Justiça
Justiça condena ‘coaches de pegação’ a 17 anos de prisão por exploração sexual em SP
Os crimes ocorreram no contexto de um programa chamado ‘Millionaire Social Circle’, divulgado como curso de desenvolvimento pessoal
O juiz substituto Caio José Greggio, da 4ª Vara Federal de São Paulo, condenou a 17 anos de prisão dois homens que se apresentavam como ‘coaches de pegação’ sob acusação de exploração sexual de mulheres, incluindo adolescentes, durante um evento realizado em 2023 no bairro do Morumbi, zona sul da capital paulista. Cabe recurso à decisão, publicada na última segunda-feira 6.
De acordo com o processo, movido pelo Ministério Público Federal, os crimes ocorreram no contexto de um programa chamado Millionaire Social Circle, divulgado como curso de desenvolvimento pessoal voltado a homens estrangeiros com dificuldades de relacionamento.
As investigações apontam que um grupo formado pelo norte-americano Mark Thomas Firestone, o brasileiro Fabrício Marcelo Silva de Castro Junior e o chinês Ziqiang Ke organizava encontros, como jantares e festas, para induzir mulheres a situações de exploração sexual, com promessas indiretas de vantagens econômicas, posição social e relacionamentos afetivos.
Ziquiang Ke não foi condenado neste caso porque não foi localizado e teve seu processo desmembrado.
O principal episódio analisado ocorreu em 26 de fevereiro de 2023, em uma casa de alto padrão no Morumbi. Segundo as apurações da Polícia Federal, o evento foi estruturado para atrair principalmente mulheres, com convites gratuitos, transporte por aplicativo pago, bebidas liberadas e registro intenso de imagens, depois divulgadas em redes sociais ligadas ao curso.
Um agravante do crime, de acordo com o MPF, teria sido a presença de adolescentes, incluindo ao menos uma jovem de 17 anos. Relatos de vítimas e testemunhas colhidos ao longo da apuração indicam que não houve controle efetivo de idade na entrada, apesar de a organização afirmar que o evento seria restrito a maiores de 18 anos.
Para o juiz do caso, mulheres foram retratadas como “resultados” das técnicas ensinadas aos participantes e que havia um ambiente previamente planejado para favorecer interações de natureza sexual. “Constatadas a autoria e a materialidade, evidenciou-se também o dolo dos acusados, na medida em que, agindo com ardil, induziram e atraíram as vítimas a este esquema transnacional de exploração sexual”, escreveu Greggio.
O magistrado considerou que Firestone era um dos líderes do esquema, responsável pela condução do curso, enquanto Castro Junior atuava na organização logística, incluindo a locação do imóvel e contratação de serviços. Ambos foram condenados a cumprir pena de 17 anos e seis meses de prisão em regime inicial fechado, além do pagamento de multa.
A prisão preventiva do brasileiro, em vigor desde março de 2025, foi mantida pelo juiz sob justificativa de risco de fuga e descumprimento de medidas cautelares. Já o norte-americano poderá recorrer em liberdade. A defesa de Castro Júnior disse ao jornal Folha de S. Paulo que recebeu “com inconformismo”, prometeu recorrer e citou supostos episódios de parcialidade e cerceamento do direito de defesa.
Em reação ao avanço das investigações, o Millionaire Social Circle parou de produzir os vídeos e publicá-los em seu perfil no YouTube. Os conteúdos gravados em São Paulo também foram apagados.
Leia a sentença:
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