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Esquerda dos EUA celebra derrota de Trump, mas alerta contra ‘status quo’ de Biden

‘Não estamos mais em queda livre no inferno’, disse a congressista Alexandria Ocasio-Cortez

Exposição de livros sobre o presidente eleito Joe Biden e a vice-presidente eleita Kamala Harris. Foto: MARK MAKELA / GETTY IMAGES NORTH AMERICA / GETTY IMAGES VIA AFP Exposição de livros sobre o presidente eleito Joe Biden e a vice-presidente eleita Kamala Harris. Foto: MARK MAKELA / GETTY IMAGES NORTH AMERICA / GETTY IMAGES VIA AFP
Exposição de livros sobre o presidente eleito Joe Biden e a vice-presidente eleita Kamala Harris. Foto: MARK MAKELA / GETTY IMAGES NORTH AMERICA / GETTY IMAGES VIA AFP Exposição de livros sobre o presidente eleito Joe Biden e a vice-presidente eleita Kamala Harris. Foto: MARK MAKELA / GETTY IMAGES NORTH AMERICA / GETTY IMAGES VIA AFP
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A derrota de Donald Trump para Joe Biden trouxe alívio para a ala mais à esquerda do Partido Democrata, mas, para a maioria desses progressistas, a chegada do centrista à Casa Branca encerra uma batalha e inicia outra.

“Não estamos mais em queda livre no inferno”, disse a congressista Alexandria Ocasio-Cortez (A.O.C), talvez o rosto mais visível da esquerda americana, em uma entrevista recente ao jornal “The New York Times”.

“Mas a questão subjacente é se vamos, ou não, nos recuperar dos golpes” infligidos por Trump e por suas políticas conservadoras, afirma.

Socialistas democratas como Ocasio-Cortez e Bernie Sanders – o senador de esquerda de Vermont que terminou em segundo lugar nas primárias presidenciais de 2016 e de 2020 – fizeram campanha por Biden e Kamala Harris, juntando-se a seus rivais democratas para derrotar Trump.

No entanto, à medida que o ruído eleitoral se desvanece, retornam ao primeiro plano as mesmas tensões polarizadoras sobre o acesso universal à saúde, a crise da dívida estudantil e o “Green New Deal” para enfrentar a mudança climática e a desigualdade que alimentaram os debates nas primárias democratas.

“No final, Biden representa uma continuação do status quo”, disse Chi Anunwa, codiretora do braço dos Socialistas Democratas dos Estados Unidos na cidade de Nova York.

“O que não quer significa que não estejamos aliviados com a partida de Trump. Mas acho que é importante lembrar que Trump, de muitas maneiras, era um sintoma extremo de vários problemas sistêmicos que atormentam os Estados Unidos há muito tempo”, completou.

Obsolescência?

Anunwa, de 31 anos, considerou que a vitória de A.O.C. junto com outros sucessos – Cori Bush, no Missouri; Ilhan Omar, em Minnesota; e Rashida Tlaib, no Michigan, por exemplo – sinalizam que os eleitores estão abertos para uma agenda progressista.

Figuras do “establishment” democrata, assim como republicanos de centro, culpam os políticos mais à esquerda do espectro pelas várias decepções eleitorais no pleito deste ano.

O terceiro democrata de mais alto função na Câmara, James Clyburn, disse que os apelos dos manifestantes para “desfinanciar a polícia”, um slogan-chave dos protestos em massa contra o racismo e contra a brutalidade policial no verão boreal (inverno no Brasil), prejudicou os candidatos ao Congresso e até Biden.

Ocasio-Cortez e seus colegas rejeitam essa construção narrativa. Em vez disso, destacam a vitória de candidatos progressistas como Omar e Tlaib no Meio -Oeste – uma região crucial para ganhar a Presidência – e que buscaram construir coalizões multiculturais com ferramentas digitais e intenso trabalho de base, percorrendo os bairros de porta em porta.

Eles garantem que isso rendeu a Biden mais votos nos estados pêndulo.

Sanders também destacou a vitória de causas progressistas nas eleições, incluindo o aumento do salário mínimo para US$ 15 a hora na Flórida, a legalização da maconha em vários estados há muito tempo considerados republicanos e mais licenças familiares após a chegada de um filho no Colorado.

Já o Arizona votou para aumentar o imposto de renda para os mais ricos para financiar a educação pública.

“Preciso que meus colegas entendam que não sou o inimigo”, disse Ocasio-Cortez ao NYT. “E que sua base deles não é o inimigo”, insistiu.

Ao se afastar de muitos dos temas apoiados pelos americanos, a jovem representante argumentou que os democratas estão levando à “sua própria obsolescência”.

Voltar-se para as bases

Para Ben Burgis, professor de filosofia e escritor que se concentra na estratégia de esquerda, é injusto culpá-la por assustar os eleitores com ideias que alguns consideram audaciosas.

Os votos de Trump não refletem, necessariamente, uma visão coerente da direita, disse ele, e são, muitas vezes, para mostrar “o dedo médio para o establishment” do Partido Democrata.

Os democratas podem ganhar mais votos, se priorizarem uma agenda que se concentre nas necessidades materiais fundamentais, disse Burgis, uma visão com a qual Anunwa concorda.

Outros eleitores simplesmente nunca votarão em um partido que eles acham que não oferece soluções para seus problemas raciais e suas preocupações com a imigração.

“Tem gente que não concorda em nada com nosso programa político (…) Pode ser por animosidade racial, ou por outra coisa”, comentou Anunwa.

Mas, agora, a esquerda deve ativar “os desativados políticos” e expandir o foco democrata para além dos “eleitores urbanos moderados”.

Anunwa disse que o caso da Flórida, onde Trump venceu, mas onde o salário mínimo foi aprovado, oferece um exemplo de ponto cego. Biden apoiou a iniciativa, mas não era central em sua agenda.

“Acho que nosso trabalho como esquerda é direcionar a frustração com o ‘status quo’ econômico e político … para uma visão positiva de uma sociedade mais justa”, disse ela.

Anunwa reconhece que uma Presidência de Biden ao lado de um possível Senado controlado pelos republicanos representa um desafio difícil, mas está otimista.

“Acho que este é um momento assustador, mas acho que existe oportunidade, se conseguirmos construir uma mobilização de base forte o suficiente para pressionar o governo Biden”, afirmou.

“Biden ter ganhado não significa que você pode descansar, não significa que nos tornamos complacentes”, ressalta.

AFP

AFP
Agência de notícias francesa, uma das maiores do mundo. Fundada em 1835, como Agência Havas.

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