Mundo
O plano da Europa para reagir à ameaça tarifária de Trump
Representantes da UE estudam tarifas retaliatórias de 93 bilhões de euros sobre importações dos EUA. França pressiona por uso inédito de mecanismo anticoerção, que poderia atingir serviços e investimentos americanos
O anúncio do presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, de que pretende aplicar tarifas extras a oito países europeus para forçar a compra da Groenlândia provocou ondas de choque no continente, com representantes europeus pedindo medidas retaliatórias inéditas contra o que foi descrito por diversos líderes como “intimidação”.
A União Europeia (UE) realizou uma reunião emergencial de seus embaixadores em Bruxelas neste domingo 18 para discutir o tema. O presidente do Conselho Europeu, António Costa, também decidiu convocar uma cúpula extraordinária dos líderes do bloco, que deve ocorrer na quinta-feira.
Seis dos oito países que entraram na mira de Trump – Alemanha, França, Holanda, Dinamarca, Suécia e Finlândia – são membros da União Europeia. O Reino Unido e a Noruega também serão taxados.
De acordo com o presidente americano, uma sobretaxa de 10% entrará em vigor no início do próximo mês contra essas nações. A tarifa subirá para 25% em junho se não houver acordo para que os Estados Unidos assumam o controle da ilha ártica.
Segundo diplomatas da UE ouvidos pela agência de notícias Reuters, embaixadores do bloco europeu chegaram a um acordo no domingo para intensificar os esforços diplomáticos a fim de dissuadir Trump da medida, mas também preparam instrumentos retaliatórios caso as tarifas avancem.
As opções do bloco incluem um pacote de contratarifas sobre 93 bilhões de euros (580 bilhões de reais) em importações dos Estados Unidos, além de uma gama de medidas inéditas previstas no chamado “instrumento anticoerção”, que poderiam atingir também o comércio de serviços e investimentos americanos.
Os representantes concordaram em aguardar até 1º de fevereiro para avaliar se as sanções de Washington de fato serão impostas, segundo a Reuters.
Pacote de contratarifas pode afetar aviões, carros e soja
A imposição do pacote de 93 bilhões de euros em contratarifas já havia sido aprovada em julho do ano passado, também durante um conflito tarifário com os Estados Unidos. Na ocasião, o bloco concordou em aplicar as sanções como retaliação à retórica de Trump, que ameaçava impor tarifas abrangentes a diversos países, incluindo os membros da UE.
Sua implementação acabou sendo suspensa após a UE fechar um acordo com Washington, que estabeleceu uma tarifa de 15% para produtos europeus entrarem nos EUA.
O jornal britânico Financial Times também informou que essa é a primeira opção discutida pelos europeus neste domingo. Se for mantido o mesmo modelo de retaliação preparado no ano passado, o pacote poderia afetar produtos americanos como aeronaves, automóveis, autopeças e produtos agrícolas como a soja.
Segundo o jornal, a possibilidade de retaliação dá poder de negociação aos líderes que participarão do Fórum Econômico Mundial, em Davos. A medida, que ainda precisaria ser formalmente acatada pelos membros do bloco, entraria em vigor em 6 de fevereiro.
França pressiona por mecanismo anti coerção
Segundo a imprensa francesa, o presidente da França, Emmanuel Macron, também pressiona nos bastidores para que a UE ative um mecanismo retaliatório mais duro e jamais utilizado, o chamado “instrumento anti coerção”. De acordo com o jornal britânico The Guardian, o presidente da comissão de comércio do Parlamento Europeu, Bernd Lange, também apoia a medida, cujo uso não foi descartado pelo bloco.
Conhecido como “bazuca comercial”, o instrumento permite que a UE adote medidas de retaliação quando houver pressão econômica para forçar decisões políticas. Ele foi criado para proteger o bloco de medidas comerciais da China, mas agora pode ser usado, por exemplo, para barrar grandes empresas de tecnologia americanas de prestarem serviços na Europa.
Também poderia ser aplicado para controles de exportação, restrições à propriedade intelectual e aos fluxos de investimento, além do bloqueio de acesso ao mercado único da UE.
O uso da ferramenta, que já havia sido aventado pela França em 2025, seria considerado drástico, uma vez que pode acentuar as tensões com Washington e levar a uma escalada comercial sem precedentes.
Países reafirmam apoio à Groenlândia
Os países alvos de Trump são os mais vocais contra a anexação da Groenlândia pelos EUA, todos membros da aliança de defesa da Otan. O presidente americano diz que tais nações jogam um “jogo muito perigoso” ao enviarem militares à Groenlândia para treinamento na última semana.
Os oito países reafirmaram apoio à Dinamarca e a Groenlândia e advertiram neste domingo que o gesto “mina as relações transatlânticas e arrisca desencadear uma perigosa espiral descendente”.
O presidente do Conselho Europeu, António Costa, afirmou em uma publicação nas redes sociais que suas consultas com os Estados-membros demonstraram forte compromisso em apoiar a Dinamarca e a Groenlândia e prontidão para se defender contra qualquer forma de coerção, ao mesmo tempo em que se mantém o engajamento construtivo com os Estados Unidos.
Ele convocou uma cúpula extraordinária para discutir o assunto nesta semana.
“Europeus projetam fraqueza”, diz secretário americano
Já o secretário do Tesouro dos Estados Unidos, Scott Bessent, afirmou à emissora NBC neste domingo que o governo americano precisa assumir o controle da Groenlândia porque a ilha ártica só poderia ser defendida se fizesse parte dos Estados Unidos.
“Não haverá conflito, porque os Estados Unidos, neste momento, são o país mais forte do mundo. Os europeus projetam fraqueza. Os EUA projetam força”, afirmou.
Segundo Bessent, Trump “está tentando evitar um conflito”. Ele descreveu um cenário no qual a Rússia ou outro país atacaria a Groenlândia, arrastando os Estados Unidos para um confronto. Por isso, argumentou, seria melhor tornar a Groenlândia parte dos EUA agora.
Situada entre o Oceano Atlântico e o Ártico, a Groenlândia é um território semiautônomo da Dinamarca, mas Trump quer subordiná-la ao controle de Washington. Ele alega que o tema é uma questão de segurança nacional, dada a localização estratégica do território, suas reservas minerais e as ameaças vindas da Rússia e da China.
Apoie o jornalismo que chama as coisas pelo nome
Muita gente esqueceu o que escreveu, disse ou defendeu. Nós não. O compromisso de CartaCapital com os princípios do bom jornalismo permanece o mesmo.
O combate à desigualdade nos importa. A denúncia das injustiças importa. Importa uma democracia digna do nome. Importa o apego à verdade factual e a honestidade.
Estamos aqui, há mais de 30 anos, porque nos importamos. Como nossos fiéis leitores, CartaCapital segue atenta.
Se o bom jornalismo também importa para você, nos ajude a seguir lutando. Assine a edição semanal de CartaCapital ou contribua com o quanto puder.



