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Os reis da selva

O crime organizado domina a floresta, afirma o delegado Alexandre Saraiva, perseguido pelo governo Bolsonaro

Segundo Saraiva, o PCC não tem força para deter investigações. Os poderosos estão infiltrados no Estado - Imagem: Reprodução TV e Felipe Werneck/Ibama
Segundo Saraiva, o PCC não tem força para deter investigações. Os poderosos estão infiltrados no Estado - Imagem: Reprodução TV e Felipe Werneck/Ibama
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Afastado da Superintendência da Polícia Federal do Amazonas depois de comandar as operações Androanthus e ­Akuanduba, responsáveis por apreender o maior volume de madeira ilegal da história e que culminaram na queda do ex-ministro do Meio Ambiente Ricardo Salles, o delegado Alexandre Saraiva relata nesta entrevista à repórter Ana Flávia ­Gussen os bastidores de outra ação policial, a Korubo, em parceria com o indigenista Bruno Pereira, desaparecido na floresta há mais de uma semana. A Korubo foi um dos motivos que levaram à exoneração de Pereira da coordenação dos índios isolados da Funai pelo então ministro Sergio Moro. “As organizações criminosas têm boa parte da administração pública no bolso”, afirma o delegado.

CartaCapital: O senhor chegou a trabalhar com Bruno Pereira. Qual a relevância do trabalho do indigenista?

Alexandre Saraiva: Fiz operações como superintendente da Polícia Federal no Amazonas ao lado de Bruno. Uma delas, em 2019, das mais bem-sucedidas, foi a Korubo, quando destruímos 60 balsas de garimpo ilegal que atuavam próximo a terras de índios isolados no Vale do Javari. À época, usamos tecnologia de satélites para mapear os garimpeiros e a alta cúpula do Ibama não queria a operação, que só foi adiante por decisão judicial. Um mês depois, o Bruno foi exonerado da coordenação dos índios isolados.

CC: Em algum momento vocês chegaram a ser pressionados pelo governo ou sofrer algum tipo de coerção ou ameaça?

AS: Lembro de uma conversa sobre essa operação em Brasília. O Bruno também estava. Um agente público, posteriormente alvo da Akuanduba (contra a exportação ilegal de madeira que mirou Ricardo Salles e o atual presidente do Ibama, Eduardo Bim), disse que a operação era um absurdo, pois destruíamos as balsas dos garimpeiros. Olha o absurdo. A balsa é o instrumento do crime, no local do crime. E eu falei em reuniões com o Comando Militar da Amazônia: vamos destruir, pois, se eu não o fizer, é prevaricação.

“VIROU UMA REGIÃO DOMINADA PELA CRIMINALIDADE E TOTALMENTE SEM CONTROLE DO ESTADO”

CC: Como funcionava o trabalho de Bruno e qual a sua importância para o combate ao crime organizado e defesa dos povos isolados?

AS: O Bruno sempre foi um servidor público com excelente diálogo com as comunidades ribeirinhas e indígenas, mas também com a Polícia Federal e o Ministério Público. A sua relação com a PF começou antes da minha gestão, continuou durante e depois que saí. Ele era como um funil por onde chegavam muitas informações. Realmente, sabia o que acontece ali. O Bruno sempre foi mais que um colaborador. Era um articulador de primeira ordem.

CC: Como atuam as organizações criminosas no Vale do Javari?

AS: No Vale do Javari, aliás, na Amazônia toda, as organizações criminosas ­atuam onde tem dinheiro fácil. Tem pesca ilegal de pirarucu, criação de tartaruga, extração ilegal de madeira, tudo isso dá dinheiro fácil. Eles criam uma holding. Virou uma região dominada pelo crime e totalmente sem controle, exatamente pela ausência de um guardião: o Estado. O guardião pode ser um satélite, podem ser os fiscais da Funai, uma câmera ou um posto. O importante é o que chamo de efeito da Lei Seca: a probabilidade de alguém cair é baixa, mas o fato de ter uma blitz reduz em 80% as chances de alguém beber e dirigir.

CC: O presidente Jair Bolsonaro manifestou-se publicamente contra as medidas tomadas pelas instituições de fiscalização e defesa, como a destruição de máquinas do garimpo ilegal. Ele prometeu aos próprios garimpeiros que atuaria contra isso. O que acha?

AS: Quando afundamos as 60 balsas na Korubo, teve “gente da alta cúpula” do governo que ficou com esse discurso e até falava em “dó do pequeno garimpeiro”. Cada balsa custa de 100 mil a 150 mil reais, no mínimo. Isso, sem contar que quem opera e trabalha nisso muitas vezes está em condição análoga à escravidão. Então, quem realmente ganha dinheiro não está ali. É gente que de certa forma tem ligação até mesmo com a alta cúpula de alguns governos estaduais e que há anos é eleita para o Congresso. Essas organizações criminosas têm boa parte da administração pública no bolso.

CC: Como avalia a tentativa do presidente da República e do presidente da Funai de desqualificar o trabalho de Bruno e Dom?

AS: Quando se tem um presidente da Funai que defende o garimpo ilegal, a sociedade civil se vê obrigada a tomar a frente. O vácuo deixado pelo Estado é ocupado pelo crime.

O delegado aconselha os cidadãos: evitem comprar madeira da Amazônia. Faça a sua parte – Imagem: Felipe Werneck/Ibama

CC: Qual é o cerne dessa antipolítica ambiental implementada pelo governo?

AS: Quando se é governo, há o poder de indicar um determinado perfil para ocupar funções. É uma prerrogativa do presidente. Pode escolher gente comprometida com a defesa do meio ambiente ou outros perfis, voltados para crimes ambientais. É na hora de montar um time que se definem as prioridades. Dou outro exemplo de prioridade. No meu último ano na superintendência, foram enviados seis delegados federais para o Rio de Janeiro e dois para o Amazonas.

CC: O governo Bolsonaro foi marcado por espetaculosas operações de garantia da lei e da ordem na Amazônia que parecem não ter funcionado, apesar dos investimentos de 500 milhões de reais. Por que deu em nada?

AS: Não bastava colocar um tanto de militares do Exército, mas de aliar a força à inteligência, a partir de ações coordenadas com a Polícia Federal e o Ibama. Na época da GLO, eles nunca nos perguntaram nada. Existe a doutrina das Forças Armadas: os militares vivem à espera do inimigo externo, que nunca chega. Existem, no entanto, insurgentes criminosos que destroem o Estado por dentro.

CC: Em nota, o Comando Militar da Amazônia disse estar ciente do desaparecimento de Pereira e Phillips, mas que “aguardava o acionamento por parte do alto escalão”. Má vontade?

AS: É uma linha de comando muito lenta, muito vagarosa. Certa vez, eu estava com o pessoal dos direitos humanos em uma comunidade Munduruku, sob ataque. Eu precisava do Exército, um general empenhado em ajudar, mas a linha de comando estava totalmente agarrada.

“AS ORGANIZAÇÕES CRIMINOSAS TÊM BOA PARTE DA ADMINISTRAÇÃO PÚBLICA NO BOLSO”

CC: Dá para conter ou diminuir essa escalada criminosa na Amazônia?

AS: Existem saídas. Satélites de imagem podem mapear uma determinada área. Depois, basta mandar a equipe e ela destrói as máquinas, no caso do garimpo, por exemplo. Fizemos a operação ­Xawara (termo indígena para as doenças causadas pela fumaça exalada na queima do mercúrio, metal poluente usado nos garimpos de ouro) e a PF conseguiu apreender dez aviões, suspendeu a habilitação de oito pilotos e destruiu pistas abertas em clareiras na floresta. Os garimpeiros que exploravam terras indígenas Ianomâmi foram asfixiados, eram de 3 mil a 5 mil e saíram quase todos. Na época, tínhamos uma base no Rio Uraricuera, da Funai, Ibama, PF e Exército, que foi fechada depois. Hoje existem mais de 20 mil garimpeiros lá. Isso tem nome: descaso.

CC: Se existem formas e elas deram certo em algum momento, por que nada é feito?

AS: Olha, do ponto de vista operacional é possível, mas do ponto de vista burocrático é complicado, pois começam a enviar ofícios ao Ministro da Justiça, como fizeram alguns senadores, como Jorginho Mello (PL-SC) e Telmário Mota (Pros-RR), depois que eu denunciei os empresários, políticos na Androanthus e Akuanduba, por exemplo. O PCC nunca derrubou um superintendente da Polícia Federal, essa organização criminosa sim.

CC: O senhor já foi ameaçado? Que conselho daria para quem se preocupa com a Amazônia?

AS: Fui alvo e foram encontradas fotos minhas em operações com um alto na cabeça escrito “a ser abatido”. Eu saí de lá por ter sido afastado. Se tenho algo a aconselhar? Não comprem ipê, maçaranduba, não comprem ouro ilegal. A sociedade também pode ajudar a mudar essa realidade. Parar de consumir também é um meio de salvar a Amazônia. •

PUBLICADO NA EDIÇÃO Nº 1213 DE CARTACAPITAL, EM 22 DE JUNHO DE 2022.

Este texto aparece na edição impressa de CartaCapital sob o título “Os reis da selva”

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Ana Flávia Gussen
Repórter da revista CartaCapital

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