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Com bloqueios de Israel por terra, aviões lançam ajuda humanitária sobre a Faixa de Gaza

Situação de 600 mil crianças em Rafah é cada vez mais preocupante, avalia o escritório da Unicef instalado no Egito

Um paraquedas transporta ajuda humanitária lançada por um avião militar jordaniano sobre Rafah e Khan Yunis nos céus do sul da Faixa de Gaza em 27 de fevereiro de 2024. Foto: SAID KHATIB / AFP
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Pela primeira vez desde o início dos conflitos, as Forças Aéreas Egípcias anunciaram o envio de ajuda humanitária por via aérea para a Faixa de Gaza. Imagens foram divulgadas com um avião sendo abastecido com alimentos e medicamentos numa operação com o apoio dos Emirados Árabes Unidos e a Jordânia.

No início da semana, o exército jordaniano divulgou que fez uma série de entregas de ajuda humanitária de alimentos e outros suprimentos em Gaza, inclusive usando um avião do exército francês em uma dessas entregas. Vídeos com imagens de palestinos recolhendo as doações que caiam do céu com paraquedas circulam em redes sociais.

Um deles foi gravado por um jovem que carregava nos ombros o que recolheu e celebrava. “Um saco de farinha. Depois de um mês. Que um mês, um milhão de anos. Eu sinto como se fossem milhares de anos”, disse, mostrando ainda outras muitas pessoas que também carregavam na praia as doações. Em outro vídeo, uma palestina agradece, mas lembra que aqueles que continuam no norte de Gaza passam mais necessidades do que os que se deslocaram para o sul, na fronteira com o Egito.

O responsável pelo UNICEF no Egito, Jeremy Hopkins, disse à RFI estar extremamente preocupado, principalmente, com as 600 mil crianças atualmente deslocadas em Rafah entre toda a população civil que vive em circunstâncias tão terrivelmente difíceis.

Fila de crianças palestinas que esperam por comida em Gaza.
Foto: Mahmud HAMS / AFP

Riscos

A falta de água potável, de serviços de saneamento e de instalações sanitárias e de higiene básica está aumentando rapidamente para uma emergência de saúde pública, com o risco de surtos de doenças em grande escala. “Agradecemos a facilitação do governo egípcio no fluxo de suprimentos humanitários para Gaza e continuamos a trabalhar em estreita colaboração com o Crescente Vermelho Egípcio a este respeito. Contudo, isto não é o suficiente”, afirmou.

“Os fornecimentos humanitários que entram em Gaza não são suficientes e o setor privado também deve ser autorizado e habilitado a operar em conjunto com as organizações de ajuda. Mais importante ainda: nenhuma criança em Gaza estará segura até que haja um cessar-fogo e reitero este apelo às partes em conflito, a fim de permitir que o Unicef e outros forneçam apoio humanitário vital onde é tão desesperadamente necessário, e para todas as crianças”, acrescentou.

Críticas a Israel

Organizações internacionais vêm criticando os obstáculos impostos por Israel para a entrega desse tipo de ajuda através de caminhões vindos do Egito, que já recebeu mais de 500 aviões, de diferentes países, incluindo o Brasil, trazendo ajuda para palestinos mantidos em Gaza.

Foram cerca de 15.000 toneladas até agora. Essas doações se concentram na cidade de Al-Arish e vão em caminhões para a Faixa de Gaza, através das passagens de Rafah e Karm Abu Salem. Segundo o Escritório das Nações Unidas para a Coordenação de Assuntos Humanitários (OCHA), “os comboios de ajuda têm sido atacados e o acesso às pessoas necessitadas tem sistematicamente sido negado. Os trabalhadores humanitários foram assediados, intimidados ou detidos pelas forças israelenses e as infraestruturas humanitárias foram atingidas”.

A Sociedade do Crescente Vermelho Palestino (PRCS) decidiu suspender todos os procedimentos de coordenação humanitária em missões médicas na Faixa de Gaza “devido à falha em garantir a segurança das equipes de serviços médicos de emergência, dos feridos, e os doentes nos hospitais.”

A organização disse que a ocupação israelense deteve sete integrantes de sua equipe, incluindo técnicos de anestesia e um médico. “Eles foram presos durante o ataque da ocupação israelita ao Hospital Al-Amal e o seu destino permanece desconhecido neste momento”, afirmou o PRCS, que criticou a falta de compromisso e respeito demonstrados pelas forças de ocupação israelenses para com os procedimentos e mecanismos de coordenação acordados com as organizações das Nações Unidas.

Em novo balanço divulgado nesta quarta-feira, o Ministério da Saúde palestino informou que desde o início do conflito entre Israel e Hamas, 29.954 pessoas morreram e 70.325 ficaram feridas. Estima-se que outras milhares de vítimas ainda estejam sob os escombros, enquanto equipes de resgate tentam encontrá-las mesmo sob ataques israelenses.

Proposta de trégua

O Hamas recebeu e analisa uma espécie de rascunho de uma proposta de trégua em Gaza. Segundo a imprensa, a entrega do documento foi em Paris, durante uma roda de conversas com mediadores que tentam chegar a um cessar-fogo. Esta proposta fala em uma pausa nas operações militares e troca de prisioneiros palestinos por reféns israelenses, inicialmente durante 40 dias.

Também consta na proposta:

– Retorno gradual de todos os civis deslocados – exceto homens em idade de serviço militar – ao norte da Faixa de Gaza.

– Depois de iniciar a primeira fase, Israel reposicionará as suas forças longe das áreas densamente povoadas da Faixa de Gaza.

E sobre ajuda humanitária para a Faixa de Gaza:

– Compromisso de trazer 500 caminhões por dia de ajuda humanitária.

– Fornecer 200 mil tendas e 60 mil caravanas.

– Permitir a reabilitação de hospitais e padarias em Gaza

– Israel concorda com a entrada de máquinas e equipamentos pesados para remoção de escombros e assistência com outros fins humanitários, com o fornecimento de remessas de combustível necessárias para esses fins. O Hamas se compromete a não utilizar estas máquinas e equipamentos para ameaçar Israel.

“Um cessar-fogo humanitário imediato e duradouro é a única forma de acabar com a matança e os ferimentos de crianças, a única forma de proteger os civis e a única forma de permitir a entrega urgente da ajuda vital desesperadamente necessária. Mais do que tudo, as crianças de Israel e o Estado da Palestina precisam de uma solução política duradoura para a crise, para que possam crescer em paz e livres da sombra da violência”, reforçou Jeremy Hopkins.

Enquanto os Estados Unidos anunciaram mais US$ 53 milhões em assistência humanitária aos palestinos, há no mundo árabe uma expectativa para que se chegue logo a uma decisão antes do dia 11 de março, quando começa o Ramadã, mês sagrado para os muçulmanos dedicado a jejum e orações.

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