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O simbolismo da obra de Roger Waters, investigado pela polícia alemã, contra o nazismo

Compositor, investigado pela polícia de Berlim após usar traje nazista em show, é uma das vozes mais contundentes do mundo contra o autoritarismo

Foto: Reprodução/Redes Sociais
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A polícia de Berlim, na Alemanha, anunciou nesta sexta-feira 26 que está investigando o cantor e compositor Roger Waters por incitação ao ódio, após o artista britânico vestir um uniforme de estilo nazista em um show na capital alemã, no último dia 17 de maio.

“Estamos investigando uma suspeita de incitação ao ódio público porque as roupas usadas no palco podem ser utilizadas para glorificar ou justificar o regime nazista, perturbando a ordem pública”, disse o porta-voz da polícia de Berlim, Martin Halweg. Ele destacou que as roupas utilizadas pelo cofundador da banda Pink Floyd na apresentação “lembram o uniforme de um oficial da SS [a organização paramilitar do partido nazista alemão]”.

Admiradores de Waters e fãs do Pink Floyd, no mundo inteiro, reagiram à notícia da investigação. O argumento principal é que a postura da polícia alemã diante da performance do artista representa não apenas um cerceamento da liberdade de expressão, mas, em termos, é uma contradição: como é possível que justamente Waters, que há décadas que se manifesta, na sua obra e nas suas manifestações, contra o nazismo, possa ser investigado por promover símbolos da doutrina criada por Adolf Hitler?

A dimensão simbólica da arte

A interpretação literal de uma manifestação artística – músicas, pinturas, livros e filmes, por exemplo – costuma ser vista, por críticos de arte e por uma diversidade de artistas ao longo dos séculos, como uma limitação do poder de expressão artística. A arte, reconhecidamente, trabalha com uma carga simbólica que amplia a experiência estética de quem lhe tem acesso. Em diversos casos, lançar mão de símbolos e metáforas, por exemplo, é um recurso artístico.  

Quando Charles Chaplin, por exemplo, interpretou “O Grande Ditador” (1940), em uma explícita referência ao autoritarismo de Hitler, é reconhecido que o ator e diretor londrino não estava, de modo literal, promovendo o nazismo. Estava, por outro lado, interpretando um personagem, de modo que a reflexão crítica, por parte de quem assiste ao filme, fosse ampliada.

O mesmo vale para o álbum conceitual The Wall (1979), do grupo Pink Floyd, um dos mais icônicos da carreira de Waters. Nele, o personagem Pink – uma espécie de alter ego de Waters -, após um longo processo de abandono pelo pai, morto durante a Segunda Guerra Mundial, começa a julgar-se um ditador fascista.

Muitos anos depois, em 2015, Waters se referiu ao álbum, em uma entrevista para o jornal espanhol El País, comoum ato de protesto”. “É muito menos sobre a história do garoto e sua perda e mais sobre a preocupação de todas as pessoas que perdemos em guerras”, disse o cantor.

As críticas de Roger Waters ao nazismo

Nascido em setembro de 1943, Roger Waters, logo na infância, experimentou as consequências da guerra e das ameaças do nazismo e do fascimo. Vivências, aliás, que marcaram praticamente toda a sua obra. Críticas sociais – a regimes políticos e ao autoritarismo, por exemplo – estão presentes em parte substancial não apenas das composições do britânico, mas nas suas manifestações públicas, ao longo das últimas décadas.

Embora a sua performance no disco The Wall faça as referências mais diretas ao regime autoritário, outras manifestações contribuíram para posicionar Waters na luta contra o nazismo.

Em 1990, Waters interpretou o mesmo personagem que está sendo investigado agora. A performance, assim como a de agora, também aconteceu em Berlim, na Potsdamer Platz. Com a diferença de que, há pouco mais de 30 anos, o show “The Wall em Berlim” aconteceu poucos meses depois da queda do Muro de Berlim, que reunificou a Alemanha, e ficou marcado como um dos mais importantes da história do rock. 

À época, a revista alemã Der Spiegel se referiu à apresentação da seguinte forma: “Não é um comício do partido do Reich, tampouco uma convenção de fusão de dois partidos irmãos de Leste e Oeste”, e destacou a homenagem à reunificação alemã.

Outras declarações públicas

Para além da obra – que, por si só, é a expressão máxima do artista -, Waters é conhecido por suas declarações públicas contrárias ao autoritarismo. Um dos defensores da causa palestina, Waters já fez sucessivas críticas a Israel, por exemplo.

Em 2018, quando esteve no Brasil para uma turnê às vésperas da eleição presidencial que elegeu Jair Bolsonaro (PL), Waters declarou, em entrevista ao cantor e compositor brasileiro Caetano Veloso, o pensava sobre o fato da extrema direita ser eleita em regimes democráticos. 

“Tudo o que posso dizer a essas boas pessoas [ele se referia a pessoas ‘de boa índole’, segundo ele, que votariam em Bolsonaro] é que elas deveriam se lembrar de 1933 [o ano que representou o fim da República de Weimar e a ascensão do nazismo na Alemanha], eu tenho certeza que boas pessoas votaram em Adolf Hitler também. É um caminho muito perigoso”, refletiu o artista. 

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