Bolsonaro contrariou números e fez um dos discursos mais vazios da história da ONU, dizem especialistas

'Seria melhor que não tivesse dito nada', diz secretário do Observatório do Clima; 'Não respeitou inteligência alheia', diz professor de RI

O presidente Jair Bolsonaro, durante gravação de discurso para a 75ª Assembleia Geral da ONU. Foto: Marcos Corrêa/PR

O presidente Jair Bolsonaro, durante gravação de discurso para a 75ª Assembleia Geral da ONU. Foto: Marcos Corrêa/PR

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Ao discursar na Assembleia Geral das Nações Unidas pela segunda vez, o presidente Jair Bolsonaro voltou a atacar o trabalho da imprensa, atribuiu as queimadas nas florestas à ação de caboclos e índios, citou a hidroxicloroquina como meio de tratamento para a Covid-19 e, novamente, dedicou parte do discurso para alvejar o seu maior rival na América do Sul, o presidente da Venezuela, Nicolás Maduro.

Especialistas ouvidos por CartaCapital analisaram uma sequência de pontos críticos do discurso de Bolsonaro na ONU. Especialmente sobre a gestão ambiental, o presidente disse que sofre “campanhas brutais de desinformação” sobre a Amazônia e o Pantanal, acusou organizações internacionais de agir por “interesses escusos” e culpou associações brasileiras por ações “aproveitadoras e impatrióticas”.

Além disso, Bolsonaro disse que “nossa floresta é úmida e não permite a propagação do fogo em seu interior”.

“Os incêndios acontecem praticamente nos mesmos lugares, no entorno leste da floresta, onde o caboclo e o índio queimam os seus roçados em busca de sua sobrevivência em áreas já desmatadas. Os focos criminosos são combatidos com rigor e determinação”, disse.

Para o secretário-executivo do Observatório do Clima, Marcio Astrini, o presidente deveria ter apresentado um plano para conter a devastação das florestas, no entanto, preferiu negar o problema. Na avaliação do ambientalista, foi um discurso ruim em um momento tão delicado para o País no cenário internacional.

“Ao invés de apresentar um plano para os problemas ambientais, ele resolveu negar, colocar culpa em teorias da conspiração, terceirizar a responsabilidade, dizer que é uma vítima de interesses escusos com o objetivo de prejudicar o governo dele”, diz Astrini.

“Ninguém acredita mais nisso, mesmo porque os números comprovam que tudo isso não passa de uma criação dele próprio”, examina.

Astrini afirma que o governo federal não usa o orçamento voltado para a proteção do meio ambiente. De acordo com levantamento do Observatório do Clima, o Ministério do Meio Ambiente não usou nem 1% do dinheiro destinado a programas de conservação.

No Pantanal, pelo menos 20% do bioma está afetado, diz Astrini, com aumento de mais de 200% em focos de incêndio, enquanto as multas ambientais diminuíram 47% no mesmo período. Já na Amazônia, os alertas de desmatamento dobraram na região depois que o presidente tomou posse.

“Você tem números que expõem a realidade e são negativos. E o presidente diz que na verdade tem uma boa ação, e que tudo o que é divulgado é conspiração. Isso isola o País no cenário internacional. Principalmente no cenário ambiental, seria melhor que o presidente não tivesse dito nada”, conclui.

Discurso de Bolsonaro despreza a ONU, diz pesquisador

Roberto Goulart Menezes, doutor em Ciência Política e professor de Relações Internacionais na Universidade de Brasília (UnB), diz que o discurso de Bolsonaro “não respeitou a inteligência alheia” e foi “um dos mais vazios pronunciados na Assembleia Geral da ONU”.

Na linha de Astrini, Goulart Menezes diz que o discurso foi “um desprezo pela própria ONU” na parte ambiental, por atribuir os incêndios florestais aos caboclos e povos indígenas.

“Bolsonaro apequena o Brasil e usa esse importante espaço para fazer a defesa de seu governo naquilo que ele é mais indefensável: a política ambiental”, comenta.

Para o pesquisador, Bolsonaro não centrou o seu discurso pela lógica reformista da ordem internacional e pelo princípio do multilateralismo.

Apesar de Bolsonaro ter dito que “estamos abertos para o mundo” e citado acordos de cooperação, relacionados a países do Atlântico Sul e nações árabes próximos a Israel, o pesquisador avalia que, na verdade, houve demonstração de alinhamento aos Estados Unidos e agressões gratuitas a outros países.

Goulart Menezes observa que Bolsonaro dedicou boa parte do discurso para elogiar a política externa do presidente Donald Trump para o Oriente Médio, ao citar como “excelente notícia” o acordo de paz de Israel com os Emirados Árabes e dizer que “saúda o Plano de Paz e Prosperidade” lançado pela Casa Branca à região.

“Um roteiro conhecido de todos e que serve para reafirmar o alinhamento incondicional aos Estados Unidos de Trump”, analisa o pesquisador.

O professor também verificou uma ataque indireto à China, quando Bolsonaro citou que “não podemos depender de apenas uma das poucas nações para produção de insumos essenciais” e que, nesta linha, o Brasil está aberto para o desenvolvimento da tecnologia 5G “com quaisquer parceiros que respeitem nossa soberania, prezem pela liberdade e pela proteção de dados”.

“Ele atacou a China indiretamente ao descrever as condições para se participar do 5G no Brasil. Uma agressão gratuita, a fim de se perfilar aos Estados Unidos”, considera.

Um dos trechos mais graves para Goulart Menezes foi acusar a Venezuela de derramar óleo nos mares brasileiros de forma criminosa.

Na ocasião, Bolsonaro afirmou que, em 2019, “o Brasil foi vítima de um criminoso derramamento de óleo venezuelano, vendido sem controle”, e num momento posterior culpou a “ditadura bolivariana” pelo deslocamento de 400 mil venezuelanos ao território brasileiro.

“Não há nenhuma comprovação”, diz o professor. “É uma acusação grave, porque mostra que a Venezuela ataca o Brasil e o país não reage. Há uma suspeita, ele tomou como certa.”

Outro destaque de Goulart Menezes foi a defesa da religião nas relações internacionais.

No discurso, Bolsonaro fez um apelo pelo “combate à cristofobia”, dizendo que defende a liberdade religiosa e ressaltando que “o Brasil é um país cristão e conservador”, com a “família na sua base”.

“Ele se assume abertamente de extrema-direita”, analisa o professor.

“Finalizou o discurso afirmando que o Brasil é conservador e cristão e fez a defesa da família tradicional. Em suma, para um País que se tornou uma pária internacional, Bolsonaro só contribuiu para confirmar o que já se sabe: a democracia no Brasil está sob forte ataque e as fake news guiam o governo.”

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Repórter do site de CartaCapital

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