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O acordo que ninguém viu
Trump diz ter alcançado a paz, mas o conflito segue vivo no Líbano e sob desconfiança no Irã
Se você acredita em Donald Trump, então pode comemorar: a guerra acabou. O presidente dos Estados Unidos garante que o Irã concordou em jamais fabricar uma bomba atômica. De acordo com o republicano, o Estreito de Ormuz será reaberto, Israel deixará de atacar o Líbano, a Síria cuidará de algum modo do Hezbollah e o Oriente Médio entrará num novo ciclo de paz, estabilidade e prosperidade pelos próximos 50 anos. Mas se, ao contrário, você sabe o quanto Trump é dado a fazer anúncios superlativos, então tudo isso pode não passar de mais uma bravata concebida, em primeiro lugar, para tentar conter a queda recorde em seus níveis de aprovação, a cinco meses de uma eleição parlamentar de meio de mandato que pode ser fatal para seu partido. A guerra no Irã é desaprovada pelos próprios apoiadores, e terminar com ela tornou-se, antes de qualquer outra coisa, uma urgência eleitoral.
O anúncio de cessar-fogo entre os Estados Unidos e o Irã foi feito na mesma segunda-feira 15 em que o presidente norte-americano celebrava seus 80 anos com uma festa no quintal da Casa Branca. Entre saltos acrobáticos de pilotos de motocross e lutas sangrentas em um octógono negro, Trump exibia ao mundo o que seria o resultado exitoso de uma campanha militar brutal contra os iranianos. O evento em Washington foi a apoteose simbólica de um modo violento de lidar com o mundo. Passados três dias do anúncio do acordo, ninguém sabia, porém, quais eram exatamente os termos do trato – talvez nem mesmo o próprio Irã, dadas as declarações dissonantes entre as duas partes. Os iranianos consideram que qualquer cessar-fogo deve incluir o fim das ações militares de Israel no território do Líbano. Apesar disso, a primeira atitude do primeiro-ministro israelense, Benjamin Netanyahu, logo após o anúncio, foi realizar novos ataques na região. Se Trump incluiu a questão do Líbano no trato, de duas uma: ou ele foi quebrado em poucas horas ou essa questão nunca fez parte das conversações entre as partes.
As divergências com Israel sobre o Líbano são apenas um exemplo do que podem ser os pontos cegos ou simples omissões no combinado entre Teerã e Washington. Outro assunto não resolvido, sobre o qual nada se sabe ainda é a questão nuclear: o Irã vai entregar seu urânio? Vai permanecer com esse material nuclear, mas comprometendo-se a aceitar inspeções internacionais e a manter o nível de enriquecimento do material em porcentuais que só permitam seu emprego civil? E mais: qualquer uma dessas garantias será suficiente para Israel, grande sócio dos Estados Unidos nessa questão?
Israel mostra-se relutante em aceitar os termos negociados por Washington
As incógnitas permanecem porque o acordo, como tal, não foi visto por ninguém quando anunciado. Tudo se resumia às declarações superlativas e otimistas de Trump, enquanto o Irã mantinha uma postura acautelada até o momento da formalização do acordo, que se daria em Genebra, na Suíça, segundo os planos. Como, no passado, outros anúncios parecidos tinham caído por terra, permaneceu a incredulidade, ainda que Trump tenha desfilado no restante da semana por Évian, na França, onde acontecia o encontro do G7, alardeando sua mais recente conquista diplomática.
Enquanto isso, em Tel-Aviv, Netanyahu se defendia das acusações dos adversários políticos que, embalados na campanha que desembocará nas eleições parlamentares de fim de ano, acusavam o atual primeiro-ministro de ter rifado a segurança de Israel aos Estados Unidos, agora um aliado inconstante. A convergência inabalável entre norte-americanos e israelenses encontrou certamente um limite no Irã, onde a continuidade da guerra pode, ao mesmo tempo, atrapalhar a campanha eleitoral de Trump e favorecer a de Netanyahu.
Se o primeiro-ministro de Israel vê no programa nuclear iraniano uma ameaça existencial contra seu país, então é improvável que qualquer acerto entre Washington e Teerã que não inclua a extração do urânio iraniano seja considerado aceitável por Tel-Aviv. Nesse sentido, o melhor que Trump pode conseguir talvez seja um acordo atômico semelhante àquele de 2015 assinado pelo então presidente Barack Obama, e que ele mesmo encerrou de forma intempestiva quando chegou à Presidência dos Estados Unidos pela primeira vez, em 2018. O acordo de Obama conseguiu retirar 97% do urânio do Irã. À época, o material estava enriquecido a 20%. Hoje, está a 60%, e ninguém tem a menor ideia de como retirar de lá.
Colateral. O Irã só aceita o acordo se os termos incluírem o cessar-fogo no Líbano. Os israelenses mantêm o bombardeio – Imagem: Kawnat Hagu/AFP
Apesar de toda a contenção que Obama conseguiu, Trump se refere ao acordo de 2015 como “uma rodovia para armas nucleares”, enquanto a proposta atual seria “um muro contra armas nucleares, no sentido estrito do termo”. O acordo de Obama levou 18 meses para ser alcançado, enquanto o de Trump sai em quatro meses. O documento original tinha 150 páginas, o atual é uma incógnita ainda.
O atual governo norte-americano não poupa críticas ao acordo feito pelos democratas há 21 anos. O secretário de Guerra de Trump, Pete Hegseth, disse que a diferença é que Obama implorou por um acordo, enquanto o atual presidente bombardeou e impôs um bloqueio naval ao Irã, como se essa estratégia violenta tivesse produzido melhor efeito. Na prática, os iranianos mantêm o material radioativo em seu poder, assim como ainda possuem toda a estrutura necessária para continuar a desenvolver pesquisas nucleares, com o agravante de que, sobretudo depois do início desta guerra, não aceitam as inspeções da Agência Internacional de Energia Atômica. Além disso, o atual regime não caiu. Quando iniciou o conflito, Trump disse esperar que a população local tomasse as ruas e depusesse os atuais governantes. Mas, depois de patinar em seu intento por tanto tempo, passou a fazer declarações elogiosas aos líderes iranianos, dizendo agora que são pessoas “razoáveis”. A incapacidade de derrotar o Irã pela via militar é evidente desde ao menos o ano passado, quando ele e Netanyahu bombardearam pela primeira vez as três principais instalações iranianas de energia atômica: Natanz, Fordo e Isfahan.
Agora, as negociações são conduzidas, do lado norte-americano, por Steve Witkoff, enviado especial de Trump ao Oriente Médio, e por Jared Kushner, genro do presidente, que têm como principal interlocutor o chanceler iraniano Abbas Araghchi. Um dos obstáculos nessa negociação é determinar em qual medida existe uma unidade efetiva no Irã, uma vez que o atual presidente, Masoud Pazeshkian, tem sido pouco ouvido. Ele é tido por muitos, incluindo, por exemplo, o ex-embaixador do Brasil em Teerã, Eduardo Gradilone Neto, como um reformista com o qual se poderia negociar uma eventual reabertura e transição. Entretanto, desde o início da guerra, figuras proeminentes da Guarda Revolucionária assumiram a frente, dentre os quais se destaca o atual presidente da Assembleia Nacional, Mohammad Bagher Ghalibaf.
Trump canta vitória, mas a incerteza não foi dissipada
É difícil acreditar que os setores mais radicais do regime iraniano aceitem um acerto similar àquele feito pelos Estados Unidos na Venezuela, onde Nicolás Maduro foi removido, dando lugar a outras figuras do governo, mais subservientes a Washington. No caso iraniano, os chamados moderados foram colocados em segundo plano por causa do conflito e as negociações passam fundamentalmente por líderes que não confiam nos Estados Unidos e não toleram Israel.
Nesse cenário, qualquer acerto é incerto. Em princípio, o novo cessar-fogo tem duração de 60 dias. Ele não é ainda um acordo de paz, nem é possível saber tampouco se durará o tempo previsto, tendo em conta o fracasso de rodadas anteriores e a relutância de Israel, sócio oculto nessa história, que não parece querer aceitar os termos negociados em seu nome. Por fim, resta saber como três grupos armados – o Hezbollah, no sul do Líbano, o Hamas, na Faixa de Gaza, e os Houtis, no Iêmen – podem reagir às negociações, uma vez que todos têm agendas próprias nessa história, mesmo que elas se cruzem com os interesses do Irã. •
Publicado na edição n° 1418 de CartaCapital, em 24 de junho de 2026.
Este texto aparece na edição impressa de CartaCapital sob o título ‘O acordo que ninguém viu ‘
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