Justiça
Warner vai ao Supremo contra decisão do STJ que embargou documentário sobre os Arautos do Evangelho
Determinação do ministro Benedito Gonçalves que atendeu pedido da própria ordem, vedou menção a investigações sobre abusos nos internatos do grupo católico
O conglomerado de mídia Warner Bros. Discovery, dono da HBO, apresentou ao Supremo Tribunal Federal, em caráter urgente na sexta-feira 20, um pedido de liminar para garantir a exibição de uma série documental sobre o grupo religioso Arautos do Evangelho.
A ação busca reverter uma decisão do Superior Tribunal de Justiça que proibiu a produção de citar investigações oriundas de um inquérito que mira supostos abusos cometidos pela ordem ultraconservadora católica contra alunos e clérigos dos internatos mantidos pela instituição.
Para a Warner, a medida configura censura prévia. O argumento central é que, por não ser parte no inquérito, a companhia não tem acesso aos autos nem às informações protegidas por sigilo. Ainda assim, estaria impedida de exibir o documentário sob a justificativa de que dados apurados de forma independente — e que, destaca a petição, não estão submetidos a segredo de Justiça — poderiam coincidir com os que constam na investigação.
Em nota, a Warner reforçou seu compromisso com a “produção responsável de obras jornalísticas e documentais pautada por rigor investigativo, ética, interesse público e respeito às instituições”. A empresa também disse manter o “propósito de contribuir para debates informados e necessários à sociedade e defende que a liberdade de expressão é um dos pilares fundamentais da democracia”.
Escravos da Fé: Os Arautos do Evangelho tinha previsão de estrear ainda neste ano. Em novembro do ano passado, a Endemol Shine anunciou apenas que o documentário investigativo com três episódios seria lançado em 2026 e abordaria “as controvérsias envolvendo os Arautos do Evangelho, das denúncias de abuso e manipulação psicológica às investigações conduzidas pelo Vaticano, passando por decisões judiciais e episódios que repercutiram em todo o país”.
O ministro do STJ, Benedito Gonçalves, proibiu a Warner de citar as informações sobre o grupo após analisar um pedido do Instituto Educacional Arautos do Evangelho. Para o magistrado, a veiculação do documentário, antes do trânsito em julgado, “atentaria contra a privacidade das partes envolvidas, divulgando e expondo dados sensíveis protegidos pelo segredo de justiça, esvaziando, ao fim e ao cabo, eventual provimento jurisdicional definitivo”.
Criado no Brasil pelo monsenhor João Clá Dias, o grupo Arautos do Evangelho se espalhou por mais de 70 países. Em 2019, CartaCapital publicou diversas reportagens com relatos de ex-integrantes e pais de crianças e adolescentes que viveram nos internatos educacionais do grupo, presenciando episódios de abuso psicológico, humilhações e assédio.
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