China aumenta pressão em Hong Kong com a detenção de mais de 50 opositores

Porta-voz do governo afirmou que acusados 'conspiram para tentar abalar a estabilidade e a segurança da China'

O ativista Ben Chung é preso em Hong Kong (Foto: Peter PARKS / AFP)

O ativista Ben Chung é preso em Hong Kong (Foto: Peter PARKS / AFP)

Mundo

Mais de 50 pessoas, incluindo um advogado americano e dezenas de figuras da oposição pró-democracia, foram detidas nesta quarta-feira em Hong Kong durante a maior operação até agora com base na lei de segurança nacional imposta por Pequim.

Em 2020 as autoridades chinesas retomaram o controle da ex-colônia britânica, um ano depois de uma mobilização popular sem precedentes neste território semiautônomo desde sua devolução em 1997.

As detenções, muitas delas relacionadas com as primárias celebradas pela oposição no ano passado, ilustram o aumento da pressão de Pequim.

A polícia confirmou que 53 pessoas, incluindo um cidadão americano, foram detidas por “subversão” em uma operação que aconteceu durante a manhã e teve a participação de quase 1.000 agentes.

O secretário de Segurança de Hong Kong, John Lee, afirmou que as detenções eram “necessárias” e tinham como alvos pessoas que tentavam “afundar Hong Kong no abismo”.

Em Pequim, a porta-voz do ministério chinês das Relações Exteriores chino, Hua Chunying, afirmou que a medida afetava “apenas a liberdade de algumas forças externas e indivíduos em Hong Kong que conspiram para tentar abalar a estabilidade e a segurança da China”.

 

 

Anthony Blinken, nomeado pelo presidente eleito dos Estados Unidos, Joe Biden, como futuro secretário de Estado classificou as detenções como um “ataque contra os direitos universais”.

A União Europeia (UE) exigiu a “libertação imediata” dos detidos e alertou que examina eventuais sanções contra a China por sua intervenção no território.

 

 

Ex-deputados e jovens ativistas

A operação foi direcionada contra ex-deputados pró-democracia como James To, Andrew Wan e Lam Cheuk Ting, assim como contra ativistas mais jovens.

Entre estes últimos, dois confirmaram suas detenções em suas páginas do Facebook: Gwyneth Ho, uma ex-jornalista de 30 anos que passou a atuar no movimento pró-democracia, e Tiffany Yuen, uma conselheira distrital de 27 anos.

Pessoas ligadas a Joshua Wong, uma das figuras mais conhecidas do movimento pró-democracia, atualmente detido, informaram na página do Facebook do ativista que a casa dele foi alvo de uma operação.

Entre os detidos está o americano John Clancey, advogado da Ho Tse Wai and Partners, um escritório especializado em questões de direitos humanos.

Ele é o primeiro americano detido com base na lei de segurança nacional.

“Continuem trabalhando pela democracia e os direitos humanos em Hong Kong”, disse Clancey à imprensa quando era levado por policiais.

 

Protesto em Hong Kong, 2019 (Foto: Anthony Wallace/AFP)

 

“Uma provocação grave”

De acordo com nomes importantes do movimento pró-democracia, as detenções estão relacionadas com as primárias celebradas em julho pela oposição, antes das legislativas que estavam previstas para setembro.

Com o pretexto da epidemia de coronavírus, o governo adiou por um ano as eleições, nas quais a oposição pretendia capitalizar a popularidade da mobilização de 2019.

O objetivo das primárias, nas quais participaram mais de 600.000 cidadãos de Hong Kong, era evitar a dispersão dos votos da oposição e designar os 35 candidatos às cadeiras no Conselho Legislativo (Legco, Parlamento local) que são atribuídas por sufrágio universal. As demais são decididas de acordo com um sistema complexo que praticamente garante a maioria ao bloco pró-Pequim.

O objetivo da oposição era vencer as 35 cadeiras para conseguir pela primeira vez a maioria no Legco.

A China considerou as primárias uma “grave provocação” e a afirmou que fazer campanha para assumir o controle do Parlamento poderia ser considerado “subversão” com base na lei de segurança nacional que entrou em vigor em 30 de junho.

 

Transmissão ao vivo

Ng Kin-wai, conselheiro distrital, transmitiu ao vivo pelo Facebook a presença da polícia em sua casa.

“Você está preso por subversão”, afirmou um policial. “Você participou em eleições primárias (…) em 2020 para escolher 35 ou mais pessoas para o Conselho Legislativo”.

O agente disse ainda que as primárias “tinham como objetivo interferir, perturbar ou prejudicar gravemente” a ação do Executivo e, em consequência, são consideradas subversão.

Robert Chung, funcionário de um instituto de pesquisas que participou na organização das primárias, também foi detido.

A Lei de Segurança Nacional foi imposta por Pequim, sem debates no LegCo, para responder à crise política de 2019, quando Hong Kong foi cenário durante meses de manifestações quase diárias, e às vezes violentas, contra a interferência da China.

Os críticos da lei afirmam que o texto representa o último prego no caixão da semiautonomia de Hong Kong, apesar do sistema estar garantido, em tese, até 2047 sob o princípio “um país, dois sistemas”, que baseou a devolução.

O texto, redigido de forma muito vaga, o que segundo os críticos reforça o seu caráter ameaçador, indica quatro tipos de crimes: secessão, subversão, terrorismo e conluio com forças estrangeiras. A lei prevê penas de prisão perpétua.

Inicialmente, as autoridades afirmaram que a lei afetaria apenas uma “minoria extrema”. Mas rapidamente passou a ser usada para sufocar a dissidência e criminalizar a expressão de algumas opiniões políticas.

 

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