Mundo
Acordo EUA-Irã é frágil, incompleto e incerto. Mas traz alívio
Quase uma semana nos separa da oficialização do documento. Até lá, tudo pode desandar. E há dois pontos especialmente sensíveis
O anúncio da assinatura de um acordo de cessar-fogo entre Irã e Estados Unidos na noite deste domingo 14 levanta mais desconfiança do que esperança. Ainda assim, é um progresso.
Começando pela esperança: esta deve ser a primeira vez desde o início dessa guerra, em 28 de fevereiro, que os dois inimigos aparentam convergência real em seus discursos. Até então, os Estados Unidos apareciam celebrando supostos progressos nas negociações, enquanto o Irã desconversava, dizendo que todo esse otimismo norte-americano não passava de “mera especulação”. Dava a impressão de que Donald Trump vinha falando sozinho nessas negociações, e se apressava em passar mensagens otimistas em suas redes sociais porque tinha pressa de acabar com uma guerra impopular entre seus eleitores, que vão às urnas em novembro para renovar a Câmara dos Deputados e parte do Senado.
Agora, é diferente – iranianos e norte-americanos parecem estar falando publicamente a mesma língua, ainda que cada uma das partes tente naturalmente se colocar como vencedora desse processo ainda tão frágil quanto incerto e incompleto.
Mas é preciso elencar os muitos motivos para desconfiança também. Primeiro, não se trata de um acordo de paz, mas de um cessar-fogo com duração prevista de 60 dias. Ou seja, é uma moratória, uma pausa na guerra, e, desde que essa guerra teve início, há mais de três meses, já houve outros anúncios de cessar-fogo, que foram repetidamente violados por ataques mútuos. A rigor, nada impede que esse ciclo de acordos e violações volte a se repetir amanhã ou depois.
O segundo ponto de desconfiança está no fato de que o acordo ainda sequer foi assinado, o que só deve acontecer na sexta-feira, provavelmente em Genebra, na Suíça. Quase uma semana nos separa da oficialização do documento, portanto. Até lá, tudo pode desandar. E há dois pontos especialmente sensíveis nessa história, que podem fazer a conversa desandar: o Líbano e o Urânio.
Em relação ao Líbano, os diálogos estão restritos aos Estados Unidos e ao Irã, com mediação do Paquistão e do Qatar, mas há um sócio oculto dos norte-americanos nessa questão, que não parece ter sido consultado: Israel. O primeiro-ministro Benjamin Netanyahu tem sua própria agenda, que inclui atacar o Hezbollah no Líbano. O Irã quer que um acordo de paz com os Estados Unidos inclua a cessação das hostilidades no território libanês. Os Estados Unidos parecem estar de acordo com isso. Mas os israelenses, nem tanto. Então, se Netanyahu – que, assim como Trump, enfrenta eleições nacionais antes do fim do ano – decidir que os ataques ao Hezbollah no sul do Líbano e em Beirute favorecem sua própria campanha política, então o acordo com o Irã pode desandar de novo.
Por fim, o urânio. O programa nuclear iraniano está na origem das razões alegadas para essa guerra, mas, até onde se sabe, não há nenhuma cláusula do acordo versando sobre o destino desse urânio iraniano, que continua a existir. De duas, uma: ou o acordo a ser firmado em Genebra terá alguma cláusula pacificando essa questão ou ambas as partes farão vista grossa para o assunto, empurrando com a barriga esse enorme elefante na sala, até que haja, em breve, uma nova rodada de agressões motivada pela desconfiança de que os iranianos estejam a dias de desenvolver uma bomba, como diz Netanyahu há anos.
De imediato, pode-se celebrar o fim dos ataques, as vidas poupadas, a liberação do tráfego marítimo no Estreito de Ormuz e a consequente queda no preço do petróleo, com impacto positivo sobre a inflação. Não é pouca coisa, mas, ainda assim, é menos do que se tinha quando essa guerra começou.
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