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A autoridade tem que estar baseada no respeito à alteridade

Mundo,Opinião

“Se já tem todas as respostas, é porque não fez todas as perguntas ” (Confúcio)

Aprendemos que os textos têm de ser planejados. Não há dúvida de que, na grande maioria das vezes, esse planejamento permite melhor exposição das ideias.

Entretanto, também é verdade que, ao desenvolvermos o plano, ocorrem outras conexões, levando as sinapses a destinos não previamente descortinados.

Trata-se de processo de construção dialógico, interno, criativo, do despertar, respeitar e dar voz à nossa alteridade interna.

A prática é libertadora e capaz de levar a portos alegres, ainda que não necessariamente seguros, pois, como bem ilustrou o grande pintor Michelangelo Merisi da Caravaggio (1571-1610): ao implicar luz, a vida também implica sombras.

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No Brasil, o processo afigura-se ainda mais complexo, pela própria diversidade cultural do país. No entanto, também se torna mais rico, pela alteridade próxima, quase familiar, servindo de metáfora para as relações internacionais.

Vale lembrar que entender o outro não é desafio de pouca monta: se vivemos tempos de crescente conectividade, também aumenta o isolamento, como se pode aferir pelos índices de depressão e suicídio, que avultam.

Com efeito, o “outro” parece ter-se tornado um “não-eu”, obstáculo no trânsito, ruidoso no transporte público, concorrente na fila e no concurso.

Para alguns, a competição faz parte do que intitulam “meritocracia”. Para outros, reduzir a alteridade a um “não-eu” diminui a visão de vida, que pode ser encarada como tendo características de mais complementariedade do que de exclusão.

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Curioso notar que a árvore-símbolo do Brasil é o ipê, cuja floração ocorre no período final do inverno, principalmente no mês de agosto, quando o esforço seria contrário à própria sobrevivência da planta. Porém, ao florir em condições tão adversas, a árvore parece indicar uma inteligência maior, de natureza coletiva, colocando-se ela própria em risco para que o processo de polinização não seja interrompido e a primavera possa chegar, para toda a natureza. Um impulso de vida para a alteridade, não de morte; “eros” não “tanatos“, binômio que Freud bem identificou como balizador da vida humana.

No contexto atual, estaríamos vendo o outro, seja ele uma pessoa ou uma nação, sob o velho bordão latino da intolerância: “vita mea mors tua” (minha vida tua morte)?

Nas palavras do Cristo, não estaríamos condenando o cisco no olho do irmão, sem retirar a trave da própria vista?

Transpondo para o domínio internacional, como pode a diplomacia, sob qualquer circunstância, recusar-se ao diálogo, se essa é sua arte –  ser dialógica com a alteridade?

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Embora seja paradoxal, um grupo de países, reunidos sob o nome de “Grupo de Lima”, a capital peruana, fechou as portas ao diálogo com um país irmão, a Venezuela. Uma contradição com a própria tradição cultural da bela capital andina, que estabeleceu diálogo cultural-gastronômico tão aberto entre as inúmeras culturas daquele riquíssimo país e de outros, fazendo da gastronomia peruana a de maior sofisticação atualmente no mundo.

De maneira desafortunada, aquele maravilhoso diálogo cultural-gastronômico não conseguiu inspirar os diplomatas da região à abertura para o outro, não tendo podido superar o desafio de identificar os interesses nacionais e regionais de forma inclusiva, coletiva, terminando por transformar o doce em amargo, azedo mesmo.

Com efeito, ao se fecharem ao diálogo com o governo democraticamente eleito da Venezuela, fizeram do outro um inimigo, erro primário e doloroso em política e diplomacia. Pior, cometeram a falta com país da própria região, demonstrando as limitações culturais de seus universos, temerosos da voz do outro. Cabe recordar que desde a ascensão de Hugo Chavez a Venezuela realizou 26 pleitos, todos reconhecidos como limpos por parte dos observadores internacionais, tendo a sofisticação do voto eletrônico ser ademais impresso, segurança que sequer atingimos no Brasil. Vale notar, ainda, que foi a oposição a vencedora do pleito legislativo, sem que houvesse, então, qualquer contestação internacional.

Ao adotarmos a posição de “termos todas as respostas”, não caberia indagarmos se efetivamente fizemos todas as perguntas? Quantos sabem que a Venezuela antes de Chavez era obrigada a importar até alfaces dos EUA, tal era o nível de dependência a que era submetida? Como pode um auto-proclamado presidente pedir ainda mais sanções internacionais contra o seu próprio povo, que por causa delas foi privado de medicamentos tão básicos e de uso constante como a insulina?

Como os ipês, sejamos brasileiros e latino-americanos: se nos fizerem sofrer, floriremos, pois a autoridade tem de estar baseada no respeito à alteridade: pelo diálogo, pelo exemplo, pela troca, pela doação e o crescimento fraterno.

A América Latina e o Caribe sejamos um coletivo em que ninguém larga a mão de ninguém; se quiserem relações horizontais, bem-vindos sejam; mas se as quiserem verticais, neo-coloniais, floriremos como os cravos de abril, pois a luta pacífica também se luta e, como Ghandi contra o colonialismo inglês, se vence. Não compraremos seus produtos, não viajaremos a seus países, não leremos seus livros ou veremos seus filmes. Se sua hegemonia é tanatos, a nossa é eros, pois como disse o líder – e santo popular – o cacique guarani Sepe-Tiaraju: “Esta terra tem dono”.

Este texto não reflete necessariamente a opinião de CartaCapital.

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Diplomata aposentado, foi secretário socioeconômico do Instituto Ítalo-Latino Americano; vice-presidente do Comitê Consultivo do Fundo Central de Emergências da Organização das Nações Unidas (ONU) e representante, alterno, do Ministério das Relações Exteriores no extinto Conselho Nacional de Segurança Alimentar e Nutricional (Consea).

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