O bolsonarismo e o lavajatismo não devem ser subestimados

Ambos não estão com a mesma força de pouco tempo atrás, mas seguem com uma base disposta a tudo para a volta ao passado

 (Foto: Marcos Corrêa / PR)

(Foto: Marcos Corrêa / PR)

Justiça,Opinião

A CartaCapital, em sua edição nº 1173, publicou reportagem que serve de alerta para o que pode vir nas próximas eleições. Assinada por Glenn Greenwald, Letícia Oliveira, Sofia Schurig e Victor Pougy, a matéria mostra como o lavajatismo, apesar de despojado de suas maiores estrelas e da força de seus tempos áureos, permanece vivo e atuante nos subterrâneos dos órgãos investigativos.

Os métodos preconizados por Moro e Dallagnol parecem ser o seu maior legado na cultura recente desses órgãos. Sabe-se que tais métodos foram publicamente escrutinados quando o The Intercept Brasil, ainda em 2019, divulgou as obscenas mensagens trocadas pelos integrantes da operação Lava Jato. Acuado, o lavajatismo, embora não reconhecesse a legitimidade das mensagens, renegou-as enquanto passava sucessivos recibos de sua existência, a exemplo de quando o próprio Moro gravou áudio pedindo desculpas ao MBL após ter xingado os ex-bolsonaristas capitaneados por Kim Kataguiri.

Na reportagem, os jornalistas mostram os contorcionismos da Polícia Federal e do delegado Zampronha para estabelecer uma nova linha de investigação que relacione os hackers que vazaram as mensagens com o PT. Para tal, buscaram, com base em uma delação que não se sustenta em pé, firmar o elo entre o hacker Walter Delgatti Neto e o ex-petista Antonio Pallocci. Como? A conexão entre ambos estaria em Luanna Thayna Costa, ex-namorada de um filho do então secretário de saúde dos tempos em que Pallocci fora prefeito de Ribeirão Preto há vinte anos. Como Delgatti e Luanna foram colegas no curso de Direito da Universidade em Ribeirão Preto, bastava ligar os pontos para concluir pela existência de um plano maquiavélico formulado em coautoria entre o ex-ministro e o hacker.

Essa versão fantasiosa buscar dar sobrevida à Operação Spoofing, que trata do inquérito instaurado para apurar o vazamento das mensagens. Greenwald e demais signatários vão ao ponto: “atualmente, o grupo político que se elegeu com o discurso anticorrupção, mas que aparelhou a Polícia Federal, quer soprepor o nome do ex-ministro na Operação Spoofing não somente para influenciar nas eleições de 2022, mas para desacreditar o conteúdo das mensagens divulgadas pela mídia.

Para justificar a existência da investigação, esta facção da PF recuou 20 anos para encontrar uma conexão extremamente distante entre Pallocci e Delgatti Neto, a envolver um conto de fadas intricado, confuso e distante baseado em um ex-secretário da administração de Pallocci, seu filho e sua ex-namorada, que coincidentemente estudou na mesma universidade do hacker”.

Uma parte considerável do lavajatismo compõe a direita ex-bolsonarista que foi às ruas no dia 12 de setembro.

Divergências entre as facções do conservadorismo podem existir por ora, mas se esvaem diante do enfrentamento ao PT. O antipetismo está no DNA tanto na turma de Moro quanto na de Bolsonaro, que, devotas do projeto ultraliberal que desde de 2016 vem pisando no acelerador da crise social e econômica, não hesitarão em formar unidade diante dos riscos de uma eleição do PT e da revisão de medidas como a emenda do teto de gastos.

Foto: José Cruz/Agência Brasil

Estando o lavajatismo vivo, ele precisa ser enfrentado tanto na sociedade quanto no sistema de justiça, instrumentalizado para pavimentar não só os caminhos da corrupção que dizia combater, mas para tocar um programa de morte e destruição ao estilo dos Chicago Boys de Pinochet – dos quais, sem qualquer coincidência, Paulo Guedes é das mais destacadas crias no Brasil.

Foi com a intenção de pôr um fim no messianismo moral e punitivista, tão caro aos lavajatistas e tão danoso à democracia, que os procuradores da República Emanuel Ferreira e Camões Boaventura ajuizaram uma ação civil pública contra a União em razão dos danos morais coletivos causados pela Lava Jato e por Sergio Moro aos brasileiros.

O ex-juiz atuou de forma inquisitiva e com fins políticos e não-republicanos, contribuindo sobremaneira para o impeachment de Dilma Rousseff e para a vitória eleitoral de Jair Bolsonaro, passando pela prisão e interdição eleitoral de Lula, hoje reformadas pelo judiciário. Superada a atmosfera de caça ao PT, o ex-presidente já soma 19 decisões judiciais favoráveis em processos iniciados pelo lavajatismo.

Em entrevista à Folha de S. Paulo, o professor universitário Pablo Ortellado sugeriu que o PT abra mão de seus “ressentimentos” com o lavajatismo e, em um ato de grandeza, se una às hostes lavajatistas e ex-bolsonaristas em nome de uma frente ampla e do bem maior da nação. A moral, entretanto, é sempre o pior dos métodos para analisar o que se passa nas esquinas da história. Ortellado se esquece da abissal diferença programática entre ambos os lados, e que a direita ex-bolsonarista é, quando muito, a favor de um bolsonarismo sem Bolsonaro; um bolsonarismo light, com muito antipetismo, ultraliberalismo e aprofundamento da austeridade fiscal e das privatizações, para ficar em duas das muitas expressões do comprometimento religioso com a “Ponte para o futuro” fincada pelo recém-ressuscitado Michel Temer.

As manifestações do dia 7 de setembro mostraram que o bolsonarismo, embora não esteja em sua melhor forma, continua com uma base social firme, barulhenta e disposta a ocupar as ruas com todo vigor. O lavajatismo, por sua vez, se encontra em situação parecida: vivo, porém sem o enraizamento e a solidez social do bolsonarismo, ainda a mais forte fração da direita. O bonde do primeiro, porém, tem lugar reservado para o segundo na hipótese do PT estar do outro lado.

Não devemos subestimá-los.

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Advogado, mestre em direito constitucional pela Universidade Federal do Rio Grande do Norte

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