso, intransitáveis.

Ass: O cancelado“

Neste caso, estes produtores negros antirracistas e críticos dos poderes fetichizantes do poder capitalista do espetáculo, que dizem algo na mesma direção que a historiadora branca cancelada, são também porta-vozes naturalizantes da racialização do poder? Essa perspectiva entende que a razão crítica do que foi dito talvez não esteja racializada na raiz. Pressupõe um mundo em que alguma produção de verdade escapa, e precisa escapar, à racialização. Esse mundo é possível? É desejável? Como também a mesma questão pode aparecer, do mesmo modo, como uma razão de fato, em outras pessoas, e não só na historiadora antirracista brasileira. Como ocorreu com muitos negros, artistas e intelectuais americanos, que não gostaram da proposição de Beyoncé para reinventar a sua África. Por exemplo, a rapper de Chicago NoName, que eu, pessoalmente, gosto demais. Isso porque há um tipo de razão crítica de entidades de poder que não é idêntica à identidade. Assim NoName escreveu, sobre o mesmo trabalho de Beyoncé:

“Adoramos uma estética negra envolta em capitalismo. Espero que lembremos dos negros do continente cuja vida diária é impactada pelo imperialismo dos EUA. Se pudermos elevar as imagens, espero que possamos elevar aqueles que nunca serão capazes de acessá-las.”

Douglas Rodrigues Barros

A galera no geral foi convencida de que a ordem do imaginário pode ou deve ser depositada nas mãos da indústria cultural. A noção é novamente uma ideia de representatividade que dê visibilidade aos corpos no interior da estrutura de dominação capitalista. Há vários e enormes problemas com essa noção que, ou é ingênua – em alguns casos de fato é – ou é pura má-fé. Dando uma olhada em Fanon a gente fica convencido de que o olhar que o negro exerce sobre si – numa estrutura social racializada– é de saída marcado pelo significante da branquidão. Temos que ver, que o negro da diáspora, é o negro no mundo do branco. Uma invenção identitária europeia que foi feita para exclusão e controle. Esse fato permite a gente pensar nos processos de violência e na formação psicopatológica enfrentada pelo negro sob a égide da racialização. Essa talvez seja a maior contribuição que Neuza Santos Souza nos legou, aqui no Brasil: refletir como a estrutura psíquica do negro não passa pelas mesmas formas identificatórias de alguém não marcado pela racialização. Isso, contudo, não implica que a ordem exploratória da propaganda e do marketing, que até ontem usava o corpo da mulher como um pedaço de carne, seja o lugar ideal ou mesmo importante para a tal da representatividade. A gente sabe; representatividade é a anulação de minha autonomia. Pode dizer que não, espernear, mas os representativos na ordem atual são gestores ilibados para perpetuar a mesma ordem. Se a própria identidade do indivíduo racializado é prejudicada pela incapacidade de identificação na ordem corrente, o salto dado rumo à posição de publicidade é mais uma espécie de tarzanismo exposto pela indústria cultural. Uma mistificação que com o dinheiro das estrelas milionárias torna-se uma exotização que nada tem a ver com os países encravados no continente africano. A África é nesse discurso um bloco homogêneo, sem história, sem especificidades. Uma terra-santa, de reis e de rainhas – mas não se fala de seus súditos, né!? – perdida num sonho romântico que faz parte justamente do mesmo discurso que a Europa impunha sobre África. Isso é profundamente racista! Eu nem vou falar da questão do mal-entendido da antropóloga, forçado no título do artigo que ela não deu. Sabemos que é maldade do editor que tem mão afiada para despertar polêmicas e conquistar views!

Marina Costin Fuser é doutora em estudos de gênero e cinema por Sussex/Berkeley

Tales Ab´Sáber é psicanalista e escritor, professor de Filosofia da Psicanálise da Unifesp

Douglas Rodrigues Barros é escritor, militante do Movimento Negro e autor do livro “Lugar de negro, lugar de branco?”

Este texto não reflete necessariamente a opinião de CartaCapital.

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