Justiça

Os reitores do bolsonarismo avançam sobre universidades federais

Em Mossoró, reitora da Universidade Federal do Semi-árido que ficou em 3º lugar, pregou um quadro de Costa e Silva em seu gabinete

O PRESIDENTE JAIR BOLSONARO. FOTO: EVARISTO SA/AFP
O PRESIDENTE JAIR BOLSONARO. FOTO: EVARISTO SA/AFP
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“Coisas absurdas têm acontecido dada a autonomia das universidades”, disse Jair Bolsonaro em julho de 2019. Ele e olavistas como o ex-ministro Abraham Weintraub nunca esconderam o desejo de encoleirar as universidades públicas, docilizando um dos mais notórios focos de resistência ao seu programa de desmonte do Estado.

O bolsonarismo entendeu que não é possível dobrar as instituições federais de ensino superior sem bater de frente com a autonomia que o artigo 207 da Constituição lhes garante. Sabe que ainda não há clima para nomear juntas militares para administrar campi de todo o Brasil. Tanto que encontrou uma forma mais sutil de colocar seus cupinchas na direção de universidades públicas: desrespeitando as eleições para reitor.

Até agora pelo menos 14 delas tiveram seus resultados eleitorais ignorados. Na Universidade Federal do Sul e Sudeste do Pará (Unifesspa), o nomeado para reitor obteve apenas 6,9% dos votos, enquanto o primeiro colocado angariou 84,4%. O roteiro se repetiu na Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS), onde também fora nomeado o terceiro colocado, deixando ainda mais clara a sistemática política de intervenção para desestruturar o ensino público superior, sufocar o pensamento crítico e perseguir opositores.

O pior é que sempre há professores candidatos ao posto de correia de transmissão do bolsonarismo

No Instituto Federal de Educação Tecnológica do Rio Grande do Norte (IFRN), o interventor nomeado sequer participou do processo eleitoral, sendo uma indicação do General Girão (PSL-RN), um caricato deputado federal bolsonarista que chegou a solicitar o envio de tropas federais para reprimir manifestações estudantis. Ainda em solo potiguar, a Universidade Federal Rural do Semi-Árido (UFERSA) vem passando por situação semelhante à do IFRN. É no seu principal campus, em Mossoró, que vem acontecendo o mais escrachado caso de subserviência ao bolsonarismo de que se tem notícia.

O candidato Rodrigo Codes foi o primeiro colocado na eleição para a reitoria da UFERSA, com 37% dos votos válidos. A nomeada, contudo, foi Ludimilla Oliveira, embora tenha conseguido apenas 18% e terminado na terceira colocação. “Há quem chegue às maiores alturas para cometer as maiores baixezas”, diria certo ex-ministro do STF diante do que ela foi capaz de fazer para chegar onde chegou.

Antes da abertura das urnas, Ludimilla articulava-se com parlamentares para garantir que o vencedor das eleições fosse o nomeado para o cargo. Esbanjando confiança, qualificava como intervenção o eventual desrespeito à vontade da comunidade acadêmica, opinião que, segundo afirmou em áudios de WhatsApp tornados públicos pela imprensa, compartilhava com a bancada bolsonarista do RN – com exceção do General Girão, aquele mesmo que indicou o interventor do IFRN. Confiante de que seria sufragada pelos estudantes, técnicos e professores da UFERSA, Ludimilla perambulava por Brasília atrás de emissários que convencessem Bolsonaro a escolher o primeiro da lista tríplice.

Deu ruim. Tão logo as urnas foram abertas, deparou-se com a dura realidade de não ser tão benquista como acreditava. Abraçou, então, a tática do vale-tudo para se tornar reitora, apagando das suas redes quaisquer sinais que pudessem indicar o mais tímido lampejo de relação com pautas progressistas. Comprou o pacote completo, do fundamentalismo de Damares a esforços públicos para mostrar que é Bolsonaro desde criancinha.

Deu certo. Bolsonaro identificara em Mossoró uma preposta do seu obscurantismo mussolinista, chegando a prestigiar in loco sua nova soldada. Nomeada nessas circunstâncias, Ludimilla não demorou para se deparar com os infortúnios da democracia. Precisava afinar o discurso com o do seu novo clube. O que antes era intervenção passou a se fruto de uma “intervenção divina”, disse em uma live. Em outra, sugeriu que quem não estivesse satisfeito que fosse embora da UFERSA. Chocada com a insatisfação do DCE, tentou colocar a Polícia Federal no encalço da estudante Ana Flávia Lira, coordenadora-geral da entidade. Acusou-a, dentre outras coisas, de fazer parte de uma organização criminosa.

A finalidade de criminalizar o movimento estudantil e de perseguir qualquer esboço de divergência foi percebida pelo Ministério Público Federal, que decidiu pelo arquivamento do inquérito policial e ainda processou a interventora pelo crime de denunciação caluniosa. Na mesma semana em que viu a tapioca virar, Ludimilla mostrou para o chefe que, apesar de neófita no bolsonarismo, não precisa se esconder para lustrar coturnos com a língua.

Em sua conta no Instagram, a interventora posou junto a um quadro do ditador Costa e Silva, general que governou o Brasil de 1967 a 1968. Foi da sua caneta que saiu o AI-5, marco do mais sangrento período da ditadura militar brasileira. Ludimilla não poderia ser mais coerente: foi durante o governo de Costa e Silva que houve intensas repressões ao movimento estudantil. Em março de 1968 o estudante Edson Luís de Lima Souto foi assassinado pela polícia durante um protesto no Rio de Janeiro. Em julho, mês seguinte à Passeata dos Cem Mil, foram proibidas manifestações nas ruas. Forças policiais do governo invadiram universidades para espancar e prender alunos e professores.

Vê-se que há pressa em mostrar serviço.

Pressa que vai ao ponto de seguir o exemplo de Genelício, personagem de Triste fim de Policarpo Quaresma, de Lima Barreto: “moço, menos de trinta anos, ameaçava ter um grande futuro. Não havia ninguém mais bajulador e submisso do que ele. Nenhum pudor, nenhuma vergonha! Enchia os chefes e os superiores de todo o incenso que podia”.

Cedo ou tarde, Costa e Silva sairá das paredes da reitoria da UFERSA junto com o entulho fascista que hoje ocupa o Palácio do Planalto. A história, entretanto, cuidará para que jamais esqueçamos dos genelícios e das escolhas que fizeram.

E a história, esta sim, é sempre implacável.

Gustavo Freire Barbosa

Gustavo Freire Barbosa
Advogado, mestre em direito constitucional pela Universidade Federal do Rio Grande do Norte. Coautor de “Por que ler Marx hoje? Reflexões sobre trabalho e revolução”.

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