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‘Contraí câncer de pele, mas mesmo assim preciso trabalhar’: a rotina de entregadores sob o calor extremo da França
Em Lyon, trabalhadores do setor em sua maioria imigrantes, reduzem jornadas e redesenham rotas para enfrentar as ‘canicules’ no país europeu
Um calor de matar. Literalmente.
Quando percebeu que uma pequena mancha começava a subir pelo braço, o entregador Boyo S., de 53 anos, procurou um dos principais hospitais públicos de Lyon. O resultado dos exames dermatológicos confirmou o que ele temia: câncer de pele. Ainda assim, poucos dias depois, voltou a subir na bicicleta para enfrentar jornadas de até 15 horas sob o sol do verão francês.
“É horrível trabalhar sabendo que quanto mais tempo fico exposto ao sol, menos tempo de vida eu tenho”, lamenta. O câncer de pele está relacionado principalmente à exposição à radiação ultravioleta, não à temperatura elevada em si. As sucessivas ondas de calor, contudo, tornaram ainda mais difícil evitar o sol durante o trabalho.
A história de Boyo se parece com a de milhares de entregadores que seguem trabalhando durante a pior onda de calor enfrentada pela França nas últimas décadas. Desde o início do verão europeu, em junho, o país registra temperaturas recordes — os termômetros já marcaram 41,3°C —, enquanto autoridades decretam estado de emergência climática e ampliam medidas para reduzir os impactos do calor extremo.
Entre as principais vítimas estão idosos, moradores de habitações precárias e trabalhadores expostos ao sol durante toda a jornada. É o caso dos entregadores de aplicativos — ou livreurs, como são chamados na França.
Durante uma semana, a CartaCapital acompanhou a rotina desses trabalhadores em diferentes horários de trabalho. A maioria tenta iniciar a jornada apenas após as 18 horas, quando a temperatura começa a cair. Muitos estendem o expediente até perto da meia-noite, numa tentativa de escapar do calor sufocante. Ainda assim, passam entre 12 e 15 horas por dia pedalando ou pilotando motocicletas pelas ruas de um país que a própria imprensa francesa já descreve como “derretendo”, em referência aos efeitos cada vez mais intensos das mudanças climáticas.
Em Lyon, terceira maior cidade francesa, dois bairros concentram boa parte das entregas: Jean Macé, próximo ao Parque Blandan, onde vivem cerca de 1.500 estudantes em residências universitárias de apenas nove metros quadrados, e Part-Dieu, onde está localizado o maior centro comercial do país.
Antes de acompanhar os entregadores, a reportagem conversou com estudantes e trabalhadores que costumam utilizar aplicativos de entrega. Diferentemente do Brasil, pedir comida por delivery ainda não faz parte da rotina da maioria dos franceses, seja pelo custo elevado do serviço, seja pela tradição gastronômica do país, menos dependente de refeições ultraprocessadas e redes de fast-food. Assim como ocorre no Brasil, porém, o trabalho por aplicativos também é marcado pela precarização, pela remuneração variável e por uma lógica de avaliação permanente do desempenho. “Eu ganho, em média, 50 euros por dia e trabalho entre 13 e 15 horas diariamente. Estou nessa rotina há quatro anos, desde que cheguei à França. Não há muito o que fazer. É o preço de ser imigrante”, conta Boyo.
Natural da Guiné, no oeste africano, ele mostra à reportagem os exames médicos realizados após notar o surgimento das manchas claras nos braços.
“Percebi que havia um sinal no punho que foi se espalhando. Procurei um hospital e o diagnóstico veio como um baque: câncer. É horrível saber que preciso continuar trabalhando justamente fazendo aquilo que piora minha doença.” Enquanto fala, ajeita a mochila de entregas e consulta o celular à espera de uma nova corrida. Parar, segundo ele, não é uma possibilidade.
‘Minha vida vale três euros’
Em meio à intensificação da canicule — nome dado às ondas de calor extremo na França —, o Ministério do Trabalho notificou, há uma semana, Uber Eats e Deliveroo para suspenderem temporariamente as entregas nos departamentos classificados em alerta vermelho, o nível máximo de risco, entre 14h e 18h.
A recomendação tem caráter preventivo. Embora nenhuma região estivesse inicialmente enquadrada nesse nível, 67 departamentos permaneciam sob alerta laranja, classificação imediatamente inferior. No último fim de semana, Lyon e toda a região sudeste do país passaram ao alerta vermelho, obrigando museus, escolas e bibliotecas a abrirem gratuitamente suas portas para que moradores pudessem se proteger do calor.
As igrejas também aderiram às medidas de acolhimento, principalmente nos bairros mais vulneráveis da cidade, muitos deles habitados por famílias de origem marroquina e argelina.
É justamente ali que mora Rahphet H., de 35 anos. Há 14 anos vivendo em Lyon, ele passou os últimos oito trabalhando exclusivamente como entregador.
“Eu sofria muito racismo no meu antigo trabalho. Falo francês porque sou argelino, é a segunda língua do meu país, mas meus colegas riam constantemente do meu sotaque.” Raphet conciliava o emprego em uma companhia ferroviária com as entregas por aplicativo. A rotina, porém, tornou-se insustentável.
“Preferi abandonar o trabalho formal. Eu fazia exatamente a mesma função que os franceses e recebia menos. Será que essa igualdade tão defendida na França realmente existe?”
Morador de Vénissieux, na região metropolitana de Lyon, ele afirma receber cerca de 1.200 euros por mês — valor inferior ao salário mínimo francês.
Com o calor extremo, precisou reduzir ainda mais a jornada.
“Hoje trabalho apenas pela manhã e depois das seis da tarde. São menos horas do que no inverno e, consequentemente, menos dinheiro. As pessoas preferem sair de casa, aproveitar o ar-condicionado dos shoppings e dos restaurantes. Não há muito o que fazer.”
Apesar das ondas de calor, entregadores não encontram oportunidades justas de trabalhar. Foto: Danilo Queiroz – CartaCapital
Apesar das recomendações do governo, Rahphet discorda da possibilidade de suspensão das entregas. “Quem vai pagar a comida da minha família? Quem vai comprar o ventilador ou o ar-condicionado para os meus dois filhos?”
O calor muda as rotas
As estratégias para enfrentar o calor variam de entregador para entregador. Alguns optam por trabalhar apenas nos dias em que os termômetros ficam abaixo dos 34°C. Outros reduzem a jornada, concentram as entregas no início da manhã e no período da noite ou simplesmente escolhem bairros onde a presença de árvores ameniza a sensação térmica.
Em Lyon, os terceiros, quartos e sétimos arrondissements passaram a concentrar boa parte desses trabalhadores. Mais afastadas do centro histórico — onde o calor se intensifica entre o concreto e a baixa circulação de vento — essas regiões oferecem percursos menos exaustivos. Até mesmo o fluxo de turistas diminuiu nas áreas mais afetadas pelas altas temperaturas.
Recém-chegados à cidade, os irmãos paquistaneses Madjid Z. e Lhiber D. adotaram uma estratégia simples: pedalar apenas pelos bairros mais arborizados. Há quatro meses em Lyon, eles desistiram de procurar um emprego formal diante da dificuldade de falar francês fluentemente e após receberem o convite de outros entregadores, em sua maioria imigrantes vindos do Afeganistão, Irã e Guiné.
“Repare bem: não há nenhum francês que aceite um trabalho como esse. Ser entregador é aceitar que as oportunidades formais para nós simplesmente não funcionam. As pessoas olham para a gente e pensam que somos terroristas. Existe medo, desconfiança. Quem suportaria trabalhar sendo tratado dessa forma?”, questiona Madjid.
Ele faz uma pausa antes de concluir.
“Se os imigrantes decidirem parar de trabalhar, ninguém mais se alimenta nesta cidade. Ou talvez consigam, mas eu nunca encontrei um francês fazendo entregas. Europeus, sim. Franceses brancos, quase nunca. Na semana passada, soubemos que um entregador alemão caiu da bicicleta por um mal súbito, então pensando no calor que faz no meu país, estou mais acostumado e isso significa que mais pessoas aceitarão esse tipo de trabalho”, diz.
Ao lado dos irmãos, o marroquino Belhoua Y. concorda com a análise enquanto aproveita os poucos minutos livres entre uma corrida e outra para almoçar.
Há seis anos em Lyon, ele conta que trabalhou durante todo esse período em um centro logístico da Amazon antes de migrar definitivamente para os aplicativos de entrega.
“Eram gritos o tempo inteiro. Uma cobrança absurda. Eu precisava ouvir de supervisores europeus: ‘não está gostando? Então volte para o seu país’.”
Ele diz que ninguém deixa sua terra por vontade. “Ninguém escolhe imigrar. A gente vai mudando de país porque ainda acredita que é possível viver melhor.”
Hoje, Belhoua recebe cerca de três euros por entrega, comprovado com os registros das últimas corridas no celular do entregador. “Não é nada para o custo de vida francês. Mesmo assim, não troco por nada a liberdade de escolher meus horários. Prefiro isso às condições que vivi quando cheguei.”
O calor, porém, impõe novos limites. “Tenho muita tontura. Às vezes, preciso parar no Burger King ou no McDonald’s para pedir um copo d’água. Descanso alguns minutos e volto para a rua. Tenho que ganhar dinheiro.”
Para além das condições de trabalho já marcadas pela precarização, o verão francês tem levado muitos entregadores a repensarem a relação entre renda, trabalho e sobrevivência.
Na primeira semana de julho, trabalhadores de aplicativos paralisaram as atividades durante um dia em protesto contra as condições impostas pelas plataformas. A mobilização afetou parcialmente o serviço, mas perdeu força após redes de fast-food e estabelecimentos parceiros da Uber Eats e da Deliveroo reajustarem para cinco euros o valor de algumas entregas, enfraquecendo a greve informal organizada pela categoria.
O argelino Theo G., nascido em Lyon, acompanha a discussão com descrença.
“Nós sempre ouvimos que somos responsáveis pelo quanto ganhamos ou pelo horário em que escolhemos trabalhar. Eu não concordo totalmente com isso. Me sinto um idiota quando vejo que é preciso que tantos entregadores sejam hospitalizados ou revoltados com essas empresas para que quem controla nossas vidas de dentro de um escritório com ar-condicionado faça alguma coisa.”
Filho de uma família de entregadores, Theo decidiu seguir a mesma profissão. Hoje, porém, questiona-se se vale a pena continuar. “Nem lembro quando tirei férias pela última vez. De vez em quando, paro quatro dias e depois começo tudo de novo.”
Para ele, a lógica dos aplicativos transformou o trabalho em uma competição permanente entre imigrantes.
Os pontos de ônibus são as opções mais procuradas por entregadores para o descanso entre uma entrega ou outra. Foto: Danilo Queiroz – CartaCapital
“É uma tecnologia que coloca um trabalhador contra o outro. Quem faz mais entregas? Quem ganha mais estrelas? Quem recebe mais corridas? A gente vive tentando provar que merece continuar trabalhando.”
Theo faz as contas da própria rotina.
“Acordo às 6h45 e só volto para casa perto das 23 horas. Passo o dia inteiro trabalhando, com pequenas pausas. Quase não vejo minha família. Às vezes, penso em voltar para a Argélia.”
A reflexão termina em silêncio.
“Só não quero terminar como um amigo meu. Na semana passada, ele passou mal durante uma entrega, caiu da moto e acabou atropelado. A gente costuma falar do calor como se fosse uma coisa boa. Mas estamos descobrindo que ele mata.”
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