Esporte

As armações do futebol brasileiro, o mercado de apostas e a ‘ditadura bet’

Operação Penalidade Máxima mira jogadores citados em esquemas de manipulação enquanto plataformas seguem impunes

Partida entre Bahia e Vila Nova, o time que denunciou o esquema ao MP-GO (Foto: Felipe Oliveira/EC Bahia)
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por Iago Vernek e Pedro Vilaça

“Começou em uma brincadeira e um dia acabei colocando uma grana lá. Aí veio aquela primeira ilusão, que você ganha, se empolga, se diverte com os amigos que apostam juntos e depois perde tudo”. Esta experiência de uma pessoa iniciante no mercado de apostas foi relatada por Caio Zandelli em entrevista ao podcast O Jogo é Hoje, ainda em 2021. Após “quebrar a banca” [perder toda a carteira de aposta] algumas vezes, Zandelli começou a pesquisar sobre o assunto e percebeu um mercado muito amplo. “Em uma partida de futebol, tem inúmeros tipos de apostas. Você pode apostar se vai sair um lateral, uma falta, um pênalti ou um gol”, afirma o convidado.

Atualmente, é impossível acompanhar futebol no Brasil sem topar com algum tipo de publicidade, patrocínio ou merchandising destas empresas. Na blusa dos times, nas diversas placas de publicidade dos estádios, nas televisões antes, durante e depois dos jogos e, claro, na internet.  

Diante de tantas possibilidades, os números das partidas são convertidos em dados e manipulados por algoritmos a partir da dinâmica de cotações (odd) e investimentos. Presente em diversos tipos de jogos de azar, a aposta esportiva ganhou relevância no território nacional, mediada por plataformas digitais estrangeiras. 

Em meio às investigações da Operação Penalidade Máxima, desencadeada pelo Ministério Público de Goiás (MPGO), onde mais de 50 atletas brasileiros já foram citados, crescem entre torcedores, clubes e imprensa a indignação e o temor de paralisação ou cancelamento de partidas e campeonatos. Para além do aliciamento de jogadores por agentes criminosos, há uma certa impunidade das casas de apostas, que constituem uma verdadeira “ditadura Bet”. Com a grana em campo e com tantos beneficiados, fica difícil encontrar quem comprará essa briga. 

Se este mercado não é uma novidade, as fraudes ligadas ao futebol também não são. Como esquecer o caso “Edílson Pereira de Carvalho” e os esquemas da “máfia do apito”, como se referiu a mídia aos crimes de manipulação dos resultados de jogos do campeonato brasileiro de 2005. Apesar de absolvido em processo penal julgado pelo Tribunal de Justiça de São Paulo (SP), em 2009, o árbitro foi banido do futebol e as partidas envolvidas foram anuladas e remarcadas.

Longe de ser o único país acometido em escândalos do tipo, no ano seguinte, em 2006, um episódio semelhante abrangeu alguns dos principais clubes italianos. Como punição, a Juventus foi rebaixada para a Série B da liga nacional, sendo que a equipe iniciaria a competição com 17 pontos a menos. Lazio e Fiorentina disputaram a Série A com 11 e 19 pontos negativos, respectivamente, enquanto o Milan perdeu oito pontos.

As fraudes são antigas, mas as técnicas cada vez mais modernas. A novidade fica por conta da facilidade das apostas e das estratégias. São tantas, que deixariam qualquer técnico assustado. Laranjas, contas em nome de terceiros e até robôs fazem parte de um esquema sofisticado e eficiente de fraude. Enquanto ainda estamos falando da necessidade de regulação, apostadores já usam técnicas avançadas para não serem pegos e até a inteligência artificial entra na jogada para despistar apostas suspeitas. 

Legislação nacional, modelos de negócio e lucratividade das bets

No Brasil, os jogos de azar foram proibidos por força do decreto-lei 9.215, de 1946, e se mantiveram assim até o fim de 2018, quando a Lei n.º 13.756, promulgada por Michel Temer, permitiu a realização da modalidade lotérica em apostas esportivas de quota fixa. A normativa previa uma futura legalização das plataformas de apostas, que operam sob taxas flutuantes e estão sediadas fora do território nacional. Justamente por conta da falta de regulamentação específica, há um impedimento para que elas sejam taxadas, sendo que a tributação incide apenas sobre as operações financeiras, mediadas por bancos. 

Já no governo de Bolsonaro, o jogo correu solto e boa parte dos problemas também são frutos da inércia da antiga gestão. Em um espaço sem regras, sem arrecadação de impostos e com muita fraude. Enquanto nenhum decreto foi assinado nos quatro anos do antigo governo, casos emergiram no provável maior escândalo de fraudes do nosso futebol. 

O país pentacampeão mais uma vez é falado no mundo, mas dessa vez não tem nada a ver com o talento dos jogadores e jogadoras e sim com as denúncias do Ministério Público de Goiás e o desmonte de mais um esquema no nosso futebol. Ameaças de morte, propinas e manipulação de resultados entram na jogada e jornais em diversos países repercutiram o caso. 

Recentemente, o atual governo federal enviou uma proposta de medida provisória (MP) para regulamentação das apostas esportivas. Com o novo marco legislativo, prevê-se criar limites e sanções, objetivando coibir fraudes, além da taxação do lucro das empresas e do prêmio de apostadores, desde que superior a R$ 2.112. Estas regras serão aplicadas e fiscalizadas pelo Ministério da Fazenda, cujo ministro, Fernando Haddad, disse que espera arrecadar de R$ 12 a R$ 15 bilhões com o recolhimento de impostos.

Para se ter ideia da ascensão desse mercado, até 2018 não havia sites de apostas estampados nos uniformes dos clubes de futebol no Brasil. Em 2019, a Série A contou com oito patrocínios destas empresas nas camisas de treze equipes (de 20 participantes). Na temporada seguinte, o número de patrocínios subiu para onze e os clubes patrocinados passaram a 18. Atualmente, 51 times das 3 divisões do futebol brasileiro (60 participantes) são patrocinados por 23 casas de apostas, abrangendo todos os 20 times da Série A. O investimento total atingiu um montante de R$ 327 milhões apenas no ano de 2023.

Os dados acima refletem, por um lado, a alta lucratividade do setor e, por outro, a péssima situação financeira da maior parte dos clubes brasileiros. E não para por aí. As principais competições do futebol nacional e sul-americano (Campeonato Brasileiro, Copa do Brasil, Copa Libertadores da América e Copa Sul-Americana) também se incluem no raio de ação das casas de apostas, seja por meio de acordos publicitários com veículos de transmissão ou federações esportivas, incluindo os chamados “naming rights” dos campeonatos.

Outro problema identificado está relacionado às outras séries e campeonatos menores. Se mesmo com toda visibilidade que a série A possui e os salários altos dos jogadores, atletas, dirigentes e árbitros já se envolveram esquemas de apostas, imagine em jogos onde muitos recebem um salário mínimo e a fiscalização é muito mais difícil. Um desses casos revelados foi o do Barretos, onde seis atletas do time se envolveram em uma fraude, perderam a partida intencionalmente e até gol contra fizeram. 

O esquema foi montado por um apostador do interior paulista e envolvia o site malaio Nova88. Além da influência nos resultados, esses sites estão ligados à lavagem de dinheiro, informação que muita gente desconhece. Dados do Ministério do Esporte francês, revelaram que 10% do dinheiro do crime organizado global é lavado nesses sites. Como apurou a reportagem “Salário mínimo em campo, milhões em jogo”, de Pedro Nakamura.

Além dos torneios nacionais e continentais, os estaduais de São Paulo, Rio de Janeiro, Minas Gerais, Rio Grandes do Sul, entre outros, possuem patrocínio destas empresas. E até mesmo o mercado de e-sports foi inundado por casas de apostas. Na contramão do futebol brasileiro, “os clubes da Premier League concordaram coletivamente em retirar o patrocínio de jogos de azar da frente das camisetas dos clubes”, a partir da temporada 2026/2027. Das atuais 20 equipes que disputam a elite inglesa, oito ainda possuem financiamento de casas de apostas.

Popularização, fábula e perversidade do mercado de apostas

Uma coisa é certa, nós sabemos que independentemente dos times e do jogo, as casas de apostas sempre saem ganhando e muitos brasileiros saem perdendo muito dinheiro. 

Longe de defender a punição de usuários das plataformas e a demonização dos jogos de azar, a situação atual nos permite uma reflexão mais profunda sobre os seus riscos para o futebol brasileiro. Para além do aliciamento de jogadores e árbitros, bem como das fraudes e dos esquemas de corrupção, a popularização do mercado de apostas carrega sérios danos à população, em um cenário de datificação da vida social.

Do “golpe do pix” à “máfia do apito”, da manipulação dos jogos ao aliciamento de atletas, a possibilidade de ganhar “dinheiro fácil”, repetida continuamente em infinitos anúncios e comerciais, causam um grande estrago no esporte e na vida da sociedade em geral.

Traçando um paralelo com o pensamento de um importante intelectual brasileiro, Milton Santos, ao discorrer sobre o capitalismo financeiro, diz que “entre os fatores constitutivos da globalização, em seu caráter perverso atual, encontram-se como a informação é oferecida à humanidade e a emergência do dinheiro em estado puro como motor da vida econômica e social”. O autor afirma ainda que, apesar de a comunicação ser essencial e imprescindível, “o que é transmitido à maioria da humanidade é, de fato, uma informação manipulada que, em lugar de esclarecer, confunde”.

Ao mesmo tempo, o lucro das grandes empresas e a disputa de interesses entre agentes poderosos impedem o avanço da regulamentação de setores econômicos importantes, como é o caso do futebol e das plataformas digitais. Por isso, o Intervozes, junto a diversas organizações da sociedade civil, lutou pela aprovação do Marco Civil da Internet e da Lei Geral de Proteção de Dados, assim como vem lutando pelo Projeto de Lei 2630/20, conhecido como “PL das Fake News”. Frente à voracidade das big techs, da mídia e do mercado financeiro, a busca se dá por uma legislação justa e democrática, fundamental ao pleno exercício da cidadania e dos direitos humanos.

O futuro do futebol brasileiro ameaçado

Muita coisa está em jogo e o próprio futuro do futebol é incerto. Com as crescentes manipulações reveladas, torcedores, jogadores e dirigentes temem que campeonatos sejam interrompidos pela justiça e a credibilidade cada vez mais ameaçada do nosso futebol seja destruída de uma vez. O fato é que a cada lance estranho, cada cartão, expulsão, falha de atleta, cada erro de arbitragem têm deixado muita gente desconfiada e com uma pulga atrás da orelha. 

O mesmo mercado que fatura trilhões por ano em todo mundo pode causar um prejuízo imensurável e irreversível ao nosso futebol. Resta saber se as ações da justiça no Brasil, se a ação do governo e outras medidas propostas vão trazer mais transparência às partidas ou se o dinheiro imediato falará mais alto e esse já é um jogo perdido. 

Racismo e Vini Jr.

Qualquer conteúdo que venha falar de futebol agora, precisa falar dos absurdos atos racistas, inacreditavelmente normalizados na Espanha, que ganharam destaques nestes últimos dias em todo mundo e que deixaram expostas a inércia, a conivência de dirigentes, clubes, atletas e autoridades. As lágrimas de Vinicius Jr. representam a dor que causa tanta violência, que acontece na sociedade e se reflete no campo, onde as pessoas ainda se sentem à vontade para destilar tanta ignorância e preconceito. 

O mesmo racismo que causou tanta dor em Vini, exclui, humilha e mata ao redor do mundo, inclusive no Brasil. Também precisamos, apesar de tudo, enxergar a coragem de um jogador de 22 anos que teve força para lutar, denunciar e apontar os racistas. O talento de Vini nos impressiona e a sua coragem também. É fundamental que ele entenda que não está só! Fiquemos atentos aos próximos atos dessas histórias.

Iago Vernek é professor da rede pública e membro do Conselho Diretor do Intervozes.

Pedro Vilaça é redator publicitário e da coordenação executiva do Intervozes

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