Progressistas devem comemorar, mas extrema-direita não se desarticulou

Para a professora Karen Fernandez, governo Biden terá de apresentar soluções contundentes a fim de manter apoio popular

Foto: KENA BETANCUR/AFP

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Mundo

A vitória do democrata Joe Biden sobre o republicano Donald Trump nas eleições presidenciais dos Estados Unidos deve ser celebrada pelos progressistas como o triunfo sobre uma importante liderança da extrema-direita, mas os extremistas “estão longe de desarticular”.

 

 

Quem faz o alerta é Karen Fernandez, professora do Departamento de Relações Internacionais da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp) e pesquisadora do Instituto Nacional de Ciência e Tecnologia para o Estudo sobre os Estados Unidos (INCT-INEU).

“A extrema-direita conta com patrocinadores e redes disseminadoras poderosas que não dependem de uma liderança específica”, constata Fernandez, doutora em Ciência Política pela Universidade de Campinas (Unicamp) e pós-doutora pelo INCT-INEU.

Em entrevista a CartaCapital, a especialista falou ainda sobre o futuro do “trumpismo” e as consequências da judicialização dos resultados eleitorais por parte de Donald Trump. Leia os principais trechos da entrevista:

 

CartaCapital: Os progressistas, afinal, devem comemorar a vitória de Biden? Há perspectiva de uma agenda progressista no novo governo?

Karen Fernandez: O campo progressista deve, sem dúvida, comemorar a vitória de Biden. Afinal,
estamos diante da derrota de uma liderança importante da extrema-direita, que foi porta-voz e fez prosperar o nacionalismo xenófobo e os ataques às minorias tanto no âmbito doméstico, como também na arena internacional. Exemplo notável é a recente Declaração do Consenso de Genebra (ou Declaração Antiaborto), apoiada pelo Brasil, que pretende formar uma aliança mundial contra os direitos sexuais e reprodutivos das mulheres.

No que diz respeito à questão ambiental, a derrota de Trump significa a retomada de uma agenda de proteção ambiental com possibilidade de retorno ao Acordo de Paris, de priorização de energia limpa e se de fazer avançar o debate e a implementação do “Green New Deal”.

 

O fato é que é uma grande vitória derrotar um presidente que é, antes de tudo, negacionista, disseminador de Fake News e de discursos de ódio, além de apoiador de organizações que difundem teorias conspiratórias (Qanon) e até de grupos armados, pois abre-se espaço para que o debate público se reconfigure e se reorganize em outros termos. Ou seja, pode se tornar minimamente programático, fundamentado em conhecimento, propositivo e racional. 

 

CC: Embora derrotado na eleição, o ‘trumpismo’ demonstrou força. O que esperar do ‘reagrupamento’ desse movimento sob o governo Biden?

KF: Trump perdeu as eleições em uma disputa muito acirrada e teve muitos votos. Ele foi derrotado, mas o trumpismo, como fenômeno social, permanece como força importante, pois parte significativa da sociedade estadunidense especialmente a América branca e rural se identifica com o discurso de Trump.
Há ainda um contingente significativo de desempregados ou de trabalhadores(as) submetidos(as) a trabalhos precários empobrecidos(as) e desprovidos(as) de direitos, pois não usufruem de uma rede ampla de serviços público para atendê-los(as).

O trumpismo se alicerça no desalento do cidadão e no consequente descrédito das instituições políticas e a consequente crise da democracia representativa. Sua dificuldade de responder rapidamente às demandas muitas vezes elementares e prementes faz com que se aposte em alguém com perfil anti-sistêmico. Trump se apresentou como este personagem. Angariou apoio e enraizou uma base social não desprezível encapsulando o próprio Partido Republicano.

A capacidade do governo de Biden de responder aos desafios relacionados ao emprego, à saúde, à infraestrutura, ao crédito e ao endividamento das famílias será decisiva. O cenário é de crise num contexto de pandemia e o governo democrata terá que apresentar soluções contundentes a estas demandas para manter seu apoio e fazer derreter a base social do trumpismo.

 

CC: A derrota de Trump, mais do que a vitória de Biden, representa um golpe na extrema-direita internacional?

KF: Com certeza. A derrota de Trump é uma má notícia para a extrema-direita internacional, mas também está longe de significar a sua desarticulação. Ela conta com patrocinadores e redes disseminadoras poderosas que não dependem de uma liderança específica. Claro que ter um representante à frente da principal potência mundial é um trunfo nada desprezível. No entanto, o golpe decisivo depende das forças progressistas que, além de derrotar lideranças com este perfil, precisam ser capazes de enfrentar os mecanismos que tornam tais discursos tão sedutores e geram uma massa significativa de apoiadores.

O fato é que a palavra “neoliberalismo” foi tão mal utilizada que evito me referir ao termo, o que representa inclusive uma vitória dos defensores desta ideologia, de suas políticas e de seu modo de vida. Porque o neoliberalismo se tornou um modo de vida do qual a extrema-direita se aproveita fortemente.

 

O fato é que as forças progressistas não derrotarão a extrema-direita, nem apresentarão os resultados esperados, sem o enfrentamento desta ideologia, que se tornou um modo de sociabilidade, e não encontrou um adversário à altura desde que se estabeleceu no início dos anos 1980. Ao contrário, ela só se aprofundou. É justamente aí que reside o meu ceticismo.

 

CC: Biden terá de superar a desconfiança não só dos republicanos, mas também da ala mais à esquerda do Partido Democrata, notadamente ligada a Bernie Sanders?

KF: Não acho que a ala à esquerda do Partido Democrata será um problema para Biden. A concertação de forças para derrotar Trump constitui uma força importante para o governo Biden. No entanto, é claro que ele terá que dialogar e atender demandas dos movimentos sociais como, por exemplo, o “Black Lives Matter”.

Considero que os principais desafios estão muito mais relacionados a Wall Street, que liderança
nenhuma disciplina ou encapsula, do que a uma oposição vigorosa dentro do próprio partido. Daí, a outra razão do meu ceticismo. Quando nos referimos ao enfrentamento daquilo que gera e alimenta as bases sociais do trumpismo temos que olhar inevitavelmente para o papel determinante de Wall Street neste processo.

 

CC: A tentativa de judicialização dos resultados por parte de Trump indica uma tendência de radicalização da direita nos Estados Unidos?

KF: A radicalização já ocorreu e 2016 já deixou isso claro. Estamos agora diante dos seus efeitos. E um dele é ter um presidente que só aceita o resultado da eleição se ele for o vencedor e que inclusive já deixa isto claro antes do pleito. Cumprindo a promessa de campanha, após o pleito, ele foi à TV e fez um discurso tresloucado com referências infundadas a fraudes no processo, que constrangeu parte do processo Partido Republicano.

Acredito ainda que o Partido Republicano se mobilizará para barrar Trump neste processo liderado por ele de implosão da democracia evitando que a eleição seja decidida na Suprema Corte, que tem maioria Republicana.

Em relação aos movimentos de direita que apoiam Trump, há risco de mobilização e  conflitos agudos. O fato é que as eleições deram mais uma prova de que a sociedade estadunidense está muito polarizada e há mobilização dos dois lados (direita e esquerda). Biden terá de agir também no sentido da despressurização.

 

 

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Editor do site de CartaCapital

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