Sudão: na tentativa de um golpe de Estado, vários membros do governo de transição são presos

Desde o anúncio das detenções, manifestantes se instalaram de forma espontânea nas ruas da capital Cartum para protestar

Primeiro-ministro sudanês, Abdalla Hamdok, preso no golpe de Estado que se instala no país.

Foto: AFP

Primeiro-ministro sudanês, Abdalla Hamdok, preso no golpe de Estado que se instala no país. Foto: AFP

Mundo

Homens armados não identificados prenderam na manhã desta segunda-feira 25 vários dirigentes sudaneses, após semanas de tensões entre autoridades militares e civis que fazem parte do governo de transição do país. A maioria dos ministros, entre eles, o premiê, foram detidos, confirmou o Ministério da Informação.

A prisão da maior parte dos ministros e dos civis membros do Conselho de Soberania, que governa temporariamente o país, aumenta a tensão neste país da África ocidental. As Forças Armadas detêm em um local não identificado o primeiro-ministro sudanês, Abdalla Hamdok, depois que ele se recusou a apoiar um “golpe de Estado”, indica o comunicado divulgado nesta segunda-feira pelo Ministério da Informação do Sudão.

O país é palco de uma precária transição de governo manchada por divisões políticas desde que, por pressão de imensas manifestações do povo, as Forças Armadas impulsionaram a saída do ex-dirigente Omar al-Bashir, em abril de 2019, depois de três décadas no poder. Há pouco mais de dois anos, o Sudão é dirigido pelo Conselho de Soberania, formado por civis e militares, que deveriam trabalhar em prol das eleições diretas, previstas para o fim de 2023.

Ruas invadidas por manifestantes

Desde o anúncio das detenções, manifestantes se instalaram de forma espontânea nas ruas da capital Cartum para protestar. Eles queimaram pneus e bloquearam estradas e pontes. Em retaliação, os militares reforçaram a presença na cidade e a internet foi cortada.

Desde o anúncio das detenções de governantes do Sudão, manifestantes se instalaram de forma espontânea nas ruas da capital Cartum para protestar.
Foto: AFP

Ao que tudo indica, embora ainda não seja oficial, os militares realizam um golpe de Estado contra o governo de transição e a parceria de civis no poder, como determinou a declaração constitucional de 2019 após a queda de Omar al-Bashir. Há várias semanas integrantes da sociedade que fazem parte do sistema de transição vinham advertindo sobre essa possibilidade.

Nos últimos tempos, a tensão subiu entre os setores civis e militares do Sudão. No último 16 de outubro, militantes que defendem as Forças Armadas acamparam diante do palácio presidencial, sede das autoridades de transição. Em resposta, no último 21 de outubro, os pró-civis saíram às ruas de várias cidades sudanesas de forma pacífica para apoiar o que chamam de “revolução”.

Desde então, acampamentos de pró-militares tomaram os arredores de Cartum. No domingo 24, manifestantes que defendem o golpe de Estado bloquearam um dos principais pontos da capital criando engarrafamentos gigantescos.

Racha entre civis

Outro problema é que o bloco formado pelos civis dentro do sistema de transição, que liderou as manifestações contra Omar al-Bashir em 2019, se dividiu em dois grupos rivais. As Forças Armadas e de segurança, dirigidas por ex-membros do antigo regime, multiplicaram as críticas nos últimos dias sobre o racha, afirmando que não pode haver divisão dentro do poder.

Desesperados, a Associação dos Profissionais, uma das lideranças que ajudou a colocar um fim à ditadura de al-Béchir há dois anos, convocou os sudaneses à “desobediência civil”.

“Apelo às Forças Armadas para que libertem imediatamente os detidos”, exortou o enviado da ONU ao Sudão, Volker Perthes, considerando “inaceitável” as detenções das autoridades de transição. Já os Estados Unidos se dizem “profundamente preocupados” pelo anúncio da tomada de poder pelos militares.

Mesmo tom da parte da Alemanha, que condena o que classificou de “tentativa de golpe de Estado” e pede para que a intervenção “cesse imediatamente”. Em comunicado, o ministro alemão das Relações Exteriores, Heiko Maas, fez um apelo em prol do diálogo entre os dirigentes políticos do país.

O chefe da diplomacia europeia, Josep Borrell, fez um apelo à comunidade internacional “para que ajude a viabilizar a transição sudanesa “, enquanto a Liga Árabe se disse “preocupada”, fazendo um pedido de “diálogo” entre os dois campos.

O general Abdel Fattah al-Burhane, fará um pronunciamento sobre o golpe nesta segunda-feira 25.
Foto: Sudan TV / AFP

A televisão estatal, invadida por soldados nesta manhã, indicou que o general Abdel Fattah al-Burhane, líder da transição, fará um pronunciamento nesta segunda-feira. Logo depois, agências de notícias internacionais indicaram que as Forças Armadas atiraram contra manifestantes que protestavam contra a tentativa de golpe de Estado em Cartum.

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