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O apelo da segurança

Com um discurso “linha-dura”, o neófito Abelardo de La Espriella bate o candidato governista e vence as eleições

O apelo da segurança
O apelo da segurança
Desponta outra figura histriônica na América do Sul – Imagem: Rodrigo Buendia/AFP
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No famoso Leviatã, obra clássica do pensamento político publicada em 1651, o filósofo inglês Thomas Hobbes defende uma ideia que explica a vitória da extrema-direita nas eleições presidenciais da Colômbia: a segurança é a necessidade humana mais fundamental. Segundo Hobbes, o ser humano, diante da incerteza quanto à garantia da própria vida e da preservação de seus bens, deixa em segundo plano outros anseios, como a liberdade e a justiça, e se dispõe a alienar sua autonomia em favor de um tirano que lhe proporcione proteção.

Com um discurso “linha-dura” perante a criminalidade, apontada nas pesquisas como principal preocupação dos colombianos, Abelardo de la Espriella, rico advogado com cidadania norte-americana e residente em Miami, sem qualquer participação política anterior, venceu a eleição com 49,6% dos votos no segundo turno realizado no domingo 21, apenas 250 mil, ou 0,9%, a mais do que o candidato da coligação de esquerda Pacto Histórico, o senador Iván Cepeda, apoiado pelo atual presidente Gustavo Petro.

Em sua primeira declaração após o resultado, Cepeda afirmou que seus partidários continuarão mobilizados, entre outros motivos, para defender os direitos humanos, ameaçados pela agenda de La Espriella, que promete construir dez presídios de “vigilância máxima” e extremo rigor punitivo, iguais aos instalados em El Salvador por Nayib Bukele, no qual diz se inspirar. Cepeda alertou também sobre os riscos à soberania nacional decorrentes do alinhamento explícito do rival às políticas de Donald Trump, empenhado em restabelecer o controle geopolítico dos Estados Unidos sobre a América Latina. “Não aceitaremos que se trate o país como um protetorado”, alertou. “Defenderemos a soberania nacional em qualquer circunstância.”

A guinada política na Colômbia favorece, de fato, a ofensiva regional de Trump, que agrega mais um país ao conjunto dos governos aliados na América do Sul, entre eles o de Javier Milei na Argentina e o de José Antonio Kast no Chile, e aos quais se somam Paraguai, Bolívia, Equador e Peru, com a confirmação da vantagem eleitoral de Keiko Fujimori no recente pleito presidencial. A Venezuela vive situação esdrúxula, com um governo formalmente independente, mas submetido, na realidade, a um controle político e econômico da Casa Branca. Restam, como remanescentes do ciclo “progressista” que tingiu quase toda a América do Sul em diferentes tons de vermelho no início do presente século, o Uruguai, com Yamandú Orsi, e o Brasil, onde Lula buscará o quarto mandato em outubro.

O eleito promete construir megapresídios à moda de Nayib Bukele, de El Salvador

A eleição na Colômbia foi, em grande medida, um plebiscito sobre a gestão de Petro, primeiro político de esquerda a governar o país. Ele se tornou presidente, também por uma diferença pequena, com uma dupla promessa. A primeira, em grande parte cumprida, diz respeito a avanços sociais como o aumento real do salário mínimo, a reforma agrária e a aposentadoria universal. A grande falha foi no cumprimento da segunda promessa, a de encerrar o traumático ciclo de violência política que dura mais de meio século. Seu principal projeto na área da segurança, intitulado Paz Total, fracassou desastrosamente. Petro almejava desarmar, por meio do diálogo político, os guerrilheiros em estado de rebelião depois que a principal organização insurgente, as Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia (Farc) aceitaram, em 2016, se dissolver e formar um partido político regular. Ao mesmo tempo, tentava dialogar com o crime organizado, oferecendo projetos de desenvolvimento agrário como alternativa ao cultivo e tráfico de drogas.

Suas iniciativas, generosas, deram resultados opostos ao almejados. Os principais grupos criminosos ou insurgentes se aproveitaram dos longos períodos de cessar-fogo para se reagrupar e ampliar o controle territorial, o que levou a um aumento dos casos de sequestro e de extorsão contra a população civil. O diálogo com o Exército de Libertação Nacional, a mais antiga organização rebelde no país, e com dissidentes da Farc fracassou e o principal cartel de narcotraficantes, o Clã do Golfo, recusou-se a negociar. Assim, em lugar da pacificação, o que se viu foi o agravamento dos conflitos, com centenas de mortes e dezenas de milhares de moradores desalojados de suas casas.

Não surpreende, portanto, que La ­Espriella martelasse o tempo todo o tema da falta de segurança, prometendo militarizar amplas regiões no campo. Pouco se falou sobre o bom desempenho da economia sob o governo de Petro, com a menor taxa histórica de desemprego e o maior crescimento entre os países latino-americanos. Tudo isso permaneceu difuso em meio ao amontoado de propostas extravagantes do ultradireitista, que defendeu retirar a Colômbia das Nações Unidas e se declarou “mais uribista do que Uribe”, em referência às políticas neoliberais do ex-presidente. Contra esse imenso retrocesso se anuncia, no entanto, uma oposição mobilizada e consciente, com o apoio de quase metade do eleitorado. •

*O autor é professor da UFABC.


Tensão no Peru

Protestos contra o desfecho da eleição

Fujimori não pode mais ser alcançada – Imagem: Connie France/AFP

A contagem dos votos ainda não havia terminado até o fechamento desta edição, na manhã da quinta-feira 25, mas o conflito estava definitivamente instalado no Peru. Estimulados pelo ex-ministro Roberto­ Sánchez, em desvantagem no segundo turno, manifestantes saíram as ruas. Com 99,8% das urnas contabilizadas, matematicamente, a ultradireitista Keiko Fujimori não poderia mais ser alcançada . O próprio ­Sánchez levantou a lebre. “Acreditamos que houve manipulação da votação. Não reconheceremos o governo Fujimori.”

O ex-ministro denuncia irregularidades na apuração no exterior que deu 63,2% à adversária. Em uma das marchas, o candidato reclamou da tentativa de impedir as manifestações. “Eles nos negam o direito de protestar e alegam que esta manifestação é ilegal por meio de um documento. Nem sequer permitem a expressão democrática de pessoas que desejam se manifestar e exigir justiça eleitoral, o devido processo legal e transparência. Claramente, isso não é um padrão democrático.” Novas passeatas foram convocadas para o sábado 27.

Fujimori, herdeira do ditador Alberto, condenado por crimes contra a humanidade e falecido em 2024, ignora as manifestações e comemora. “Os próximos cinco anos serão repletos de grandes desafios, mas tenho certeza de que, com a bênção de Deus, e sobretudo com trabalho árduo e a união de todos os peruanos, teremos sucesso”, discursou. “Graças a todos vocês e a todo o trabalho, hoje podemos dizer, e faltam apenas alguns dias, sim, nós conseguimos.”

Os protestos indicam que o Peru, enfim, tem uma presidente eleita – foram dez mandatários em uma década –, mas não alcançará a estabilidade política. No Congresso, a correlação de forças vai espelhar a tensa divisão interna.

O partido de Sánchez elegeu 32 dos 130 deputados e 14 dos 60 senadores. A legenda de Fujimori contará, respectivamente, com 41 e 22 parlamentares.
Publicado na edição n° 1419 de CartaCapital, em 30 de junho de 2026.

Este texto aparece na edição impressa de CartaCapital sob o título ‘O apelo da segurança’

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