Mundo

“Dei a ordem de atirar para matar”, diz presidente do Cazaquistão

O chefe de Estado autorizou as forças de segurança a abrirem fogo “sem aviso prévio” para pôr fim aos protestos que abalam o país

Kassym Jomart Tokayev (AFP)
Apoie Siga-nos no

O presidente do Cazaquistão, Kassym Jomart Tokayev, rejeitou nesta sexta-feira (7) qualquer negociação diante das manifestações que tomam conta do país há dias e já resultaram na morte de dezenas de pessoas.

“Dei a ordem de atirar para matar, sem aviso prévio”, declarou Tokayev em discurso transmitido pela televisão, acrescentando que “os terroristas continuam danificando propriedades e usando armas contra os cidadãos”.

O maior país da Ásia Central foi palco de uma revolta que eclodiu nas províncias no domingo (2), após um aumento do preço do gás, e se espalhou para outras cidades, especialmente para Almaty, a capital econômica, onde os protestos se tornaram tumultos violentos e caóticos. As forças de ordem atiraram contra os manifestantes e estima-se que dezenas de pessoas já morreram nos confrontos.

Nesta sexta-feira, nas ruas de Almaty ainda havia veículos carbonizados e poças de sangue, embora a circulação fosse gradualmente retomada, enquanto caminhões blindados da polícia patrulhavam a região. A maioria dos voos para o país foram cancelados e as agências de imprensa russas informaram, citando autoridades do Cazaquistão, que o aeroporto de Almaty só estará operacional para voos militares até domingo.

Boa parte do comércio continua fechado e nos únicos estabelecimentos abertos era difícil encontrar produtos básicos, como pão. Alguns postos de gasolina foram abertos, gerando longas filas de veículos.

Tokayev descarta negociação

O presidente rejeitou qualquer negociação e prometeu “eliminar” os “bandidos” que provocaram os distúrbios. “Que tipo de negociação se pode ter com criminosos, com assassinos? Enfrentamos bandidos armados e treinados (…) Temos que destruí-los, e é o que faremos em pouco tempo”, acrescentou Tokayev. Segundo o chefe de Estado, cerca de “20.000” pessoas estariam envolvidas na revolta.

O Ministério do Interior informou que 26 “criminosos armados” morreram, e 18 ficaram feridos. Por sua vez, as forças de segurança relataram 18 mortos e 748 feridos entre suas tropas, além de 3.800 pessoas foram detidas.

Um contingente de tropas russas e aliadas chegou a esta ex-república soviética na quinta-feira (6) para apoiar o governo e proteger prédios oficiais, junto com as forças de segurança locais. O presidente cazaque agradeceu ao presidente russo Vladimir Putin, que “respondeu muito rapidamente” ao seu pedido de ajuda.

A comunidade internacional pede calma das forças cazaques e insiste para que Moscou respeite a independência e a soberania do país vizinho. Conhecido por pouca tolerância à oposição, o Cazaquistão é um aliado-chave da Rússia, mas também busca ter relações fluidas com o Ocidente e a China. O presidente chinês, Xi Jinping, elogiou a repressão mortal adotada pelo governo cazaque, classificando o presidente Tokayev como um líder “muito responsável”.

Aumentos e corrupção

O Cazaquistão, país rico em recursos naturais, era considerado um dos mais estáveis da Ásia central. De 1989 a 2019, esteve sob controle do presidente Nursultan Nazarbayev, que este ano passou o poder para Kassym Jomart Tokayev, considerado seu discípulo fiel. Apesar de o atual chefe de Estado ter prometido reformas, o país de 19 milhões de habitantes viu poucas mudanças desde sua chegada ao poder. Além do aumento do gás, a população contesta a influência do ex-presidente no atual governo.

Os opositores denunciam a corrupção generalizada que faz com que a riqueza do país, grande exportador de petróleo, não chegue até a população, que vive com um salário médio de menos de US$ 600 (cerca de R$ 3.300).

Tags: , , ,

Jornalismo crítico e inteligente. Todos os dias, no seu e-mail

Assine nossa newsletter

Assine nossa newsletter e receba um boletim matinal exclusivo

Jornalismo crítico e inteligente. Todos os dias, no seu e-mail

Assine nossa newsletter

Assine nossa newsletter e receba um boletim matinal exclusivo

Um minuto, por favor…

O bolsonarismo perdeu a batalha das urnas, mas não está morto.

Diante de um país tão dividido e arrasado, é preciso centrar esforços em uma reconstrução.

Seu apoio, leitor, será ainda mais fundamental.

Se você valoriza o bom jornalismo, ajude CartaCapital a seguir lutando por um novo Brasil.

Assine a edição semanal da revista;

Ou contribua, com o quanto puder.