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Após massacre em escola, Sérvia rediscute posse de armas

Aluno de 13 anos matou oito colegas, em atentado inédito no país dos Bálcãs. Agressor usou pistolas compradas legalmente por seu pai. Governo anuncia que vai redobrar fiscalização e discute moratória em novos registros

Foto: Andrej ISAKOVIC / AFP
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O governo da Sérvia anunciou nesta quinta-feira (04/05) a ampliação do controle sobre posse de armas e munições, um dia após um aluno de 13 anos ter assassinado oito colegas e um segurança e deixado outras seis pessoas feridas em um ataque em sua escola, em Belgrado. O agressor usou duas pistolas compradas legalmente por seu pai.

Episódios do tipo notabilizaram-se nos Estados Unidos e vêm se repetindo também no Brasil. Na Sérvia, foi o primeiro atentado armado do gênero, o que levou o presidente Aleksandar Vucic a declarar que o país enfrentava uma das situações mais difíceis em sua história moderna.

O ataque ocorreu em Vracar, um bairro de classe média tranquilo e silencioso. Na manhã de quarta-feira, Kosta K. chegou à escola carregando na sua mochila duas armas registradas em nome de seu pai, munições e coquetéis molotov. Depois de executar o massacre, ele telefonou para a polícia e aguardou no local.

Peritos criminais localizaram 56 invólucros de bala na área do crime. A polícia informou que o agressor havia planejado o ataque por um mês e levava consigo um rascunho com a disposição das salas da escola e uma lista de pessoas que seriam mortas. Ele se manteve calmo durante o interrogatório, e está internado em uma clínica psiquiátrica para avaliação – seus pais foram detidos.

As vítimas fatais eram seis meninas e um menino, nascidos de 2009 a 2011. Outros seis estudantes e um professor seguem internados – dois dos alunos, em estado grave.

Kosta K. era considerado um aluno quieto e com bom desempenho. Pais de diversos alunos relataram à imprensa local que ele já havia sofrido bullying, e por esse motivo havia mudado de sala de aula. Segundo a polícia, ele disse em seu interrogatório que era excluído de jogos ou conversas com seus colegas, e que isso o teria levado a cometer o crime.

Controle de armas e maioridade penal

Em reação ao ataque, o Ministério do Interior afirmou em nota que irá realizar uma ampla fiscalização “para determinar se os proprietários de armas as mantêm de acordo com as normas em vigor, separadas de munições, e trancadas em armários e cofres adequados”.

Vucic também disse que iria propor uma moratória de dois anos na expedição de novas autorizações de posse de armas, exceto para aquelas usadas por caçadores. Ele sugeriu ainda reduzir a maioridade penal para 12 anos.

A Sérvia tem leis consideradas rigorosas para a posse de armas, mas o país está repleto de armas não registradas que sobraram dos conflitos ocorridos na região nos anos 1990.

Luto pelos mortos

A escola onde ocorreu o ataque é considerada uma das melhores de Belgrado. Na noite após o crime, muitos moradores foram ao local e deixaram velas e flores. Pais compareceram com seus filhos, e pequenos grupos de estudantes se reuniam na frente do estabelecimento e se consolavam.

“Algumas dessas crianças [mortas] costumavam ir à minha casa e passar tempo com meu filho”, disse um pai à DW. “Depois que peguei meu filho na escola e cheguei em casa, comecei a tremer. Em seguida, dei um sedativo ao meu filho e deixei que ele dormisse.”

Presidente expõe detalhes do agressor

Vucic interveio na cobertura do caso logo após o crime, convocando uma coletiva de imprensa e apresentando detalhes sobre a ficha médica do agressor e a renda de seus pais – alguns veículos recusaram-se a reproduzir essas informações.

A fala de Vucic fez parecer que Kosta K. vinha de uma família rica e não tinha muitos amigos.

O ministro da Educação, Branko Ruzicm, culpou em uma declaração a suposta influência “cancerígena” dos videogames e “dos chamados valores ocidentais” pelo crime, sem especificar o que queria dizer com isso.

“É uma grande tragédia”, disse o sociólogo Jovo Bakic à DW. “As pessoas estão angustiadas pelo luto e pelo horror, porque qualquer um de nós poderia se ver nessa situação, seja como vítima ou testemunha. As pessoas tentam explicar os motivos, ao menos para se acalmarem um pouco, e então buscam culpados. Nesse processo, as pessoas referem-se mais a si mesmas quando querem ‘encontrar’ o culpado”, disse. Por exemplo, nacionalistas anti-Ocidente botariam a culpa no Ocidente, a oposição, no governo, e alguns pais, nos professores.

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