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As teorias da conspiração dos eleitores de Trump

Diante da provável vitória do democrata Joe Biden na semana que vem, atual presidente agarra-se a qualquer chance de mudar o resultado

FOTO: ISTOCKPHOTO / ILUSTRAÇÃO: PILAR VELLOSO FOTO: ISTOCKPHOTO / ILUSTRAÇÃO: PILAR VELLOSO
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Em 5 de julho, a brasileira Ana Marins publicou no YouTube um vídeo intitulado Sandra Bullock, Ellen Degeneres e Alguns Brasileiros: Reflexão. Ao longo da transmissão, ela exibe fotos de Luciano Huck ao lado de celebridades como Will Smith, Naomi Campbell e Chelsea Clinton, a filha de Bill e Hillary Clinton. A impressão de banalidade logo se desfaz.

“A Chelsea Clinton é conhecidamente uma pessoa que pratica o satanismo. Tem um restaurante que ela frequentava lá em Los Angeles que tinha no cardápio carnes. Mas não era carne bovina, carne de frango, era carne humana”, crava. E emenda: “Só era frequentado por pessoas muito ricas e muito selecionadas. A Kim Kardashian ia, a Hillary Clinton ia. A Meryl Streep era frequentadora assídua”.

Dona de um canal que se descreve como “consciência, reflexão e aprimoramento”, Marins é uma das dezenas de youtubers que têm traduzido para o português o QAnon, uma bisonha e rocambolesca teoria pró-Trump. Em linhas gerais, seus seguidores creem que o presidente norte-americano é um herói que protege o mundo de uma cabala global, satanista e pedófila, entranhada na política e no show business.

A falta de conexão com a realidade não impediu a migração do QAnon dos porões da internet para as ruas. O FBI classificou-o como ameaça de terrorismo doméstico. O Facebook e o YouTube varreram milhões de bytes em conteúdo conspiratório de seus servidores.

Paradoxalmente, essas ações apenas reforçam as crenças de quem segue essa teoria.

A adesão ao QAnon é firmemente baseada em “pesquisas” online. Seus seguidores são encorajados a aprender mais sobre a teoria e a decodificar pistas. Além do declínio da confiança nas instituições, esse novo conspiracionismo se beneficia da erosão do noticiário local e de uma dinâmica das redes sociais que não apenas favorece, mas recompensa a desinformação.

“No modelo de negócios do YouTube, esse é o conteúdo ideal, porque gera engajamento. A possibilidade de a pessoa encontrar um conteúdo pela primeira vez e achar coisas ainda mais aprofundadas, a partir da promessa de resolver mistérios, dar uma informação que a mídia tradicional esconde. É muito sedutor. Quanto mais engajado, mais tempo o usuário passa na tela, mais dados entrega ao YouTube e mais é exposto à publicidade”, analisa Dayane Machado, pesquisadora da Unicamp especializada em desinformação sobre saúde na plataforma.

Talvez por isso o mercado seja tão variado. “Esses canais nunca falam de uma só coisa. Quem fala de terraplanismo também trata de crenças religiosas e, lá no meio, vamos encontrar desinformação sobre a vacina. Há aqueles que se apresentam como ex-estudantes da USP, geólogos. Mas nunca falam de geologia. Falam de religião. Logo começa a tratar de arrebatamento, noutro vídeo explicam o porquê de a Terra ser plana. É uma miscelânea.”

Uma elite satanista, pedófila e canibal pretende dominar o mundo e derrotar os escolhidos de Deus, Trump entre eles 

O rumores do QAnon começaram em 2017, mas ganharam novo impulso com as revelações do caso Jeffrey Epstein, bilionário norte-americano condenado por tráfico sexual de menores, encontrado morto na prisão em agosto do ano passado. A teoria acusa a “elite” de operar uma enorme rede de pedofilia no planeta, mas ignora um fato: Epstein era um grande amigo de Trump.

O pai fundador do QAnon é Q, usuário de fóruns anônimos da internet que se apresenta como funcionário da alta cúpula do governo. Embora pareça fruto dos nossos tempos, o QAnon é um remake de teorias antissemitas. A ideia de uma confraria secreta que domina o mundo bebe diretamente dos Protocolos dos Sábios de Sião, documento falso que ao longo do século XX serviu de justificativa para o ódio aos judeus. Outro cânone do QAnon, a existência de uma substância química extraída do sangue de crianças que prolonga a beleza e a juventude, remete aos libelos de sangue, que desde a Grécia antiga associam os judeus a rituais de sacrifício infantil e canibalismo.

O clima de neurose generalizada foi impulsionado pela pandemia do coronavírus. Na extrema-direita prevalece a ideia de que o vírus teria sido criado em laboratório, como parte de um plano da China para acelerar o processo em curso de dominação. Segundo um levantamento do Pew Research Center, um em cada quatro cidadãos dos EUA vê um fundo de verdade na teoria. Não só lá. Adeptos do QAnon foram vistos em Londres, Berlim e, discretamente, em protestos pró-Bolsonaro no Brasil.

Teorias da conspiração seduzem os norte-americanos desde ao menos a independência do país. Na virada do século XVIII para o XIX, muitos estavam convencidos de que os maçons conspiravam contra o governo. No século XX, o macarthismo alimentou uma onda de delírios anticomunistas até hoje em voga.

Diante da provável vitória do democrata Joe Biden, Trump agarra-se a qualquer chance de mudar o resultado. Recentemente, chamou os QAnoners de “pessoas que amam o nosso país”, e conta com eles para semear a desconfiança em relação ao processo eleitoral. O avanço do conspiracionismo moderno não é meramente ideológico.

Dezenas de candidatos simpáticos ao QAnon concorreram ao Congresso. E ao menos três venceram as primárias republicanas. Com ou sem Trump na Casa Branca, a viagem coletiva dos seguidores do Q parece longe de acabar.

*

A seguir, conheça os termos e slogans mais populares entre os adeptos do QAnon:

WWG1WGA

Sigla para Where We Go One We Go All (Para onde um vai, vamos todos), grito de guerra extraído do filme Tormenta (1996), mas erroneamente atribuído ao presidente John F. Kennedy.

The Great Awakening

Os crentes do QAnon acreditam que os militares dos EUA, ávidos por derrubar o deep state, convocaram Trump para concorrer à Presidência. E que, apesar dos esforços da mídia, ele tem vencido, pois Q tem feito vazamentos para o público. Esse processo precederia uma espécie de apocalipse, chamado de Operação Tempestade.

Operação Tempestade

Momento em que os líderes do deep state serão presos e enviados para a Baía de Guantánamo. Na tradição QAnon, o presidente Trump trabalharia em segredo com o conselheiro especial Robert Mueller para apressar o Dia do Julgamento.

Adrenocromo

Substância extraída do sangue das vítimas de tráfico e ingerida por atrizes de Hollywood para prolongar a beleza e a juventude.

Publicado na edição n.º 1130 de CartaCapital

Thais Reis Oliveira

Thais Reis Oliveira
Editora-executiva do site de CartaCapital

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