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Vinte dias que abalaram o mundo

As consequências da Guerra do Yom Kippur continuam a ser sentidas 50 anos depois

Fim das ilusões. Os EUA tornaram-se em definitivo os protetores de Israel, enquanto velhas figuras da política, entre elas Golda Meir, foram substituídas por uma nova geração – Imagem: Acervo/Universidade de Tel Aviv e Arquivo Público de Israel
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Em 1974, um ano após o fim da Guerra do Yom Kippur, o cientista político norte-americano nascido na Alemanha Dankwart ­Rustow pesquisou as implicações do conflito para a revista Foreign Policy. Ao observar que as “frentes” árabe-israelenses no conflito mais amplo estavam adormecidas, ele notou, no entanto, o enorme e contínuo impacto da guerra, principalmente nas repercussões duradouras do embargo petrolífero da Opep, a chamada “arma do petróleo” que tinha sido dirigida pelos produtores de petróleo árabes aos apoiadores de Israel, incluídos os Estados Unidos, com os conhecidos efeitos sobre a economia global. Seu impacto, avaliou Rustow, tinha “se espalhado inexoravelmente para agravar todos os problemas anteriores da economia mundial… espalhando ondas de uma guerra do petróleo que envolveu o mundo inteiro”.

No 50º aniversário dessa curta e sangrenta guerra, ondas continuam a ser sentidas. Embora o conflito tenha durado menos de três semanas, suas consequências continuam profundas. O embargo da Opep talvez seja mais lembrado hoje, mas a medida em si foi uma resposta ao reposicionamento estratégico significativo do apoio dos Estados Unidos a Israel sob o presidente Richard Nixon, em pleno embate. Tomadas em conjunto, as duas questões criariam uma nova dinâmica internacional em torno das linhas de fratura no Oriente Médio.

Anunciado em 20 de outubro, duas semanas após o início da guerra, o embargo petrolífero da Opep foi uma resposta direta ao transporte aéreo de armas e outros equipamentos militares ordenado por Nixon – Operação Nickel Grass – para reabastecer as forças esgotadas de Israel. Para Washington, isso marcaria o início de um ato de equilíbrio diplomático que continua até hoje: instalar um novo compromisso para garantir a segurança de Israel diante de qualquer ameaça existencial contra a necessidade de manter boas relações com as monarquias árabes produtoras de petróleo, principalmente a Arábia Saudita.

Durante o conflito estabeleceu-se a relação carnal entre Israel e os EUA

No futuro, Israel não só desfrutaria de uma garantia dos Estados Unidos quanto à sua segurança, como também de uma vantagem militar em termos de tecnologia, se necessário. O que Rustow e outros não conseguiam ver, apesar de estarem tão perto dos acontecimentos, era, no entanto como iria se desenrolar a grande aposta do presidente egípcio Anwar ­Sadat de lançar um ataque de surpresa em duas frentes com a Síria contra Israel.

Dentro de quatro anos, Sadat visitaria Jerusalém para discursar no Parlamento israelense, e um ano mais tarde assinaria o tratado de paz de Camp David, cimentando o fim das hostilidades entre os dois países. Este continua a ser o tratado mais importante de ­Israel com um Estado árabe. Se a luta em si não correu como Sadat pretendia, o resultado final foi em grande parte o que ele planejou: um conflito que ensanguentou Israel e contribuiu de alguma forma para expurgar a humilhação da derrota dos exércitos árabes na Guerra dos Seis Dias em 1967, enquanto pressionava para envolver Washington num acordo negociado que veria a devolução da Península do Sinai ao Egito.

Para Israel, propriamente, a guerra também marcaria uma série de pontos de virada significativos. As manifestações que se seguiram ao fim do conflito marcaram uma ruptura entre muitos israelenses e o establishment político que domina o país desde a sua fundação. Os israelenses e seus meios de comunicação, como observou Mark Regev, ex-embaixador israelense no Reino Unido, seriam, a partir de então, mais céticos em relação às suas instituições políticas. Dentro de um ano, a primeira-ministra Golda Meir estava fora do cargo. Entre uma nova geração de políticos que emergiu logo após a guerra estava Ariel Sharon, festejado como herói por suas ações durante a guerra, que tinha sido um dos fundadores do novo partido Likud, criado algumas semanas antes da eclosão da guerra, e que mais tarde se tornaria primeiro-ministro. Outro beneficiário seria Yitzhak Rabin, visto como imaculado pelo escândalo do planejamento da guerra, que emergiria como líder do Partido Trabalhista e assinaria os acordos de paz de Oslo com os palestinos.

Talvez o mais intrigante seja um legado que nem sempre esteve evidente durante as últimas décadas de tentativas de paz fracassadas. Ele foi descrito há dois anos por Aaron Jacob, ex-representante permanente adjunto de ­Israel na ONU. “O tratado de paz entre Egito e Israel”, sugeriu Jacob, que serviu na frente egípcia durante o conflito, “fornece provas convincentes de que o conflito árabe-israelense não é um jogo de soma zero. As perdas de um lado também podem resultar em perdas para o outro lado, assim como os ganhos de uma parte podem trazer ganhos para a outra.” •


Tradução de Luiz Roberto M. Gonçalves.

Publicado na edição n° 1280 de CartaCapital, em 11 de outubro de 2023.

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