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Na prática a teoria é outra

As recentes ações do regime mostram que a vitória proclamada por Trump não passa de balela

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Na prática a teoria é outra
Retórica. O republicano canta loas, mas não tem nada de novo a oferecer. Mohammad Bagher Ghalibaf, presidente do Parlamento iraniano, mantém o tom – Imagem: Atta Kenare/AFP e David Becker/Getty Images/AFP
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Oficialmente, Estados Unidos e Irã têm um acordo de cessar-fogo. Na teoria, a guerra está resolvida. Os iranianos não podem espalhar minas explosivas pelo Estreito de Ormuz. Também estão proibidos de atacar embarcações civis com mísseis, lanchas e drones. A julgar pelo que o presidente norte-americano, Donald Trump, diz, a situação está congelada e sob controle, com suas forças impondo um cerco naval efetivo contra os iranianos.

Na prática, entretanto, a realidade é outra. Passados mais de três meses do início da guerra, o Irã ainda determina quem pode ou não transitar pelo estreito por onde, antes, era escoado 25% do petróleo mundial e 20% do gás natural, além de fertilizantes e outras commodities fundamentais para o comércio mundial. O país não apenas exerce controle por meio de amea­ças, mas filma e publica na mídia estatal operações nas quais drones e lanchas rápidas interceptam e atacam embarcações, inclusive com disparos de foguetes e mísseis. Essa situação de impasse prolongado fez o preço do barril do petróleo voltar a subir e chegar a 96 dólares.

Nada no cenário atual comprova a tese difundida por Trump de que os Estados Unidos estejam vencendo a guerra que iniciaram de maneira unilateral e ilegal, no Oriente Médio, em 28 de fevereiro. Por mais que o presidente norte-americano vá às redes sociais proclamar seu triunfo ou que seu secretário de Estado, Marco­ ­Rubio, faça o mesmo nas audiências às quais tem sido convocado a comparecer no Senado, a verdade é que o regime iraniano não caiu e, mais importante, o programa nuclear, a própria razão alegada para iniciar o conflito, permanece imutável.

Estados Unidos e Israel dizem que o Irã possui uma quantidade de urânio enriquecido que poderia ser usada para fabricar ao menos dez bombas atômicas. Teerã costumava negar essa informação, dizendo que a intenção do programa sempre foi civil. Depois dos ataques iniciados em fevereiro, e da total inação das demais potências e das Nações Unidas em propor uma solução negociada para a guerra, tornou-se difícil, no entanto, negar que os líderes do regime iraniano hoje consideram a bomba atômica seu único seguro de vida. Norte-americanos e israelenses tentam destruir as usinas capazes de processar esse urânio desde 2025. Os serviços de inteligência de ambos os países dizem saber que esse material está guardado em depósitos subterrâneos e, se atacados, podem liberar material radioativo na atmosfera.

Uma alternativa aos ataques foi tentada antes, pela via diplomática, sem sucesso. A ideia inicial era atrelar o Irã a acordos segundo os quais o país entregaria o urânio para ser enriquecido no exterior em níveis que só permitissem o uso civil. A proposta funcionou de 2015 a 2018, quando então Trump derrubou o que chamou de “pior acordo do mundo”, substituindo-o pela ideia de simplesmente bombardear o território e forçar a queda do regime instaurado em 1979 pelos aiatolás.

Os iranianos continuam a atacar vizinhos do Golfo e mantêm o bloqueio em Ormuz

Os bombardeios não surtiram os efeitos esperados. Além disso, tiveram a consequên­cia nefasta de espalhar a guerra pelos arredores, pois uma das reações do Irã foi a de atacar bases norte-americanas instaladas em vizinhos do Golfo Pérsico. Na quarta-feira 3, um ataque de drones a um aeroporto no Kuwait deixou um saldo de um morto e 60 feridos. Além disso, o Bahrein disse ter interceptado no mesmo dia uma série de ataques com mísseis e drones.

Para especialistas no assunto como o diplomata Eduardo Gradilone Neto, embaixador do Brasil em Teerã por dois anos, a situação de impasse atual era previsível. “Um Irã acuado pode ser levado a atos extremos para elevar o custo de uma capitulação imposta pelos EUA”, escreveu em artigo recente, publicado no think tank Esfera Brasil. De acordo com o diplomata brasileiro, “acionar minas, fechar vias ou destruir cabos marítimos seriam medidas drásticas e quase suicidas, mas a Guarda Revolucionária age, hoje, sem freios internos e tem como aliada a repulsa à intervenção externa que une considerável parcela de uma população de 90 milhões de habitantes que preza sua soberania e está marcada por intervenções passadas”.

Além desses elementos internos, a guerra no Irã está indissociavelmente atrelada a outra frente, no Líbano, onde o grupo armado xiita Hezbollah, que tem fortes laços com Teerã, enfrenta as forças israelenses na região de fronteira. O conflito nessa zona, que, no fundo, está ligado a questões que perduram há décadas, foi reavivado desde fevereiro, com o assassinato do líder supremo iraniano, Ali ­Khamenei. No dia da morte, 28 de fevereiro, o Hezbollah disparou uma salva de foguetes contra o norte de Israel, o suficiente para Benjamin Netanyahu lançar uma ação militar tão robusta e violenta que devastou porções inteiras do sul do Líbano e até mesmo lugares importantes da capital, Beirute, provocando o deslocamento de milhares de civis e levantando temores de que uma ocupação militar prolongada do país vizinho esteja em curso.

O conflito nesse front importa para o Irã, porque ele entra como uma das condições para um cessar-fogo geral. Os iranianos querem que Israel pare de atacar o Hezbollah no Líbano, mas Netanyahu não dá sinais de que pretenda fazer essa concessão, especialmente em um momento em que seu país se prepara para uma nova eleição parlamentar que pode pôr fim ao mandato do primeiro-ministro. A guerra tem sido um dos principais motores da campanha política de Netanyahu, que enfrenta ao menos dois processos judiciais que, certamente, terão seguimento se ele deixar o cargo e perder a imunidade a que tem direito.

Além dele, Trump também se aproxima de eleições parlamentares que, nos Estados Unidos, podem dar aos rivais democratas o controle do Senado e da Câmara. A guerra no Irã é um dos elementos de maior impopularidade para o líder republicano, que enfrenta críticas até mesmo de correligionários. Sem ter um cessar-fogo e um acordo de paz reais a oferecer às suas bases, resta ao republicano vender a ilusão de que a guerra acabou e ele venceu. •

Publicado na edição n° 1416 de CartaCapital, em 10 de junho de 2026.

Este texto aparece na edição impressa de CartaCapital sob o título ‘Na prática a teoria é outra’

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