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Rascunho de documento final da COP26 desagrada especialistas

Relatório, que deve ser apresentado na sexta-feira 12, tem como pontos-chave o financiamento climático e o mercado de carbono

Foto: Paul ELLIS / POOL / AFP
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A agência climática da Organização das Nações Unidas publicou nesta quarta-feira 10 um rascunho do que deve ser o documento final da Cúpula do Clima em Glasgow. Enviados de quase 200 países trabalham no acordo que deve ser assinado pelos países no fim de semana. 

A prévia do relatório pede que as nações apresentem promessas melhoradas no próximo ano para combater as mudanças climáticas, mas não confirma se a renovação anual da meta pelos signatários se tornará um requisito de cada encontro. É possível que essa decisão fique para a COP27, que será realizada em 2022 no Egito.

Os participantes não serão obrigados juridicamente a cumprir as promessas feitas, mas a proposta final terá o peso político dos quase 200 países que assinaram o Acordo de Paris de 2015, em que os signatários concordaram em limitar o aquecimento global a 1,5 ºC acima dos níveis pré-industriais.

O documento pede ainda que seja eliminada gradualmente a utilização de carvão, petróleo e gás para reduzir as emissões de dióxido de carbono, um dos principais vilões da mudança climática. 

Negociadores também concordam que as ações financiadas até agora para mitigar as mudanças climáticas são insuficientes. Em 2009, as nações desenvolvidas se comprometeram a oferecer 100 bilhões de dólares anuais aos países pobres e em desenvolvimento. A promessa, entretanto, não foi cumprida até agora.

O Greenpeace considerou o rascunho uma resposta inadequada à crise climática, chamando de “um pedido educado que os países talvez, possivelmente, façam mais no próximo ano”.

O texto destaca que limitar o aquecimento a +1,5°C até o fim do século em comparação com a era pré-industrial “requer uma ação significativa e eficaz de todas as partes nesta década crítica”.

De acordo com um mecanismo estabelecido em 2015, os países devem revisar suas metas a cada cinco anos: a próxima está prevista apenas para 2025.

Mas desde o início do encontro em Glasgow, as nações mais vulneráveis insistem na necessidade de que a revisão aconteça anualmente.

Os analistas consideram que a primeira versão do rascunho não atende plenamente nem os países ricos nem os pobres, o que, em termos diplomáticos, pode paradoxalmente significar que tem possibilidades de êxito.

Pequenos avanços

No Acordo de Paris de 2015, os países se comprometeram a atuar para limitar o aumento da temperatura média global a +2 ºC, mas de maneira ideal a +1,5 ºC.

Agora, a COP26, que acontece na cidade escocesa de Glasgow de 31 de outubro a 12 de novembro, deve estabelecer o que fazer para evitar as devastadoras catástrofes naturais representadas por cada décimo de grau adicional.

As emissões de gases do efeito estufa desde a Revolução Industrial já provocaram um aumento da temperatura de +1,1 ºC e suas caóticas consequências, incluindo secas, inundações e o aumento do nível do mar, devem ser agravadas e provocar o surgimento de milhões de refugiados climáticos, alertam os especialistas.

Os compromissos até 2030 com o qual os países chegaram a Glasgow deixavam a Terra no rumo de um aquecimento de +2,7 ºC.

Ou, na melhor das hipóteses, de +2,2 ºC, supondo que todas as promessas de alcançar a neutralidade de carbono até 2050 sejam cumpridas, o que implica ações para captar gases da atmosfera como o reflorestamento.

Em sua primeira semana, Glasgow registrou uma série de anúncios importantes.

Países como Brasil, Argentina e Índia reforçaram os objetivos de reduções de emissões.

Mais de 100 chefes de Estado e de Governo se comprometeram a cessar o desmatamento até 2030, e o mesmo número a emitir 30% a menos de metano, gás que tem efeito estufa 80 vezes maior que o CO2.

Porém, na terça-feira o Programa das Nações Unidas para o Meio Ambiente (PNUMA) atualizou a estimativa ao somar todas as novas promessas e determinou que o planeta segue rumo a +2,7 °C, ou no máximo +2,1 °C.

“Cruzar os dedos”

No que alguns negociadores chamaram de “primeira menção significativa” aos combustíveis que provocam o aquecimento global, o projeto de texto também pede aos países que “acelerem a eliminação do carvão e dos subsídios aos combustíveis fósseis”.

Isto é importante quando se recorda que nas conferências anteriores o uso de carvão ou hidrocarbonetos não foi mencionada nas declarações finais, que se concentram na redução das emissões.

Mas para Jennifer Morgan, diretora executiva do Greenpeace International, “este projeto de acordo não é um plano para resolver a crise climática, é um acordo para que todos cruzem os dedos e esperem o melhor”.

“É um pedido educado para que os países talvez, possivelmente, façam mais no próximo ano”, afirmou.

Mohamed Adow, diretor do grupo ambientalista Powershift Africa, lamentou que o texto atenda “muito pouco” das demandas dos países vulneráveis em termos de ajuda para adaptação à mudança climática e para enfrentar as perdas e danos já sofridos.

(Com informações da AFP)

Marina Verenicz
Repórter do site de CartaCapital

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