Mundo
Socialista derrota ultradireita nas eleições de Portugal
António José Seguro impôs dura derrota ao ultradireitista André Ventura, após se colocar como esquerdista ‘moderno e moderado’ capaz de evitar crises políticas e defender valores democráticos
O socialista moderado António José Seguro obteve uma vitória esmagadora no segundo turno das eleições presidenciais de Portugal neste domingo 8, derrotando o líder da ultradireita André Ventura na corrida para suceder o atual presidente, Marcelo Rebelo de Sousa, de centro-direita. Esta foi a primeira vez em 40 anos que o país realizou um segundo turno para eleger seu chefe de Estado.
Com 98,6% das urnas apuradas, Seguro tinha em torno de 66,6% dos votos válidos, enquanto Ventura somava 33,4%.
Sondagens divulgadas após o fechamento das urnas já indicavam que Seguro, o mais votado no primeiro turno das eleições, em 18 de janeiro, venceria a segunda rodada da votação por uma ampla margem, com previsões de entre 67% e 73% dos votos para o socialista e de 27% a 33% para Ventura.
Antes da meia-noite, no horário local, Seguro já havia batido o recorde de votos em uma eleição presidencial portuguesa, superando os 3,459 milhões com que Mário Soares foi eleito em 1991.
Candidato da esquerda “moderna e moderada”
Seguro se apresentou como o candidato de uma esquerda “moderna e moderada” capaz de exercer uma mediação ativa para evitar crises políticas e defender os valores democráticos.
Ele recebeu o apoio de conservadores proeminentes após o primeiro turno, em meio a preocupações com o que muitos consideram as tendências populistas e autoritárias de Ventura.
Nas cinco décadas desde que Portugal encerrou sua ditadura, em 1974, uma eleição presidencial havia exigido segundo turno apenas uma vez, em 1986. O resultado revela como o cenário político se tornou fragmentado com a ascensão da ultradireita e o descontentamento dos eleitores com os partidos tradicionais do país.
Portugal é um regime semipresidencialista, em que o Poder Executivo é compartilhado entre o presidente e o primeiro-ministro. A presidência é um cargo em grande parte cerimonial, mas exerce alguns poderes importantes, incluindo a dissolução do parlamento, a convocação de eleições legislativas antecipadas e o veto a leis.
Líder da extrema-direita, André Ventura foi derrotado nas eleições presidenciais de Portugal. Foto: FILIPE AMORIM / AFP
Trajetória política e acadêmica
António José Martins Seguro nasceu em 11 de março de 1962 em Penamacor. Licenciado em Relações Internacionais pela Universidade Autônoma de Lisboa, e mestre em Ciência Política, pelo ISCTE-IUL, é casado e tem dois filhos.
Foi colunista do semanário Expresso, cujos artigos estão compilados em seu livro Compromissos para o Futuro. Ele também é autor do livro Reforma do Parlamento Português – O controle político do governo.
Seguro foi líder da Juventude Socialista (JS) entre maio de 1990 e março de 1994, quando começou a se aproximar da cúpula do círculo do poder.
Sua ascensão se deve em grande parte a António Guterres, o atual secretário-geral da ONU, que em 1992 foi eleito secretário-geral do PS, mantendo o jovem político ao seu lado nos anos seguintes.
Seguro se elegeu deputado nas eleições legislativas de 1991. Com a vitória do PS nas eleições de 1995, ele assume as funções de secretário de Estado da Juventude, cargo do qual sairia para se candidatar, com sucesso, às eleições europeias de 1999, sob a liderança de Mário Soares.
Dois anos depois, em 2001, ele voltaria ao governo português como ministro-adjunto do primeiro-ministro. Pessoas próximas a Seguro afirmam que os dez anos de convivência com Guterres marcaram a sua forma de fazer política.
Período afastado da política
Em 2011, Seguro se elegeu líder do PS, o que o levou a ocupar o cargo de secretário-geral do partido, função que exerceu até setembro de 2014, após perder as eleições primárias do partido para António Costa, que se tornou primeiro ministro de Portugal (2015-2024) e atualmente preside o Conselho Europeu.
Depois dos vários cargos políticos e partidários, a derrota para Costa o levou a se afastar da vida política e se limitar à condição de “militante de base”.
Durante a última década, ele se dedicou às aulas na universidade evitando comentários políticos, com rara exceções.
Em novembro de 2024, em entrevista à emissora de notícias TVI/CNN, Seguro admitiu que pensava em se candidatar a presidente da República. No ano seguinte, ele se lançaria como pré-candidato sem esperar pelo apoio do PS, que viria meses mais tarde.
Votação adiada devido a tempestades
Mais de 36 mil eleitores não puderam votar neste domingo em várias cidades onde as eleições foram adiadas até 15 de fevereiro devido às tempestades que atingiram o país nas últimas duas semanas. Entre as cidades atingidas estão Alcácer do Sal, Arruda dos Vinhos e Golegã, que sofreram graves inundações.
A votação também foi adiada em algumas seções eleitorais de Santarém, Rio Maior, Leiria, Cartaxo e Salvaterra de Magos. A passagem da tempestade Marta pelo país deixou um bombeiro morto no sábado.
O primeiro-ministro português, Luis Montenegro, disse que as chuvas causaram uma “crise devastadora”, mas que as ameaças à votação seriam superadas. A lei eleitoral permite apenas o adiamento em localidades específicas.
(ots)
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