A banalização da morte é parte do pacote neoliberal

Desumanizar é chave para continuidade desse sistema financeiro brutal. Caso de Moisés Santos, que faleceu dentro do Carrefour, é emblemático

Moisés

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Justiça,Opinião

Moisés Santos é o nome do trabalhador terceirizado que sofreu um ataque cardíaco e morreu enquanto apresentava produtos aos clientes do Carrefour, empresa que trabalhava, no bairro de Torre no Recife. Diante do fato, o Carrefour optou por encobrir o corpo de Moisés entre guarda-sóis, tapumes, caixas de papelão, engradados de cerveja e seguir suas atividades ‘normalmente’.

A ausência de preparo da empresa, tanto na condução de suas políticas internas, quanto na formação de seus empregados diretos ou indiretos, é gritante. As críticas por não dispor de protocolos de conduta adequados para situações como aquela são absolutamente necessárias.

O discurso do Carrefour seguiu a praxe reducionista: pedido de desculpas, reconhecimento do erro, promessas de mudanças e solidarização. Nada de novo. Agora, um ponto na narrativa das pretensas mudanças me chamou atenção: “trazer mais sensibilidade e respeito ao conduzir fatalidades”.

Será que podemos ter empresas mais sensíveis dentro de uma organização social financeirizada?

Um ponto é certo: não dá para seguir tratando a banalização da morte ou de injustiças sociais de maneira individual. Criticar individualmente até pode ser essencial para casos como este, mas não basta. Não é suficiente. É preciso questionar a naturalidade com que as condutas de austeridade têm sido praticadas e tratadas coletivamente.

 

É realmente impressionante como a lógica neoliberal e seus desdobramentos ideológicos desumanizam determinados corpos para manter suas dinâmicas funcionando na mais pura ‘normalidade’.

Desumanizar é retirar a humanidade. Parece óbvio, mas, quando retiramos a humanidade de alguém ou de um grupo, redirecionamos os nossos olhares. O semelhante passa a indivíduo, a elemento, a marginal. A desumanização do objeto da violência nos faz perder a sensibilidade crítica, nos distancia do todo, o torna insignificante.

Desumanizar é estratégia dessa racionalidade e se torna elemento fundamental para que sigamos apáticos a situações de brutalidade. Ditam as regras a lógica da volatilidade, da dinamicidade e do curto prazo[1]. As mesmas que legitimam a precarização de vidas; convertem desigualdades em providência divina e condicionam sucesso à meritocracia.

Aliás, temos demonstrações históricas consistentes de que, muitas vezes, cumprir as regras ou foi sinônimo de autorização para práticas monstruosas ou nos garantiu a tranquilidade da irresponsabilidade pelas atrocidades praticadas.

Em outras palavras, a causa desta patologia é sistêmica.

E é este sistema articulado, que acomoda medidas de opressão ao nosso cotidiano, que precisa ser combatido. A opressão contra trabalhadores está sendo operada de modo organizado a todo tempo e debaixo dos nossos olhos. A naturalização dessas perversidades que precisa ser questionada.

Há um processo de ‘desenvolvimento da tolerância às injustiças’[2] que não pode ser tratado como providencial, porque tem sido a garantia do aumento progressivo das mais diversas formas de precariedades e de seus estragos psicológicos e sociais nos níveis que conhecemos.

Se a ideia é transformar, aniquilar a banalização, a crítica precisa ser sistêmica e a coletividade precisa ter consciência disso. É contra aquele que dá suporte e reproduz a violência que precisamos nos voltar. Arendt já nos alertava que o mal não está em suas práticas, está nas mãos daqueles que organizam um sistema que banaliza a vida e a morte de alguns[3].


[1] ANTUNES, Ricardo. O privilégio da servidão: o novo proletariado de serviços na era digital. 1. ed. São Paulo: Boitempo, 2018.

[2] DEJOURS, Christophe. Psicodinâmica do trabalho: casos clínicos. Porto Alegre – São Paulo: Dublinense, 2017.

[3] ARENDT, Hannah. Eichmmam em Jerusalém. São Paulo: Companhai das Letras, 1999. DOWBOR. Ladislau. O capitalismo se desloca: novas arquiteturas sociais. São Paulo: Edições Sesc São Paulo, 2020.

Este texto não reflete necessariamente a opinião de CartaCapital.

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Doutoranda em Relações do Trabalho, Desigualdades Sociais e Sindicalismo pela Faculdade de Economia da Universidade de Coimbra. Mestra e Especialista em Direito do Trabalho pela Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (PUC-SP). Pesquisadora voluntária no Núcleo de Pesquisa e Extensão "O trabalho além do Direito do Trabalho: dimensões da clandestinidade jurídico-laboral" da Faculdade de Direito da Universidade de São Paulo (FDUSP). Advogada.

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