A saída de Netanyahu do poder não muda a política israelense de forma substancial

Yair Lapid e Naftali Bennett, líderes do novo governo, compartilham a mesma visão do futuro ex-premier

O novo primeiro-ministro de Israel, Naftali Bennett (dir.), e o primeiro-ministro suplente e ministro das Relações Exteriores Yair Lapid durante um discurso no Knesset em Jerusalém. Tudo igual? (Foto: COHEN-MAGEN / AFP)

O novo primeiro-ministro de Israel, Naftali Bennett (dir.), e o primeiro-ministro suplente e ministro das Relações Exteriores Yair Lapid durante um discurso no Knesset em Jerusalém. Tudo igual? (Foto: COHEN-MAGEN / AFP)

Mundo

No domingo 13, o Congresso de Israel, com os integrantes eleitos em março, realizou a sessão do voto de confiança para confirmar o novo governo liderado por Yair Lapid e Naftali Bennett, o que poria fim a 12 anos de Benjamin Netanyahu no poder. Como previsto, 60 dos 119 congressistas presentes confirmam o novo governo. Por um acordo de rotatividade, segundo o jornal Haaretz, Bennett será primeiro-ministro nos dois primeiros anos, período em que Lapid servirá como ministro das Relações Exteriores. Se a coalizão não desmoronar, Lapid será primeiro-ministro e Bennet ministro do Interior na segunda metade do mandato.

Mesmo sob nova administração, as mudanças devem ser marginais e não afetarão os grandes temas da política local. Dahlia Scheindlin, analista política e pesquisadora de opinião pública em Israel,­ disse a CartaCapital: “O que pode mudar é o aspecto da governança, por meio de maior cooperação como método entre os integrantes da coalizão”. Uma indicação seria o fato de Bennett portar-se nas coletivas de forma muito diferente de seu estilo. Ele, inclusive, tem falado da importância de se firmar um compromisso, “usando frases do discurso de Lapid, como ‘podemos discordar sem sermos inimigos’”.

Internamente, o novo governo assume diante de um revigoramento da resistência palestina

Scheindlin não descarta a continuidade da política israelense em vários sentidos. “Acho que é erro atribuir tudo a Netanyahu. Isso porque alguns que vão assumir cargos no novo governo participaram do ‘jeito Netanyahu’ de governar, particularmente Bennet e Ayelet Shaked”. A nova coalizão, diz a analista política, poderia tentar reformar o Judiciário, que na prática é forma de minar a independência dos magistrados. “Nesse sentido seria uma continuidade, pois o Ministério da Justiça no governo do Likud esteve sob o comando de Ayelet Shaked. Ela havia tentado fazer a mudança.”

Internamente, o novo governo assume diante de um revigoramento da resistência palestina, que, entre outros pontos, procura desafiar a fragmentação territorial imposta por Israel. Fayrouz Sharqawi, ativista palestina e coordenadora da organização Grassroots Jerusalem, afirma que a unificação dos movimentos palestinos nos diferentes fragmentos do território – Faixa de Gaza, Cisjordânia, Jerusalém e “48” (como ela se refere a Israel) – foi o fator mais importante dos eventos de maio. “Foi uma demonstração, aos colonizadores e também a nós, de que somos um só povo colonizado em uma única luta por liberdade e autodeterminação.” A advogada da organização palestina Adalah, Suad Bishara, diz que os eventos de maio expuseram como estamos “sob a mesma autoridade, ainda que por estruturas legais diversas. Seja como cidadã, em Israel, sob ocupação, como na Cisjordânia, ou sob cerco, como em Gaza, vivemos sob o mesmo controle”.

Para as palestinas, a mudança do “nome pendurado no escritório do primeiro-ministro” do regime que a Human Rights Watch classificou como intencionado a manter a supremacia judaica, não oferece qualquer transformação de políticas. Bennett, que entrou na política em 2006 como assessor de Netanyahu, foi CEO do Conselho de Assentamentos na Cisjordânia ocupada. Como ministro da Educação, em 2013, instituiu a proibição de que ex-soldados da organização Breaking the Silence, que reporta abusos nos Territórios Ocupados, pudessem fazer palestras em escolas. O diário Yedioth ­Ahoronot reportou que, também em 2013, como Ministro da Indústria, Comércio e Trabalho, o futuro premier disse que, “se pegar terroristas, você deve apenas matá-los”. Ao ser lembrado por um integrante do governo que tal prática era ilegal, retrucou: “Eu matei muitos árabes na minha vida. E não há nenhum problema com isso”. Ainda em 2013, à revista New Yorker, afirmou: “A terra é nossa. (…) Farei tudo a meu alcance, sempre, contra a fundação do Estado palestino na Terra de Israel”.

A presença do partido árabe-palestino Ra’am, de Mansour Abbas, na coalizão poderia oferecer alguma mudança. O grupo, que conseguiu quatro cadeiras no ­Knesset, surge de uma dissidência da Lista Conjunta, a composição de partidos palestinos que concorreu sob uma agenda nacional de igualdade. O movimento partia do abandono da resistência e da luta pela terra para dedicar-se à melhora da vida dos palestinos em Israel. Ao mesmo tempo, expunha a agenda religiosa conservadora, compartilhando com a direita israelense judaica a centralidade da religião na política. Abbas demandou políticas contra a violência em cidades árabes e uma reversão do não reconhecimento de vilas no deserto do Naqab/Negev, como ­Al-Araqib, demolida 186 vezes até abril deste ano. Para Bishara, não importa, no entanto, o acordo que Abbas consiga fazer com a coalizão. “Os temas relacionados às causas profundas do confronto permanecem porque vão ao cerne da definição do Estado de Israel como judeu, vão ao cerne de como essa definição se traduz em suas leis.”

Tudo igual? Lapid e Bennett acertaram um revezamento no cargo de premier. Netanyahu se manteve 12 anos no poder, à frente de um governo disfuncional. (FOTO: Gali Tibbon/AFP e Eyal Warshavsky/JFNA)

O pesquisador Raef Zreik, em conversa com a reportagem após a eleição, em meados de abril, analisava a participação de Abbas como símbolo do desgaste da agenda de resistência dos palestinos em Israel. “Por muitos anos, as duas demandas eram igualdade para todos e desafio à natureza judaica do Estado.” O problema é que a reivindicação de igualdade chegou a um impasse porque Israel reagiu com polícia, serviços de segurança, elites e mídia contra qualquer questionamento à natureza do Estado. A partir daí, há dois caminhos. “Em um, você intensifica a luta a um nível internacional, pedindo sanções contra Israel, ou promove formas de desobediência civil que desafiem a desigualdade permanente. O segundo é recuar e aceitar a supremacia judaica. Em suma, é isso que Abbas está dizendo a seus constituintes: vamos aceitar o fato de sermos cidadãos de segunda classe.”

PUBLICADO NA EDIÇÃO Nº 1161 DE CARTACAPITAL, EM 13 DE JUNHO DE 2021.
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Doutorando em Relações Internacionais no programa de Pós-Graduação San Tiago Dantas (UNESP, UNICAMP, PUC-SP), membro do Grupo de Estudos sobre Conflitos membro do Grupo de Estudos sobre Conflitos Internacionais e do Instituto Nacional de Ciência e Tecnologia para Estudos sobre os Estados Unidos

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