Entrevistas

‘Se o Lula vencer, eu volto para ajudar reconstruir o Brasil’, anuncia Jean Wyllys; leia a entrevista

O ex-deputado, hoje na Espanha, conta a CartaCapital o que espera da eleição deste ano e do futuro do bolsonarismo

Foto: Reprodução redes sociais
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Após três anos fora do Brasil, o ex-deputado federal Jean Wyllys projeta o seu retorno em definitivo. Em janeiro de 2019, ele acabara de ser reeleito e foi forçado a renunciar ao mandato em decorrência das ameaças de morte que sofreu de extremistas de direita.

Do exterior, viu a ascensão do presidente Jair Bolsonaro (PL) e acompanhou as promessas de campanha do ex-capitão se tornarem realidade em um País que naturalizou a violência, o ódio e as ameaças de golpe.

Hoje morador de Barcelona, na Espanha, Wyllys conversou com CartaCapital e apontou o motivo para a sua volta: a vitória do ex-presidente Lula (PT) na eleição de outubro deste ano.

“O Lula vencendo, eu volto porque eu vou fazer parte da reconstrução”, revelou em entrevista que vai ao ar na íntegra no canal de CartaCapital no Youtube. “Eu volto mais forte para ajudar”.

O professor, que se filiou ao PT, diz não acreditar que Bolsonaro, em caso de derrota, terá força suficiente para dar um golpe. Para ele, internacionalmente, não há ambiente para uma ruptura democrática no Brasil. “Eles podem até fazer porque são estúpidos, mas não vai durar muito tempo”, declara.

No entanto, mesmo com o País de volta à normalidade com o revés do atual presidente, Wyllys pontua que o bolsonarismo continuará vivo na sociedade brasileira. “Como diz o Umberto Eco, esse fascismo é eterno”.

Confira a seguir.

CartaCapital: Desde que deixou o País, após sofrer ameaças de morte, o senhor avalia que o Brasil piorou?

Jean Wyllys: O Brasil piorou substantivamente desde que eu saí. O País se deteriorou em todos os aspectos: economicamente, ambientalmente, moralmente, eticamente e esteticamente. A minha saída teve a ver com o amadurecido dessas forças políticas que levaram a essa piora.

CC: Como se deu a sua decisão de sair?

JWEu fui cobaia de um modelo de comunicação política da extrema-direita que me utilizou por uma série de características que eu tinha. Usaram mentira, calúnia e assédio que depois se estenderam a outras pessoas, como a Maria do Rosário, a Erika Kokay, a Manuela d’Ávila, a Patrícia Campos Mello, a Lula, ao PT, a esquerda. Essa forma de comunicação política baseada na mentira e no assédio ela pertence a extrema-direita, mas não é uma característica específica do bolsonarismo. Na verdade, quem elaborou essa tecnologia foram os grupos de extrema-direita, como o MBL e o Vem Pra Rua, e até hoje não sabemos quem de fato os financiou. Com todos os estudos que são feitos sobre as articulações internacionais da extrema-direita, é provável que eles receberam essa tecnologia de grupos de extrema-direita que estavam se organizando fora do Brasil, como a americana que criou o QAnon, grupo de teorias da conspiração, os do leste europeu, Hungria, Polônia e Rússia, além da extrema-direita alemã, espanhola e italiana.

Junto da difamação e do assassinato de reputação veio a ameaça de morte, que eu denunciei de maneira muito clara, muito reiterada, porque eu sabia que era preciso deixar a memória para depois a história não ser contada de outra forma. Eu fiz 17 denuncias na Polícia Federal, que não fez absolutamente nada. Eu busquei a Comissão Interamericana de Direitos Humanos da OEA e fiz uma denúncia e o Estado brasileiro, já sob o governo [Michel] Temer, negou deliberadamente que eu estava sob risco de morte. Diante dessa negativa, da vitória de Bolsonaro e da armação da extrema-direita de me relacionar ao suposto atentando que ele sofreu em 2018 ficou claro para mim que o ambiente já não era seguro e algo aconteceria comigo. Tudo me mostrou que o Brasil ia piorar drasticamente. A minha alternativa, para continuar lutando pelo Brasil e vivo, era sair.

CC: Há paralelo na eleição deste ano com a de 2018?

JW: A eleição deste ano vai ser violenta e o louco é que a gente considere que será violenta e trate como algo normal. Em 2018,  foi violenta porque veio em um contínuo de rupturas democráticas que desembocaram naquele ambiente terrível. Nós vivemos as manifestações parasitadas pela direita, porque elas não começaram como manifestações de direita e sim de esquerda, o golpe contra Dilma Rousseff disfarçado de impeachment e, partir daí, sucessivas rupturas no estado democrático de direito por meio da operação Lava Jato que foram enfraquecendo as instituições.

Teve também o papel da imprensa, que normalizou essas rupturas. Houve ainda o assassinato político de Marielle Franco, que ocorreu quando o Rio de Janeiro estava sob a intervenção do general Braga Netto. Tivemos o atentado ao Porta dos Fundos, o ataque a bomba à sede do PT, os tiros na caravana do Lula. Ou seja, foi uma escalada de violência que vinha desde o golpe de 2016. Ninguém estava preparado para aquilo, nem os institutos de pesquisa captaram. No Rio de Janeiro, uma figura completamente desconhecida e inexpressiva, o [Wilson] Witzel, por exemplo, vai para o segundo turno. Não tínhamos conta de que subterraneamente estava acontecendo uma campanha que não estava nos radares, que era essa campanha que utilizava os grupos de WhatsApp, o Telegram, e as mídias sociais de uma maneira que pegou todos nós de surpresa.

Agora, não tem surpresa. O governo Bolsonaro foi um governo de violência, um anti-governo, pois ele não governou, ele produziu inimigos. Bolsonaro seguirá utilizando a violência. Estranho é que haja um clima de violência sem que as instituições tomem alguma providência. E isso acontece porque parte dos militares está no governo. Essas pessoas que deveriam zelar pela lei e ordem estão invertendo os valores e promovendo a balburdia. Quando as Forças Armadas põem em suspeição o sistema eleitoral que elegeu o Bolsonaro e todos os congressistas bolsonaristas, sob a acusação que haverá desordem, elas têm o interesse de impedir o que as pesquisas apontam agora que é a vitória de Lula provavelmente no primeiro turno.

Depois do assassinato do tesoureiro do PT em Foz do Iguaçu torna-se muito mais sério e exige que não normalizemos isso, que a gente comece desde já a se colocar de maneira deliberada dizer: ‘não, as eleições vão acontecer e nós vamos votar porque nós queremos escolher o presidente’.  Nós derrubamos a ditadura para termos democracia e para que os militares fossem para a caserna e não se metessem em política, que é para civis. É importante e as pessoas comecem a se colocar, porque o que Bolsonaro e os militares querem é produzir o terror que dissemina o medo. Por isso, resolvi dar essa entrevista com a camisa do Lula. Fiz questão porque nunca a afirmação do meu voto foi tão importante. Eu e milhões de brasileiros queremos esse cara.

Wyllys durante a entrevista

CC: O Bolsonaro tem força institucional para dar um golpe?

JW: Eu não diria que ele não tem força porque uma parte das Forças Armadas está com ele. Ele conta também com as milícias. Os generais palacianos estão todos com ele por dois motivos e, não por acaso, muitos são candidatos. Tanto eles quanto o Bolsonaro estão medo de de serem responsabilizados pelos crimes que cometeram ao longo desses quatro anos. Os sigilos impostos têm uma função de blindar esses sujeitos que sabem que cometeram crimes. Todas as ditaduras e todos os governos autocráticos  sabem que podem em algum momento podem ser responsabilizados. Eles têm medo da vitória do Lula, da recomposição da democracia e do fortalecimento das instituições que possam julgá-los pelos seus crimes na pandemia, por exemplo. Sem falar nos crimes ambientais, perpetrados pelo Ministério do Meio Ambiente, principalmente durante a gestão de Ricardo Salles, que é acusado de tráfico ilegal de madeira, além dos assassinatos de lideranças indígenas e do Bruno Pereira e Dom Phillips. Toda essa balbúrdia e as ameaças têm a ver com o medo de ser responsabilizado.

Mas internacionalmente não há ambiente para esse golpe. O país que poderia apoiar o golpe, os Estados Unidos, não tem interesse. Eles têm seus próprios problemas, que é o trumpismo. A América Latina também não apoia, principalmente depois da eleição do [Gabriel] Boric [no Chile], de [Gustavo] Petro [na Colômbia] e do Alberto Fernandes na Argentina. A União Europeia muito menos. Então, não tem ambiente. Até porque não tem como o Brasil virar um desses países isolados, onde tiranos se revezam e o resto do mundo não não se preocupa. O Brasil é um continente, abriga a maior floresta tropical do planeta. O destino do clima no mundo depende do Brasil. Para nossa sorte, os olhos do mundo estão voltados para o Brasil. Então, o golpe implica enfrentar essas questões internacionais. Eles podem até fazer porque são estúpidos, mas não vai durar muito tempo, porque haverá reação interna dessa multidão que quer um outro País de volta.

CC: Qual a sua avaliação sobre as reações à pré-candidatura de Lula?

JW: O Lula tem antipatia por parte da imprensa, apesar de toda a humilhação imposta por Bolsonaro. E essa parte transforma a antipatia em desinformação. O Estadão, Folha de S.Paulo O Globo sabem que quando produzem uma notícia enviesada de uma declaração de Lula estão dando munição a uma rede de mentirosos. Eles acham que estão dando apoio para a Simone Tebet, mas quem está sendo beneficiado pela cobertura antipetista é Bolsonaro.

Da mesma maneira que as falas polêmicas para gerar engajamento, ainda que seja por meio do ódio, de Ciro Gomes não beneficiam a ele, até porque tem caído nas pesquisas e visto sua rejeição crescer. Ele sabe que o grande beneficiado é Bolsonaro. Quando ele diz em um podcast, de uma maneira absolutamente irresponsável, que Lula deu o Brasil a Bolsonaro para ele voltar depois como herói ele não está se beneficiando com isso. Isso é uma mentira escrota do por parte do Ciro. O PT manteve a resistência o tempo inteiro contra o bolsonarismo e sofreu com o crescimento da extrema-direita. As cenas de enforcamento contra Lula e Dilma eu estava lá e vi, tenho memória de como essas manifestações eram, o ódio homofóbico e racista. E quem esteve na ponta tudo isso foi o PT. Eu era do PSOL até Lula recuperar os direitos políticos. Quando ele ganhou os direitos novamente, eu pensei na frase do Torquato Neto: ‘eu só quero saber do que pode dar certo, não tenho tempo a perder’. O Brasil e a democracia correm risco. Eu não vou ficar em um partido que felizmente agora soube maduro, mas até aquele momento estava agindo como se estivesse numa democracia normal e não estávamos.

Então, é hora de responsabilidade e a imprensa não tem sido responsável. Em busca da terceira via, desse Santo Graal, ela vai fortalecendo o bolsonarismo. E isso é seríssimo, porque se o Bolsonaro vence acabou o Brasil e acaba para muita gente da imprensa. É hora dessa imprensa ser responsável. Há tempo para produzir um candidato até a próxima eleição. Mas, pelo amor de Deus, vamos nos livrar do fascismo.

CC: Em caso de vitória do Lula, a relação do PT com a imprensa vai mudar?

JW: Vou dar essa resposta com base no histórico dessa imprensa: não, ela não vai mudar. A imprensa é atavicamente antipetista porque o o PT é um partido que nasce dos movimentos contra a ditadura militar: a esquerda católica orientada  pela Teologia da Libertação, os intelectuais das universidades e o movimento sindical. Desde então,  esse partido-movimento vem sendo atacado, claro, porque a imprensa apoiou a ditadura militar. Essa imprensa foi contra o PT porque o partido era a favor da redemocratização, da Constituinte, da democracia. Quando o Lula vence a eleição, a imprensa até o engole porque ele acumulou um capital político, sentou com a classe dominante e disse: ‘olha, vamos fazer um país juntos’. Lula sempre foi do diálogo, que respeitou a imprensa, mas a imprensa segue o desrespeitando.

O PT continuará respeitando a imprensa, vai seguir defendendo a imprensa livre suportando as críticas porque democracia é isso: aceitar ser criticado. O Lula não só aceitou ser criticado, como também difamado a partir de uma narrativa mentirosa que o levou à prisão. E essa imprensa apesar do desmascaramento da Lava Jato e da queda de Sérgio Moro nunca pediu desculpas. Ao contrário, ela fica pedindo autocrítica do PT. Autocrítica de quê? Esta é a pergunta que eu faço. Se o PT errou em alguma coisa foi em relação à agenda de esquerda. Eu posso pedir autocrítica ao PT sobre as terras indígenas, Belo Monte. Nós da esquerda temos uma lista, mas compreendemos que Lula, no acordo que ele fez, não seria capaz de avançar tanto, mas ainda assim avançou muito com Bolsa Família, política de cotas nos concursos públicos e nas universidades, no acesso à internet, na construção de universidades federais. Ou seja,  mexeu na estrutura social.

CC: Como fica o bolsonarismo com a derrota do Bolsonaro?

JW: Não vai desaparecer, porque o bolsonarismo, o trumpismo nos Estados Unidos e o franquismo na Espanha são variantes do fascismo, que existia antes mesmo de ganhar esse nome. Como diz o Umberto Eco, esse fascismo é eterno. Mas a derrota do Bolsonaro arrefece em um primeiro momento. O fato das estruturas públicas saírem das mãos dessa quadrilha e irem para as mãos de pessoas comprometidas com a diversidade política e cultural já permite que a gente vá reconstruindo sobre a ruína, entre outras coisas, o cordão sanitário em torno do bolsonarismo. Mas ele não vai desaparecer.

CC: Em caso de vitória do Lula, o senhor volta ao Brasil?

JW: O Lula vencendo, eu volto porque eu vou fazer parte da reconstrução. O Lula vai precisar de muitos braços, inclusive no Parlamento. Eu espero que sejam eleitos muitas deputadas e muitos deputados de esquerda, centro-esquerda e da direita civilizada. Então, pelo amor de Deus, figuras do naipe de Arthur Lira não podem ser reeleitas, sobretudo depois do papel que ele desempenhou nessa ruína. O Lula vai precisar de pessoas como eu e de gente que está disposta a reconstruir o País, cada um no seu papel.

Para mim, foi muito importante esse tempo fora do Brasil. Eu me protegi dessa violência, porque, sim, alguma coisa se passaria comigo, eu tenho certeza disso, por tudo o que eu vivi, as ameaças que eu sofri e por todo o protagonismo que eu tive em um primeiro momento contra a figura do Bolsonaro. Houve um momento que quem enfrentava o Bolsonaro era eu e ele ainda não tinha se convertido no inimigo da nação.

Fora do País passei por um momento de cura. Foi um período para me recompor, me refazer em um processo de aprendizado. Desenvolvi uma habilidade importantíssima, que é me comunicar por meio das artes plásticas. Eu volto aparelhado e mais forte para ajudar o Lula.

CC: Por falar em artes plásticas, o senhor inaugurou uma exposição na Espanha.

JW: Essa primeira exposição reúne somente os trabalhos que eu fiz tendo o jornal como suporte. Essa intervenção artística dialoga com a notícia. Não é só usar um jornal como suporte, mas intervir e criar um diálogo. Tem a ver com toda a minha formação jornalística e com a ideia de que a notícia não é transparente, no sentido de que não é uma que você abre para o mundo. É uma janela com um filtro. É para explicar essa coisa da desinformação, de que mesmo a notícia em um jornal sério é um enquadramento e um recorte que constrói uma realidade.

Em outubro, eu tenho uma outra exposição mais completa com todos os meus trabalhos em Barcelona. Essa, sim, eu devo levar para o Brasil na minha volta.

Assista a íntegra:

Alisson Matos

Alisson Matos
Editor do site de CartaCapital. Twitter: Alisson_Matos

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