Trump se torna 3° presidente dos EUA alvo de impeachment e diz estar sendo perseguido

O republicano é o primeiro presidente do país que busca se reeleger ao mesmo tempo em que corre risco de destituição

Presidente Donald Trump. Foto: SCOTT OLSON / GETTY IMAGES NORTH AMERICA / AFP

Presidente Donald Trump. Foto: SCOTT OLSON / GETTY IMAGES NORTH AMERICA / AFP

Mundo

Donald Trump se tornou, na noite dessa quarta-feira (18), o terceiro presidente americano a enfrentar um processo de impeachment, passando a fazer companhia a Andrew Johnson (1868) e Bill Clinton (1998). Com isso, a política americana está vivendo um dos momentos mais raros de sua história, pois Trump é o primeiro presidente do país que busca se reelegem ao mesmo tempo em que corre risco de destituição. O chefe da Casa Branca afirma não ter feito nada errado.

A Câmara de Representantes dos Estados Unidos, controlada pelos democratas, aprovou nesta quarta-feira (19) o impeachment do presidente por abuso de poder e obstrução ao Congresso. No Senado, que analisará o impeachment em janeiro após o recesso de final de ano, espera-se que Trump seja absolvido, pois são necessários ao menos 67 votos para retirá-lo do cargo e os republicanos têm 53 dos 100 assentos.

 

Mas os democratas estão com uma sensação de dever cumprido. Para eles, ter Trump na Casa Branca é um verdadeiro insulto aos princípios americanos. A líder da Câmara de Representantes, Nancy Pelosi (Califórnia), chegou a afirmar que a presidência dele representa uma “ameaça à segurança nacional”. Desde o início do processo, os democratas frisavam que estavam muito pesarosos por ter de tomar uma medida tão drástica, mas que isso era inevitável, pois a conduta do presidente republicano era inconstitucional e antidemocrática.

Trump reagiu à votação acusando os democratas de tentar “anular” sua vitória nas urnas, durante um comício em Michigan. “Estão consumidos pelo ódio” e “tentarão anular os votos de dez milhões de patriotas americanos”.

“Eles estão tentando me submeter ao impeachment desde o primeiro dia. Tentam fazer isto desde que me candidatei”, disse o presidente.

Abuso de poder e obstrução do Congresso

O chefe de Estado é acusado de abuso de poder e obstrução do Congresso. As acusações dizem respeito a uma conversa telefônica de Trump com o presidente ucraniano, Volodimir Zelenski, em julho passado, que podia ser interpretada como uma prova de que o presidente americano estava condicionando uma ajuda militar à Ucrânia e uma visita de Zelenski à Casa Branca à abertura de uma investigação de corrupção sobre Hunter Biden, filho de Joe Biden, vice-presidente de Barack Obama e o pré-candidato democrata mais provável de concorrer à Casa Branca em 2020. Enquanto seu pai era vice e estava encarregado das relações entre os EUA e a Ucrânia, Hunter ocupou um cargo na diretoria da empresa ucraniana de energia Burisma.

Ao fazerem suas declarações à Câmara nessa quarta-feira, os representantes democratas não se limitaram às duas acusações oficiais e aproveitaram para se manifestar contra outras atitudes do presidente e também suas políticas, inclusive condenando o tratamento de imigrantes que são detidos por entrarem ilegalmente no país pela fronteira com o México. Alguns deles até condenaram um possível futuro comportamento do presidente que, segundo eles, tentaria novamente “roubar a eleição” com a ajuda de outros países.
Os republicanos lutaram até o último instante com bastante ânimo contra o inevitável julgamento do impeachment, já que, desde o início, já era sabido que a Câmara, de maioria democrata, votaria a favor da condenação de Trump. Mas logo depois que o processo de impeachment foi oficialmente anunciado, eles deram declarações à imprensa dizendo estar confiantes de que isso acabaria por prejudicar os democratas e garantiria a reeleição de Trump.

Mas quase tudo em Washington não passa de teatro para manter as aparências, pois certamente não é bom para um presidente ter o impeachment como parte do seu legado. No entanto, Trump provavelmente não deve se preocupar em fazer as malas, pois ele deve continuar na Casa Branca pelo menos até janeiro de 2021. Para ser afastado da presidência, o Senado, de maioria republicana, teria de realizar um julgamento e condená-lo. Os republicanos, por enquanto, estão unidos. Todos eles votaram contra o impeachment na Câmara, mostrando uma união até mais forte que a dos democratas. Dois representantes democratas votaram contra o impeachment. E Tulsi Gabbard, pré-candidata democrata à presidência, não se posicionou, votando apenas como presente.

Depoimentos podem arranhar imagem de Trump

Se for realizado um julgamento no Senado, pode acontecer que alguns testemunhos, como o de John Bolton, ex-assessor de segurança nacional de Trump que, em setembro passado, saiu do cargo com uma certa animosidade contra o presidente, mudem a opinião pública de maneira significativa. E isso poderia também mudar alguns votos da maioria republicana. Os democratas queriam que Bolton prestasse testemunho perante a Câmara, mas foi alegado privilégio executivo.

Portanto, ainda há uma possibilidade de Trump ser pego de surpresa por um afastamento da presidência, assim como ele parece ter sido pego de surpresa com sua improvável vitória contra Hillary Clinton, na eleição de 2016. Isso resultaria em outro acontecimento inédito na política americana, já que nenhum dos outros presidentes alvos de um processo de impeachment – Johnson e Clinton – chegaram a ser removidos da presidência.

Enquanto isso, Trump continua em constante ritmo de campanha. Ao receber a notícia do seu impeachment enquanto estava em um comício na cidade de Battle Creek, no estado de Michigan, ele falou em tom de parceria com a plateia. “Nem parece que nós estamos sofrendo impeachment. Nós não fizemos nada de errado”, disse. “Prefiro estar aqui. Estes comícios são ótimos. Vocês são uma inspiração”, declarou. “Mais quatro anos, mais quatro anos”, respondeu a plateia.

Mais tarde, o gestor da sua campanha tuitou que o comício tinha sido um sucesso, contando com a presença de 20 mil eleitores confirmados, sendo que 15% desses não tinham votado nas últimas quatro eleições e 17% dos eleitores presentes eram democratas.

Próximos passos

Agora, a Câmara precisa nomear formalmente os encarregados pelo impeachment que apresentarão o caso ao Senado. Depois disso, o processo deve ser oficialmente transmitido ao Senado. Mas na noite de quarta-feira, Pelosi disse que não sabia quando o Senado receberia o processo, pois ela primeiro precisa ter garantias de que haverá um julgamento justo. Os republicanos não estão escondendo que o julgamento, que provavelmente acontecerá em janeiro, já está decidido mesmo antes de acontecer. O líder do Senado, Mitch McConnell, afirmou que não será imparcial e diz estar coordenando tudo com a Casa Branca. Essa é uma retaliação ao processo de impeachment conduzido pelos democratas na Câmara que também foi claramente partidário.

Mas é possível que a líder democrata agora queira deixar o impeachment de lado e passar a promover uma agenda voltada a medidas que beneficiem mais diretamente os eleitores, para manter a maioria na Câmara e talvez até conquistar o Senado nas eleições de 2020. Há alguns meses, Pelosi estava reticente quanto ao impeachment, mas foi pressionada pela ala mais de esquerda do partido, representada principalmente por novos membros do Congresso. Se o processo não for transmitido ao Senado, o impeachment termina por aqui.

O risco é grande para a líder da Câmara, pois logo depois do processo de impeachment ser aprovado, o porta-voz de Alexandria Ocásio-Cortez, a jovem deputada de Nova York que lidera a ala mais progressista do partido, tuitou uma crítica a Pelosi, perguntando aos eleitores o que a líder fazia por eles e indicando uma divisão dentro do partido.

Por enquanto, Trump diz que faz questão de se defender perante o Senado e alertou pelo Twitter tarde da noite de quarta (18) que a vítima do impeachment aprovado pela Câmara era seus eleitores, e não ele. Mas até os eleitores irem às urnas em novembro, não há como saber quem sai realmente ganhando com o impeachment.

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