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Lula é petista. Sorte do PT, azar do PT
Hoje, com Lula, o partido não tem autonomia de voo; amanhã, sem ele, pode não sobreviver
O Partido dos Trabalhadores é sortudo. Desde a sua fundação, em 10 de fevereiro de 1980, tem em seus quadros aquele que se revelaria como grande líder popular, um ótimo presidente e o governante brasileiro mais respeitado no exterior. Luiz Inácio Lula da Silva, o presidente da República que foi metalúrgico, e o PT são indissociáveis.
Essa sorte, todavia, tem seu preço.
Pelo partido, Lula venceu três mandatos presidenciais e vai disputar um quarto. No intervalo entre eles, foi de Lula, não do PT, a escolha de Dilma Rousseff para concorrer à Presidência. Condenado injustamente por um juiz de primeira instância do Paraná e preso, foi Lula quem escolheu Fernando Haddad para ir às urnas em seu lugar.
Nas eleições disputadas por Lula, o partido marchou sob o seu comando. Foi sempre dele a última palavra. Quando venceram (Lula e o PT), as exigências de governabilidade submeteram o partido, que antes tendia à radicalidade, às alianças necessárias para que o presidente petista conseguisse gerir o País, mesmo ao preço de perderem, ambos, o canal direto com as suas bases. As lideranças partidárias que fizeram a transição do PT, de partido de massas para o partido de quadros, a bem da governabilidade – velhos quadros marxistas, adeptos do “centralismo democrático” –, passaram um trator sobre o intrincado sistema interno de formulação de consensos, responsável pelo que se entendia como democracia interna.
A dinâmica do PT antes da chegada ao poder era a disputa interna, ideológica; a divergência, resolvida no voto do colegiado. A tese política de uma tendência, se vitoriosa, passava a ser a posição do partido.
Esse mecanismo de decisão ainda existe, assim como as tendências. As decisões, todavia, foram se adaptando às necessidades de governos petistas sem maiorias parlamentares e sob constante fogo cruzado do mercado financeiro, de uma Justiça avessa à esquerda e de uma sociedade que destila preconceito contra “radicais de esquerda”, como se estes tivessem sobrevivido à ditadura.
Enquanto foi instância de decisão efetiva, esse instrumento manteve o partido em contato constante com suas bases. Trabalhadores urbanos e os sem-terra, o funcionalismo público sobrevivente de governos que fizeram ajustes fiscais dolorosos e aposentados, as vítimas da receita neoliberal dos governos tucanos, todos eles na origem do partido teoricamente de trabalhadores, viam a legenda como a mediadora natural de suas reivindicações. Era para a sede do PT nacional, na rua Silveira Martins, perto da Catedral da Sé, na cidade de São Paulo, que acorriam para defender seus interesses – e necessidades – junto à gestão petista. Foi justo nesse momento que os mecanismos internos de formulação de consensos começaram a falhar.
Se as regras de democracia partidária fossem efetivamente mantidas, a disputa interna poderia ter causado eventuais problemas para os governos petistas, mas teria funcionado como uma vacina contra a chamada “institucionalização” da legenda – isto é, o afastamento de suas bases populares e a limitação de sua atuação política ao cenário institucional.
Hoje, o PT é um partido de quadros. Mais do que isso, é um partido do Lula. Distante das bases, o PT transferiu ao seu líder inconteste a responsabilidade de conquistar a adesão do eleitorado a um projeto de esquerda. Deixou de ter base própria. Parte dela foi subtraída, agora, pela extrema-direita, nos púlpitos das igrejas evangélicas e no mundo sem lei das mídias sociais.
Lula dialoga com seu povo: tem carisma, se vira, escapa de inimigos. O PT, sem rosto e sem militância, passa a ser refém do seu líder: paga pelos seus erros e nem sempre desfruta dos acertos; é vítima do ataque implacável contra Lula e não consegue galvanizar os votos conquistados por ele.
Lula se candidata agora ao seu último mandato. Se perder, vai para casa – e o PT perde os votos que eventualmente ganhe na conta de sua liderança. Se vencer, dará um fôlego de quatro anos para o PT traçar um plano B para sobreviver sem ele.
Não será fácil. Com Lula, em 2022 o PT elegeu apenas 67 deputados, entre 513. O PL de Bolsonaro fez uma bancada de 94 deputados; as demais legendas de extrema-direita abrigadas em um bloco parlamentar (que congrega o União, o PP, o PSD, Republicanos, MDB e Podemos) somam 267 parlamentares.
No processo de ascensão da extrema-direita, a partir da campanha eleitoral que colocou nos dois lados da polarização política Jair Bolsonaro (PL) e Fernando Haddad (PT), em 2018, o que de novo surgiu no cenário partidário foi o Partido Liberal (PL).
A legenda de Bolsonaro ser a depositária dos votos conservadores era previsível. O que não se esperava era o avanço do PL na base tradicional do petismo: a classe baixa e o eleitorado jovem. A extrema-direita brasileira, como o fascismo na Itália (1922-1943) e o nazismo na Alemanha (1933-1945), passou a galvanizar humores e ódios de um eleitorado que seria naturalmente da esquerda.
Em artigo interessantíssimo publicado no site de Le Monde Diplomatique Brasil em 10 de abril, a cientista política Marina Basso Lacerda, já no título, faz a pergunta: “O PL está se tornando um partido de massas?”. Ela responde: sim, o PL está em vias de se tornar o primeiro partido de massas de direita do Brasil. Uma evidência são as pesquisas de opinião sobre preferências partidárias.
Em pesquisa AtlasIntel/Arko de março/abril deste ano, 27% dos entrevistados apontaram o PL como o partido de preferência; o PT foi apontado por apenas 25,4%. Essa é uma novidade absoluta. O partido de Lula sempre reinou nesse quesito. Em dezembro do ano passado, por exemplo, pesquisa Datafolha registrava o PT ainda na dianteira – era o favorito para 24% dos entrevistados, contra 12% do PL. Nas eleições municipais, o PT bateu no seu teto histórico, enquanto o PL cresceu – o primeiro fez 8,8 milhões de votos no primeiro turno; o partido de Bolsonaro, 15,6 milhões.
É essa realidade que o PT encontrará em outubro deste ano, se Lula perder a eleição para o seu quarto mandato; ou em 2030, quando outro candidato subir ao palanque para suceder Lula: uma extrema-direita comendo um eleitorado que Lula e PT consideravam cativos, e crescendo perigosamente.
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